Vovó Vota: A Voz Experiente Que Fortalece a Democracia Brasileira

Dinael Monteiro
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© Joédson Alves/Agência Brasil

Em um cenário onde a participação cidadã é frequentemente desafiada pela abstenção, um movimento notável tem emergido para resgatar o poder do voto, especialmente entre a população idosa. O “Vovó Vota”, uma campanha apartidária, mobiliza avós e suas famílias para exercerem seu direito cívico, sublinhando a importância da experiência e da memória histórica na construção democrática do país. Essa iniciativa ganha ainda mais relevância considerando que o Brasil conta com aproximadamente 16 milhões de eleitores com mais de 70 anos, um grupo que, desde a Constituição de 1988, possui voto facultativo e historicamente apresenta altos índices de não comparecimento.

Um Movimento de Conscientização e Seus Impactos

O coração do movimento Vovó Vota reside na promoção da consciência cidadã e no combate direto à abstenção eleitoral entre os eleitores mais velhos. A campanha, muitas vezes impulsionada por laços familiares, como o incentivo de netas às avós, busca desmistificar o processo eleitoral e reacender o entusiasmo pela participação política. Seus esforços já se traduzem em resultados tangíveis: dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), compilados pelo Movimento Voto 70+, indicam uma queda expressiva no percentual de abstenção dessa faixa etária. Enquanto no pleito anterior 58,8% dos eleitores com mais de 70 anos não compareceram, no primeiro turno do ciclo eleitoral atual esse número caiu para 49,1%, demonstrando o sucesso em mobilizar uma parcela significativa dessa população para as urnas.

A Persistência de Maria Alaídes: Voto por Direitos e Meio Ambiente

No Maranhão, a quebradeira de coco babaçu Maria Alaídes Alves de Souza, de 71 anos, personifica o espírito do “Vovó Vota”. Residente na comunidade rural de Ludovico, em Lago do Junco, a 300 quilômetros de São Luís, Maria Alaídes não apenas fez questão de votar, percorrendo 600 metros até sua seção eleitoral, mas se tornou uma ativa promotora da conscientização eleitoral. Como liderança de um movimento interestadual de quebradeiras de coco, ela viaja por distâncias maiores para incentivar outras trabalhadoras e avós, em sua comunidade e em outras cinco da região (São José, Mata dos Reis, Marajá Alto Alegre, Estirão e Pau Seco), a exercerem o voto. Para ela, com sete filhos e sete netos, o voto é um ato de orgulho e uma ferramenta indispensável para a manutenção de direitos e a consolidação da democracia. Entre suas prioridades está o enfrentamento das mudanças climáticas, uma pauta que afeta diretamente as mais de 300 mil quebradeiras de coco estimadas nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins, reforçando a ligação entre participação política e defesa de pautas essenciais.

Superando Desafios e Redescobrindo o Compromisso Cívico

A onda de engajamento do “Vovó Vota” alcança eleitoras que, por diferentes razões, haviam se afastado das urnas. Em Orizona (GO), Maria Albino Costa, de 85 anos, inicialmente hesitou em votar no primeiro turno devido à complexidade de múltiplos cargos. Contudo, motivada pela simplicidade do segundo turno – que exige apenas o voto para presidente – e pelo apoio de sua filha e neta, ela decidiu comparecer. Aposentada e com uma vida marcada por experiências como moradora da roça, merendeira e empregada doméstica, Maria Albino valoriza o voto, especialmente por ter vivido um longo período sem esse direito durante a ditadura (1964-1985). Sua filha, a professora Sandra Oliveira, de 48 anos, compartilha a história da mãe em suas aulas para inspirar alunos e combater ideias machistas sobre o voto feminino.

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Em Olinda (PE), a professora aposentada Maria José Cantarelli, de 80 anos, também retornou às urnas após um hiato de 12 anos. Embora preocupada com o acirramento dos ânimos e a violência nas ruas durante o período eleitoral, a conversa com filhos e neta a convenceu da importância de sua participação neste momento. Apesar de não ter encontrado seu título eleitoral físico, ela modernizou-se e já baixou o aplicativo e-título, pronta para exercer seu dever cívico no dia da eleição. As histórias de Maria Albino e Maria José são exemplos claros de como o estímulo familiar e a reavaliação do contexto político podem reverter a abstenção, mesmo diante de temores ou dificuldades.

A Democracia Fortalecida Pela Voz da Experiência

O movimento Vovó Vota e as narrativas de mulheres como Maria Alaídes, Maria Albino e Maria José demonstram que a idade não é um impedimento, mas sim um fator de enriquecimento para a participação democrática. A experiência de vida, a memória de períodos sem liberdade de voto e o desejo de garantir um futuro melhor para as próximas gerações impulsionam essas eleitoras a superarem barreiras, sejam elas de distância, burocracia ou receio. Ao engajar-se ativamente, essa parcela da população não apenas exerce um direito, mas envia uma poderosa mensagem sobre a perenidade da cidadania e a vitalidade da democracia brasileira, inspirando a todos sobre o valor inestimável do voto e da vigilância cívica.

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