Com a proximidade do pleito eleitoral, a atenção se volta para a significativa parcela da população fluminense que reside em favelas. No estado do Rio de Janeiro, dos 12,8 milhões de eleitores aptos a votar em outubro, uma considerável fatia de 2,1 milhões vive em uma das 1.724 favelas, conforme dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses números sublinham não apenas o peso eleitoral dessas comunidades, mas também as profundas disparidades urbanísticas e a lacuna no acesso a serviços e políticas públicas, que revelam uma desigualdade persistente na presença do Estado.
Na capital, por exemplo, 1,3 milhão de pessoas habitam 813 favelas, áreas que frequentemente carecem de infraestrutura básica, como redes de esgoto, água encanada e coleta de lixo eficaz. Apesar de não serem homogêneas, essas regiões clamam por uma atenção diferenciada dos governantes. Moradores entrevistados pela Agência Brasil revelam um leque de demandas prioritárias que vão desde melhorias na mobilidade e educação até cultura, lazer, saúde e participação social. A questão da segurança, embora muitas vezes vinculada à violência e operações policiais, é vista como um reflexo da ausência de ações efetivas do poder público em outras frentes, e não apenas como um problema isolado.
Educação e Formação: O Caminho para um Futuro Mais Digno
A educação emerge como uma das principais bandeiras dos moradores de favela, com um foco particular em oportunidades de qualificação. João, um jovem de 26 anos pai de duas filhas e morador de uma grande favela da zona norte, que atualmente vive de trabalhos informais, enfatiza a necessidade de mais cursos técnicos e profissionalizantes. Ele critica a descontinuidade de projetos que começam, mas não chegam ao fim, impedindo a formação completa dos alunos. O desejo de João de aprimorar seu português e buscar uma vida melhor, apesar dos desafios de conciliar estudo e trabalho, ilustra a ânsia por uma educação acessível e de qualidade.
Além disso, a demanda por inclusão educacional abrange crianças com deficiência e autismo. João destaca a urgência de creches equipadas e com maior número de mediadores, garantindo que as famílias nessas condições recebam o apoio e a estrutura necessários para o desenvolvimento de seus filhos, um aspecto crucial que muitas vezes é negligenciado nas políticas públicas.
Emprego e Renda: Superando Barreiras e Buscando Estabilidade
A busca por oportunidades profissionais e por melhores condições de trabalho é outra preocupação central. Isabelle Rodrigues Trindade, jornalista de 26 anos e residente da Rocinha, a maior favela do Brasil, com 72 mil habitantes, expressa sua frustração com a escassez de vagas em sua área de formação, mesmo após dois anos de graduação. Atualmente, ela atua como agente cultural em um bairro vizinho, evidenciando a dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal para jovens formados em comunidades.
Isabelle também aponta para a importância de propostas que abordem a jornada de trabalho, especialmente o fim da escala 6×1. Ela argumenta que esse regime torna extremamente difícil conciliar trabalho, família e estudos, principalmente para quem enfrenta grandes deslocamentos diários. A carga horária e o tempo gasto no trajeto, segundo a jornalista, acabam por minar o tempo disponível para qualificação e lazer da juventude, impactando diretamente seu desenvolvimento pessoal e profissional.
Mobilidade e o Direito à Cidade: Conectando Favelas e Oportunidades
A mobilidade urbana é uma barreira significativa para os moradores de favelas, afetando tanto o acesso a oportunidades de emprego quanto o direito ao lazer. Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, moradora do Complexo do Alemão e eleitora de primeira viagem, ressalta que a ausência de linhas de ônibus diretas que conectem favelas da zona norte à zona sul, por exemplo, dificulta o deslocamento para o trabalho e impede o acesso a atividades culturais e de lazer, como ir à praia. Para ela, a praia não é apenas um luxo, mas um direito básico que deveria ser acessível a todos.
A deficiência do transporte público também impacta a eficácia de programas sociais de inserção no mercado de trabalho. Letícia critica os baixos valores de repasse de iniciativas como o Jovem Aprendiz, que muitas vezes não cobrem os custos de passagens para dois ou três ônibus, além da alimentação para quem passa o dia fora. Segundo ela, R$ 20 não são suficientes para pagar sequer uma refeição, tornando o acesso a essas oportunidades uma utopia para muitos jovens de comunidades.
O Poder do Diálogo: A Expectativa dos Eleitores por Representatividade Real
Além das demandas específicas, a maneira como os candidatos se relacionam com as comunidades é crucial. Letícia Guimarães, ativista e pesquisadora envolvida em coletivos como o Criar e o Mulheres em Ação, membro do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente, e bolsista da PUC-Rio, aponta que sua escolha será pautada em perfis “envolvidos com as pautas negras, com os direitos humanos e com a população”. Para ela, mais do que apresentar soluções prontas, o governante ideal deve demonstrar disposição para ouvir.
A atitude de escuta ativa é fundamental, pois, como frisa Letícia, “muitas vezes, [governantes] chegam com respostas prontas, sem saber o que queremos, como achamos melhor”. Essa perspectiva reflete um desejo generalizado por uma governança que compreenda as realidades locais, que dialogue diretamente com os moradores e construa políticas públicas a partir das necessidades e propostas das próprias comunidades, e não de concepções externas.
Conclusão: O Desafio de Construir Cidadania Plena
As favelas do Rio de Janeiro representam uma força eleitoral com demandas claras e urgentes. A pluralidade de vozes ouvidas – de jovens ativistas a jornalistas e pais de família – converge para a necessidade de políticas públicas que efetivamente integrem essas comunidades à cidade. Educação de qualidade e contínua, oportunidades de emprego dignas, mobilidade urbana eficiente e um diálogo genuíno com a população são pilares para construir uma cidadania plena e reduzir as históricas desigualdades.
O desafio para os futuros governantes é transcender a retórica e implementar ações concretas que reconheçam as favelas não como áreas de carência, mas como territórios ricos em potencial e com o direito inalienável a todos os serviços e estruturas que garantam uma vida digna. A resposta a essas demandas definirá não apenas o futuro dessas comunidades, mas a própria essência democrática e inclusiva do estado do Rio de Janeiro.

