Às vésperas de um segundo turno presidencial de grande polarização, o movimento estudantil brasileiro emerge novamente como força ativa nas ruas, impulsionado pela profunda preocupação com os rumos democráticos do país e os desafios impostos à educação. Milhares de jovens universitários e secundaristas têm se mobilizado em diversas cidades, defendendo pilares fundamentais como a democracia e a educação pública, ao mesmo tempo em que articulam posicionamentos claros sobre os candidatos e suas propostas.
O Retorno do Protagonismo Estudantil e seu Legado Histórico
A União Nacional dos Estudantes (UNE), através de sua presidente Bianca Borges, sublinha a relevância do engajamento atual, conectando-o a uma longa tradição de participação estudantil em momentos cruciais da história política nacional. Em entrevista, Borges recordou a atuação decisiva dos estudantes desde a luta contra a ditadura militar, passando pelas emblemáticas mobilizações por eleições diretas, o movimento pelo impeachment de Fernando Collor e a oposição a governos como o de Jair Bolsonaro. Essa retomada, segundo a entidade, reafirma a vocação intrínseca do movimento em defender a soberania e os direitos da população.
Os Riscos para o Futuro do País e a Educação Pública
Para a UNE, o cenário eleitoral transcende a mera disputa política, configurando-se como um divisor de águas para o futuro do Brasil. Bianca Borges enfatiza que a possibilidade de ascensão de um governo com características autoritárias, visto como contrário à educação e promotor de retrocessos, representa um risco iminente às instituições democráticas. A entidade aponta para desafios concretos no âmbito educacional, como o subfinanciamento crônico das universidades públicas, a premente necessidade de ampliar a assistência estudantil e a garantia de condições de permanência para alunos de baixa renda nos cursos, questões que se agravam em contextos de desvalorização do ensino superior.
Bianca Borges: Uma Liderança Forjada na Base do Movimento
À frente da UNE para o mandato 2025–2027, Bianca Borges, estudante de Letras do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), personifica a trajetória de engajamento do movimento. Aos 25 anos, a paulista de Itapevi e criada em Praia Grande, iniciou sua militância aos 14, fundando um grêmio na Escola Técnica Estadual (Etec). Posteriormente, cursou Direito na Universidade de São Paulo (USP), onde foi coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Livre e diretora-geral do Centro Acadêmico XI de Agosto. Sua experiência inclui a presidência da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), liderando a resistência a propostas de privatização e militarização do ensino público estadual, além de integrar a Organização Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (Oclae), demonstrando um vasto histórico de defesa da educação e dos direitos estudantis.
Defesa da Democracia e a Importância da Organização Contínua
A presidente da UNE reitera a indissociável relação entre a defesa da democracia, a valorização da universidade pública e a melhoria das condições de vida da juventude e da classe trabalhadora. Ela ressalta a importância de manter a organização estudantil ativa para além do período eleitoral, como um mecanismo fundamental para transformar reivindicações em direitos concretos. Recentemente, a legitimidade da atuação estudantil foi reafirmada quando o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negou um pedido que visava barrar publicações de dirigentes de diversas entidades, incluindo a UNE, em redes sociais, reconhecendo a liberdade de expressão e a participação cívica desses atores.
Os estudantes, com sua histórica vocação para a transformação social, erguem-se mais uma vez em defesa dos direitos, da educação, da soberania e da democracia brasileira. Sua mobilização atual reflete uma compreensão profunda dos riscos iminentes e a convicção de que a participação coletiva é a chave para construir o futuro que desejam para o Brasil.

