Em um cenário político brasileiro dominado por escândalos e disputas internas, os desafios estratégicos que moldarão o futuro da nação permanecem alarmantemente ausentes do debate eleitoral. Temas cruciais como o envelhecimento populacional, a transição energética e a capacidade de processar minerais críticos do subsolo nacional, que exigem soluções baseadas na ciência e inovação, são relegados a segundo plano. A presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, expressa profunda preocupação com o esvaziamento das discussões sobre esses e outros assuntos vitais, agravado pela polarização e pelas denúncias que atualmente monopolizam a atenção pública.
A Falsa Dicotomia: Integridade Institucional ou Projeto de Desenvolvimento?
Francilene Garcia, doutora em engenharia elétrica e pesquisadora à frente da mais importante entidade de promoção da ciência e tecnologia no Brasil desde 2025, critica veementemente a percepção de que o país é forçado a escolher entre sanear suas instituições e planejar seu futuro. Para a presidenta da SBPC, essa dicotomia é errônea, pois a integridade institucional e um projeto de desenvolvimento robusto são pilares interdependentes de uma mesma agenda nacional. Ela enfatiza que a ciência, em particular, prospera em ambientes de regras estáveis, orçamentos previsíveis e atenção contínua, fatores que se tornam escassos quando o foco da campanha se desvia para questões de caráter imediato e pessoal.
Desafios Nacionais Ignorados pelo Discurso Eleitoral
Apesar de sua urgência, uma série de desafios estratégicos de curtíssimo prazo para o Brasil não encontra espaço significativo nas plataformas eleitorais. A SBPC destaca a importância de se abordar o envelhecimento da população, que demanda políticas inovadoras em saúde e previdência, bem como a imperativa transição energética para um modelo mais sustentável. A capacidade de processar minerais críticos, essenciais para a indústria global e a transformação digital, representa outro ponto negligenciado, impedindo o país de capitalizar seus próprios recursos. Adicionalmente, a preparação para futuras crises sanitárias, os impactos crescentes das mudanças climáticas nas cidades e o avanço da transformação digital são temas que, apesar de sua relevância inquestionável para a resiliência e competitividade do país, permanecem à margem das discussões dos candidatos.
Ciência no Brasil: Entre Crises e a Persistente Margem do Debate
Historicamente, a ciência no Brasil tem sido relegada a um papel secundário no debate político. Contudo, essa dinâmica sofreu pequenas, porém significativas, inflexões em momentos de grande adversidade. A pandemia de COVID-19 em 2020 trouxe a temática científica para o centro das discussões, assim como os eventos climáticos extremos de 2024 – como enchentes no Rio Grande do Sul, queimadas no Centro-Oeste e a escassez hídrica nas regiões Norte e Nordeste – que temporariamente elevaram a pauta ambiental e de pesquisa. Paradoxalmente, a crise político-institucional atual tem revertido esse avanço, esvaziando não apenas a participação dos candidatos em debates, mas também a profundidade das temáticas relevantes para a construção de um projeto de nação. Francilene Garcia observa que, enquanto países líderes globais discutem abertamente o aproveitamento de recursos como as terras raras, cruciais para a indústria de transformação digital, o Brasil se distancia dessa agenda estratégica.
O Observatório das Eleições e a Luta por Engajamento Político
Diante do cenário de esvaziamento do debate, a SBPC lançou o “Observatório das Eleições”, uma iniciativa proativa que visa engajar candidaturas e qualificar as discussões eleitorais. A plataforma disponibiliza mais de cem propostas de políticas públicas consideradas essenciais para o desenvolvimento do país, abrangendo desde mudanças climáticas e seus impactos urbanos até o risco de novas pandemias e o processo de transformação digital. Contudo, os resultados iniciais mostram um baixo engajamento: até o momento, pouco mais de uma centena de candidaturas se envolveram, sendo apenas uma de âmbito federal executivo e nenhuma em nível de governo estadual. Essa falta de adesão, segundo a presidente da SBPC, demonstra a dificuldade de inserir a agenda científica e de desenvolvimento estratégico no foco das campanhas atuais, impactadas significativamente pela dimensão da crise político-institucional.
Conclusão: O Apelo Urgente por um Debate Focado no Futuro
A ausência da ciência e dos debates estratégicos no atual panorama eleitoral brasileiro representa um risco significativo para o futuro do país. A SBPC, através de sua presidente Francilene Garcia, faz um apelo urgente para que eleitores e candidatos transcendam as disputas momentâneas e reconheçam que a integridade institucional e o planejamento de longo prazo, intrinsecamente ligados à pesquisa e inovação, são pilares para um desenvolvimento sustentável e resiliente. Ignorar esses temas é adiar a construção de um Brasil mais preparado para os desafios do século XXI, comprometendo sua capacidade de progredir e garantir bem-estar para sua população.

