PrEP Injetável: SUS Prepara-se para Revolucionar a Prevenção do HIV em Meio a Disputas de Preço

Dinael Monteiro
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© Fernando Frazão/Agência Brasil

O Sistema Único de Saúde (SUS) está a caminho de dar um passo significativo na luta contra o HIV, com a potencial inclusão de uma nova modalidade de profilaxia pré-exposição (PrEP) ainda este ano. Diferente das opções atuais, essa versão injetável, baseada no medicamento cabotegravir, promete uma proteção prolongada, administrada a cada dois meses, representando uma evolução que pode transformar a adesão ao tratamento e a eficácia da prevenção em larga escala no Brasil.

Cabotegravir: A Nova Frente na Prevenção

A expectativa gira em torno do cabotegravir, um fármaco injetável que impede a replicação do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) no organismo por um período estendido. Sua principal inovação é a dosagem bimensal, um contraste marcante com a necessidade diária dos comprimidos da PrEP oral. O Ministério da Saúde, reconhecendo o potencial dessa tecnologia, encaminhará nas próximas semanas um pedido formal à Comissão Nacional de Incorporação de Novas Tecnologias no SUS (Conitec), que será responsável por uma análise criteriosa.

A Conitec, um colegiado autônomo, avaliará diversos fatores, incluindo o custo-benefício e o impacto orçamentário da incorporação do cabotegravir. Embora a recomendação da comissão seja fundamental, a decisão final sobre a inclusão no rol de serviços do SUS compete ao Ministério da Saúde. O ministro Alexandre Padilha já sinalizou otimismo, revelando que negociações estão em andamento com a farmacêutica GSK, produtora do medicamento, para garantir um “preço adequado”, afastando valores que considera “estratosféricos”, conforme declarou em coletiva de imprensa durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro.

O Desafio do Preço: O Caso Lenacapavir e a Exclusão do Brasil

A questão do preço tem sido um divisor de águas na estratégia do governo. Enquanto o cabotegravir avança, outro medicamento promissor, o lenacapavir, que oferece proteção ainda mais prolongada (por seis meses), foi preterido devido a um valor considerado inviável. O ministro Padilha destacou que, mesmo com a disposição do Brasil em pagar até dez vezes o valor oferecido a países com economias similares, como Indonésia e Tailândia, a empresa Gilead, responsável pelo lenacapavir, recusou a oferta, motivando a decisão de não destinar recursos públicos para tal aquisição.

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Essa exclusão do Brasil do acordo de licenciamento voluntário da Gilead, que permite a produção de versões genéricas do lenacapavir para distribuição em 120 países, gerou fortes críticas na comunidade internacional. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), entre outras organizações, expressou preocupação, visto que o lenacapavir é visto como um pilar essencial para o fim da epidemia de Aids, e a restrição de acesso global é um retrocesso.

Em resposta, a farmacêutica Gilead afirmou compartilhar a urgência de expandir o acesso ao lenacapavir na América Latina e no Caribe. Para países fora do território de licenciamento voluntário, como o Brasil, a empresa declarou estar buscando “caminhos sustentáveis de acesso de longo prazo, alinhados às condições do mercado local e às prioridades de saúde pública”. Adicionalmente, a Gilead e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinaram um memorando de entendimento para explorar potenciais transferências de tecnologia, o que poderia, no futuro, apoiar o acesso no Brasil e na região.

A Vantagem da Adesão e a Eficácia Comprovada

Atualmente, o SUS já disponibiliza a PrEP oral, em formato de comprimidos, que necessitam de ingestão diária e já beneficiou mais de 350 mil pessoas com sua comprovada eficácia. Contudo, a principal vantagem da versão injetável reside na melhoria da adesão ao tratamento, um fator crítico para a eficácia da prevenção. A exigência de tomar um comprimido todos os dias pode ser um desafio para muitos, resultando em falhas que comprometem a proteção.

Um estudo da Fiocruz, envolvendo 1,4 mil indivíduos em seis cidades brasileiras, reforça essa perspectiva, indicando que 83% dos participantes preferiram a injeção. A pesquisa também demonstrou uma impressionante taxa de comparecimento: 94% dos voluntários buscaram as injeções no prazo correto, garantindo proteção contínua e, notavelmente, sem nenhum caso de infecção pelo HIV entre eles. Em consonância, um estudo de vida real das farmacêuticas ViiV Healthcare e GSK, desenvolvedoras do cabotegravir, atestou a alta eficácia do medicamento, registrando uma taxa anual de infecção pelo HIV de apenas 0,1%.

A potencial chegada da PrEP injetável ao SUS representa, portanto, não apenas a adição de uma nova ferramenta ao arsenal de combate ao HIV, mas também um avanço significativo na otimização da adesão e na eficácia da prevenção. A decisão final da Conitec e as negociações de preço determinarão o futuro dessa inovação, mas a esperança de uma nova era na prevenção do HIV no Brasil é palpável, reiterando o compromisso do governo em garantir tecnologias acessíveis para a saúde pública.

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