Congresso Nacional Alcança Número Histórico de Mulheres Eleitas, Mas Desafios Persistem

Dinael Monteiro
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© Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

O cenário político brasileiro testemunhou um avanço significativo nas últimas eleições, com a elevação da bancada feminina a um patamar histórico no Congresso Nacional. Tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, o número de mulheres eleitas atingiu recordes, marcando um novo capítulo na representatividade feminina no país. Este crescimento notável, no entanto, é acompanhado por uma análise crítica sobre os desafios persistentes na busca pela equidade plena e pelo impacto efetivo na agenda política.

Recorde de Representação Feminina nas Casas Legislativas

Na Câmara dos Deputados, a participação feminina expandiu-se de 90 para 109 cadeiras, um incremento de 21%. Esse resultado é particularmente notável considerando a redução no número de candidatas: houve uma queda de 24% em relação ao pleito anterior, passando de 3.317 para 2.820 mulheres que concorreram ao cargo de deputada federal. Tal dinâmica sugere uma maior eficácia das campanhas e um possível amadurecimento do eleitorado na escolha de lideranças femininas.

O Senado Federal também registrou um marco histórico. Foram eleitas doze mulheres para as 54 vagas em disputa, o maior contingente desde a redemocratização. Em comparação, nas eleições de 2018, quando dois terços da Casa foram renovados, apenas oito mulheres haviam conquistado um assento. Com este novo resultado, o total de senadoras passará dos atuais quinze para dezoito integrantes a partir do próximo ano, consolidando uma bancada feminina mais robusta.

Avanço Aquém da Equidade Plena

Apesar dos números expressivos, as mulheres ainda se configuram como minoria nas duas Casas Legislativas. Na Câmara, a bancada feminina representará 21% dos 513 deputados da próxima legislatura. Entre os grupos partidários, a federação composta por PT, PCdoB e PV destacou-se por eleger a maior parcela de mulheres, contribuindo com 34 das 109 eleitas. No Senado, as mulheres ocuparão 22,2% das 81 cadeiras, evidenciando que, embora o progresso seja inegável, a paridade está longe de ser alcançada.

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A distribuição geográfica dessa representatividade também revela contrastes. O Distrito Federal, com duas novas eleitas e uma representante já em exercício, tornar-se-á a única unidade da Federação com três senadoras. Em contrapartida, o Piauí permanece como o único estado na história do país que nunca elegeu uma mulher para o cargo de senadora, refletindo as desigualdades regionais na participação política feminina.

Impacto na Agenda Política Feminina e Diversidade de Visões

O aumento numérico de parlamentares não se traduz, necessariamente, em políticas públicas direcionadas exclusivamente às necessidades das mulheres. Essa é uma ponderação levantada pela professora de Ciência Política da Universidade de Brasília, Flávia Biroli, que observa a crescente diversidade de pensamento entre as mulheres eleitas. Segundo a especialista, a pluralidade de visões pode incluir a defesa de perspectivas que não priorizam agendas igualitárias ou que até mesmo se alinham a pontos de vista patriarcais.

Como exemplo, Biroli cita a possibilidade de mulheres eleitas que apoiam visões econômicas prejudiciais à maioria feminina, como o caso da senadora que votou contra a lei de igualdade salarial entre mulheres e homens. Isso sublinha a complexidade da representatividade e a importância de analisar não apenas a quantidade, mas também a qualidade e o alinhamento ideológico das pautas defendidas pelas eleitas.

Mulheres Negras: Ganhos na Câmara, Perdas no Senado

A representação das mulheres negras apresentou um cenário de contrastes. Na Câmara dos Deputados, houve um avanço notável: um levantamento da Organização Mulheres Negras Decidem contabilizou a eleição de pelo menos 15 deputadas federais negras, um aumento expressivo de 66,6% em relação a 2022, quando 9 foram eleitas. Tainah Pereira, coordenadora política da organização, celebra esse progresso, destacando a predominância de mulheres jovens entre as eleitas, o que sugere uma importante renovação feminina e negra no cenário político, com boas expectativas para suas atuações.

No Senado, contudo, o quadro foi de retrocesso. Nenhuma das doze senadoras eleitas neste pleito é negra. O fato ressalta a dificuldade histórica de acesso das mulheres negras a essa Casa. Nomes como Eliziane Gama, que é autodeclarada negra e não foi reeleita pelo Maranhão, e as ex-senadoras Mariana Silva e Benedita da Silva (a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado em 1998) ilustram a escassez de representatividade, já que, até hoje, apenas quatro mulheres negras foram senadoras no Brasil.

Um Olhar Histórico sobre a Representação Negra no Senado

Mariana Silva, que concorreu por São Paulo, já havia sido senadora pelo Acre por dois mandatos entre 1995 e 2011. A perda de candidaturas como a dela e a de Benedita da Silva, que disputou pelo Rio de Janeiro, evidenciam que a barreira para a eleição de mulheres negras no Senado permanece alta, apesar dos avanços observados em outras esferas legislativas. Este resultado reforça a necessidade de estratégias mais eficazes para garantir que a diversidade racial também seja refletida na composição da Casa Alta.

Em suma, o pleito mais recente consolidou um marco na participação política das mulheres no Congresso Nacional, com números recordes em ambas as casas. Contudo, a análise aprofundada revela que o caminho para a equidade plena e para a garantia de que essa representatividade se traduza em políticas públicas efetivas é longo e desafiador. As nuances na representação de mulheres negras e a diversidade de pautas entre as eleitas indicam que, apesar dos avanços, a luta por uma representação verdadeiramente inclusiva e engajada com as demandas de todas as mulheres continua sendo uma prioridade urgente no cenário político brasileiro.

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