FMI Reduz Otimismo para a América Latina: Crescimento em Queda Diante de Desafios Globais e Tecnológicos

Dinael Monteiro
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© REUTERS/Yuri Gripas/Proibida reprodução

O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo, mais uma vez, suas projeções de crescimento econômico para a América Latina e o Caribe, abrangendo o ano corrente e o próximo. Em seu relatório 'Perspectiva Econômica Global', divulgado recentemente em Bangcoc, a instituição apontou que a região não está conseguindo capitalizar os benefícios da aceleração da inteligência artificial (IA), um fator que tem sido crucial para outras economias absorverem os impactos do choque energético global, exacerbado pela guerra no Oriente Médio.

Este cenário desfavorável para a América Latina contrasta com a leve melhora na perspectiva mundial, que viu sua projeção de crescimento global ser elevada. A análise do FMI sublinha uma 'economia global dividida', onde a capacidade de adaptação e o investimento em novas tecnologias ditam a resiliência em meio a um ambiente econômico complexo.

Perspectivas Regionais em Declínio

As novas estimativas do FMI indicam um crescimento regional de 2,3% para este ano. Esta cifra representa uma desaceleração, tanto em relação aos 2,5% projetados para 2025 quanto aos 2,4% previstos em julho passado para 2026. Para o ano de 2027, a projeção foi igualmente ajustada, caindo de 2,7% para 2,5%. Tal regressão acontece mesmo em um contexto onde o Fundo elevou ligeiramente sua previsão de crescimento mundial para 3,1% em 2024, um aumento em comparação com os 3% de julho, atribuindo essa resiliência global ao redirecionamento dos suprimentos de energia e aos investimentos robustos impulsionados pela inteligência artificial. A América Latina, no entanto, permanece à margem desses impulsos tecnológicos.

O Impacto Global do Cenário Energético e Tecnológico

O conflito no Oriente Médio transformou a energia em um vetor de choque inflacionário global, com os preços do petróleo Brent cerca de 45% acima dos níveis pré-guerra. Esse aumento nos custos de combustível e energia tem exercido uma pressão considerável sobre orçamentos familiares e operações empresariais em todo o mundo. A persistência dos temores inflacionários, por sua vez, contribuiu para elevar os custos globais de financiamento a patamares não vistos em décadas.

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Para a América Latina, o efeito do choque energético é complexo e multifacetado. Segundo o FMI, ele dependerá fundamentalmente da capacidade dos exportadores de commodities da região de superar as perdas dos países importadores de energia. Adicionalmente, a credibilidade das metas de inflação estabelecidas pelos bancos centrais desempenha um papel crucial. A análise do Fundo é clara ao afirmar que a maioria dos países latino-americanos obtém 'pouca compensação proveniente da recuperação do setor tecnológico', evidenciando a lacuna na adoção e nos benefícios da IA, que tem sido um motor de crescimento em outras partes do globo.

Análise por Países: Um Cenário Heterogêneo

Apesar da tendência regional de queda, o relatório do FMI revela uma performance variada entre as principais economias da América Latina, com alguns países enfrentando revisões mais severas que outros.

Argentina: A Maior Revisão Negativa

A Argentina destaca-se com a maior redução em sua estimativa de produção. O FMI agora prevê que o crescimento econômico do país desacelere para 2,1% neste ano, um contraste marcante com os 4,5% projetados para 2025 e significativamente abaixo dos 3,5% previstos em julho. Para 2027, a previsão foi reduzida de 4% para 3,5%. Em uma nota mais positiva, o relatório indica que a inflação argentina deve apresentar uma queda, de 41,9% em 2025 para 32,5% em 2024.

Brasil: Crescimento Contido por Desafios Internos

As projeções de crescimento para o Brasil também sofreram quedas, passando para 2,2% neste ano e 1,9% para 2027, em comparação com os 2,4% e 2,2% estimados em julho, respectivamente. Anteriormente, o FMI esperava que o crescimento brasileiro se mantivesse 'resiliente' neste ano. A desaceleração prevista para o próximo ano é atribuída a condições monetárias ainda restritivas, visando o retorno da inflação à meta, à retirada gradual do apoio fiscal do governo e ao cenário de incerteza global que afeta o país.

México: Um Ponto de Destaque com Ressalvas

Em contraste com grande parte da região, o México seguiu um caminho parcialmente oposto para algumas projeções. A previsão de crescimento para 2026 foi elevada de 1,2% para 1,5%. Anteriormente, o Fundo havia associado a recuperação esperada do México a políticas internas menos restritivas. Atualmente, a melhora é atribuída principalmente às exportações – inclusive por meio de cadeias de suprimentos ligadas à IA – e ao investimento, que está se estabilizando à medida que o crescimento acelera no próximo ano. Contudo, o FMI reduziu a previsão para o México em 2027, de 1,9% para 1,8%, e alertou que o comércio e outras incertezas continuarão a frear a atividade econômica.

Outras Economias em Destaque

O relatório também apresenta dados específicos para outras nações. O Chile deverá ver seu crescimento desacelerar significativamente de 2,5% para 0,6% neste ano. A Bolívia projeta uma contração de 3%, após uma queda de 1,6% em 2025. Na Venezuela, a inflação está prevista para acelerar de 252% para alarmantes 467,9%.

Riscos e Incertezas no Horizonte

O FMI enfatizou que os riscos para a perspectiva econômica da América Latina continuam inclinados para o lado negativo. A instituição alertou que a turbulência nos mercados financeiros globais pode afetar as economias emergentes da região de múltiplas formas. Isso inclui o aumento dos custos de endividamento público, pressão cambial sobre suas moedas nacionais e um aperto nas condições financeiras locais, dificultando o acesso a crédito e investimento. Este cenário exige vigilância e políticas fiscais e monetárias prudentes para mitigar os impactos adversos.

Em resumo, a América Latina enfrenta um período desafiador, com a ausência de um impulso significativo da tecnologia de IA e a vulnerabilidade aos choques energéticos globais moldando um horizonte de crescimento mais modesto. A heterogeneidade das projeções entre os países da região destaca a importância de abordagens políticas adaptadas às realidades e desafios específicos de cada nação.

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