A indústria brasileira registrou um crescimento de 0,6% em 2025, marcando o terceiro ano consecutivo de expansão da produção industrial no país. No entanto, os dados revelam uma perda de fôlego acentuada na reta final do período, impactada diretamente pela política monetária restritiva e os elevados patamares da taxa básica de juros, a Selic.
As informações, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Industrial Mensal, oferecem um panorama detalhado do desempenho setorial e dos fatores que moldaram o cenário produtivo nacional ao longo do ano.
Ritmo Desacelerado no Segundo Semestre
Apesar do resultado positivo geral, o ano de 2025 foi caracterizado por uma clara distinção entre os dois semestres. Enquanto os primeiros seis meses registraram um avanço acumulado de 1,2% em comparação com o mesmo período do ano anterior, o segundo semestre apresentou variação nula (0%). A deterioração foi ainda mais evidente entre setembro e dezembro, com uma retração de 1,9% na produção.
Especificamente em dezembro, a produção industrial do país sofreu uma queda de 1,2%, configurando o pior desempenho mensal desde julho de 2024 (-1,5%). Das quatro últimas apurações de 2025, três indicaram declínio e uma (outubro) mostrou estagnação. Com o resultado anual, a indústria se posiciona 0,6% acima do período pré-pandemia de Covid-19 (fevereiro de 2020), mas ainda permanece 16,3% abaixo do seu ápice histórico, atingido em maio de 2011.
A Influência dos Juros Elevados no Setor Produtivo
A principal razão para a estagnação industrial nos meses finais de 2025 reside na política monetária restritiva, conforme análise de André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE. O alto custo do crédito e a consequente elevação da taxa Selic adiam decisões empresariais de investimento e desestimulam o consumo das famílias, refletindo diretamente na capacidade produtiva e na demanda.
Macedo ressalta que essa dinâmica se traduz em uma desaceleração significativa, especialmente no segmento de bens duráveis. A elevação dos níveis de inadimplência, decorrente do encarecimento dos empréstimos, também contribui para a contenção da demanda. Um exemplo contundente foi a produção de veículos automotores, que recuou 8,7% em dezembro, exercendo a maior pressão negativa na transição de novembro para dezembro, período que também registrou maior incidência de paralisações e férias coletivas nas fábricas.
Desempenho Heterogêneo entre as Atividades Econômicas
Em 2025, o panorama setorial da indústria apresentou um cenário misto. Duas das quatro grandes categorias econômicas registraram crescimento: bens de consumo duráveis, com alta de 2,5%, e bens intermediários – essenciais para a fabricação de outros produtos –, que expandiram 1,5%. No espectro negativo, bens de consumo semi e não duráveis caíram 1,7%, e bens de capital, que englobam máquinas e equipamentos para a produção, recuaram 1,5%.
Das 25 atividades industriais pesquisadas pelo IBGE, 15 exibiram avanço. As indústrias extrativas se destacaram com um crescimento de 4,9%, seguidas por produtos alimentícios, que registraram alta de 1,5%. No total, a pesquisa apurou que 49,6% dos 789 produtos acompanhados tiveram aumento na produção ao longo do ano.
O Contexto Macroeconômico e o Papel da Selic
A política de juros altos que impactou a indústria em 2025 teve sua origem em setembro de 2024, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) iniciou um ciclo de elevação da taxa Selic, preocupado com a trajetória crescente da inflação. Partindo de 10,5% ao ano, a taxa básica de juros atingiu 15% em junho de 2025, patamar que foi mantido por diversas reuniões subsequentes.
A meta de inflação do governo, fixada em 3% com uma tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, foi superada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) por 13 meses consecutivos, abrangendo praticamente todo o ano de 2025. A Selic, ao encarecer o crédito e desestimular investimentos e o consumo, busca reduzir a procura por produtos e serviços, visando controlar a inflação, mas, como efeito colateral, desacelera a atividade econômica.
Perspectivas e o Mercado de Trabalho
Embora a indústria tenha sentido os efeitos da política monetária restritiva, o cenário geral do mercado de trabalho brasileiro apresentou um contraponto positivo. O ano de 2025 encerrou com o registro da menor taxa de desemprego da série histórica, conforme divulgado pelo IBGE na última sexta-feira (30).
Esse dado reflete a complexidade do ambiente econômico, onde a desaceleração de um setor crucial coexiste com uma recuperação robusta em outra frente. O desafio para os próximos períodos será equilibrar a estabilidade de preços com a retomada do ímpeto de crescimento industrial, fundamental para a geração de riqueza e empregos no país.


