O coração da Asa Norte, em Brasília, pulsou em ritmo carnavalesco com o cortejo do Bloco Calango Careta, que, desde 2015, se estabelece como uma expressão autêntica da folia brasiliense. Longe dos grandes circuitos isolados do Distrito Federal, este bloco elege as ruas residenciais como seu palco, cultivando um "carnaval de vizinhança" onde a coletividade é a regra fundamental. Seu mascote é um imponente calango gigante, alegoria articulada em bambu, que, em suas cores verde, amarelo e vermelho, não apenas celebra a fauna do Cerrado, mas também serpenteia o bairro como uma versão brasiliense do famoso dragão do bloco "Eu Acho é Pouco" de Olinda.
Identidade Comunitária e Mensagens do Cerrado
A proposta do Calango Careta transcende a mera celebração, incorporando um forte apelo à preservação ambiental. O cortejo do calango é enriquecido pela presença de um gigantesco boneco de saruê, espécie muitas vezes incompreendida e hostilizada por sua semelhança com roedores, que simboliza a fauna local. Gabriel Ballarini, educador social e voluntário por trás do saruê, demonstra orgulho em dar vida à alegoria, suportando seus quatro quilos para interagir com o público. A interação com os símbolos do bioma encanta gerações, como o pequeno Rui, de apenas um ano e quatro meses, fantasiado de capivara, que, segundo seu pai, Pedro Tarcísio, é apaixonado pela percussão e pelos animais do bloco, um reflexo da atmosfera musical e educativa que o grupo propaga. Ana Bastos, analista de sistemas e residente em Brasília há quase duas décadas, atesta que a capital federal, embora em escala menor que Recife, sua terra natal, não decepciona na folia, elogiando a animação e a tranquilidade dos "bloquinhos".
Expressão Artística e Homenagens Culturais
A estética do Calango Careta é um espetáculo à parte, mesclando elementos da cultura popular com toques psicodélicos. Artistas circenses com grandes asas, pernas de pau, palhaços e acrobatas mascarados guiam o cortejo, criando uma atmosfera lúdica e vibrante. A apoiadora Vanessa Cândida Rezende contribui para essa magia, distribuindo glitter com um regador, transformando o gramado em um jardim cintilante e simbolizando a alegria que se estende para além da festa. A folia de 2026 também se destacou pelas fantasias inspiradas em obras cinematográficas brasileiras, como o aclamado filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho. A jornalista Ana Chalub e o músico Luiz Bragança personificaram essa homenagem: Ana, caracterizada como Dona Sebastiana, com um cigarrinho fake e bobs nos cabelos, conectou a personagem às cenas de carnaval do filme e ao momento político. Luiz, por sua vez, elegeu a icônica fantasia de orelhão, feita com boias de espaguete e fita crepe, remetendo às ruas do Recife e Brasília dos anos 1970, ressaltando o carnaval como um espaço de celebração da cultura e da música, e de experimentação.
A Sonoridade Contagiante da Orquestra Camaleônica
No coração musical do Calango Careta pulsa a Orquestra Camaleônica, a fanfarra própria do bloco, que dita o ritmo sob a sombra das árvores. Com uma marcante sonoridade, impulsionada por trompetes, trombones, saxofones e uma potente percussão, a orquestra embala os foliões com um repertório diversificado. A setlist passeia por gêneros tradicionais como a ciranda, o frevo e o maracatu, e incorpora sucessos da música popular brasileira. Canções como "Lucro", do BaianaSystem, são revisitadas, transformando o espaço em uma verdadeira celebração auditiva da rica tapeçaria musical do Brasil.
Conclusão: Um Legado de Arte, Comunidade e Consciência
O Calango Careta se consolida como um marco no carnaval de rua de Brasília, oferecendo mais do que uma festa: uma experiência cultural imersiva. Sua abordagem única de "carnaval de vizinhança", aliada à valorização do bioma Cerrado, à expressão artística em fantasias e alegorias, e à vibrante trilha sonora da Orquestra Camaleônica, demonstra a força da coletividade e da criatividade. O bloco não apenas anima a capital federal, mas também inspira, educa e celebra a diversidade cultural e ambiental do Brasil, reafirmando que a folia pode ser um potente veículo para mensagens significativas e um ponto de encontro para todas as gerações.


