O Rio de Janeiro se prepara para o grandioso encerramento de sua festa máxima, com o tradicional Desfile das Campeãs do Grupo Especial. Em um sábado de fervor e exaltação ao samba, a apoteose será protagonizada pela Unidos do Viradouro, a campeã incontestável, que reverenciará novamente seu mestre de bateria, Moacyr da Silva Pinto, popularmente conhecido como Mestre Ciça. Mais do que uma simples reapresentação, a noite promete ser um marco na história da agremiação de Niterói, que ousou homenagear em vida um de seus pilares.
A Despedida Dourada do Carnaval Carioca
Cariocas e turistas que ainda vibram com a folia terão a última chance de testemunhar a magia do carnaval na Marquês de Sapucaí neste fim de semana. A partir das 21h, o sambódromo será palco do Desfile das Campeãs, onde as seis escolas de samba mais bem classificadas do Grupo Especial voltam à avenida. A sequência de apresentações começará com a Mangueira (6ª colocada), seguida pela Imperatriz Leopoldinense (5ª), Salgueiro (4ª), Vila Isabel (3ª) e Beija-Flor (2ª). O ponto alto da noite será a entrada da Unidos do Viradouro, coroada campeã com a pontuação máxima de 270 pontos, atingindo nota 10 em todos os quesitos avaliados.
Mestre Ciça: Uma Homenagem em Vida ao Furacão Vermelho e Branco
Esta noite será de emoção redobrada para Moacyr da Silva Pinto, o lendário Mestre Ciça, que está à frente da bateria da Viradouro. Ele é o protagonista do enredo campeão da escola, um gesto inédito e de profundo significado no universo do samba. Com um currículo que abrange 55 de seus quase 70 anos de vida dedicados integralmente ao carnaval, Ciça é reconhecido por seus pares como um verdadeiro “mestre dos mestres”. Sua jornada começou como passista e ritmista em diversas escolas, culminando na liderança da aclamada “Furacão Vermelho e Branco”, a bateria da Viradouro.
O Pioneirismo do Enredo 'Prá Cima, Ciça'
A vitória da Unidos do Viradouro neste carnaval, a quarta em sua história, é marcada por uma inovação desde a concepção do enredo. Intitulado 'Prá Cima, Ciça', o tema que a escola de Niterói desfilou na última segunda-feira (16) é uma homenagem singular a um membro vivo da própria agremiação. Essa escolha não apenas ressaltou a importância e o legado de Mestre Ciça para a Viradouro, mas também abriu um novo precedente, valorizando os talentos e as histórias de vida que constroem a identidade das escolas de samba de dentro para fora.
A Bateria como Coração e Guia da Escola de Samba
À frente da 'Furacão Vermelho e Branco', Mestre Ciça comanda a seção que muitos consideram o ponto vital de uma escola de samba: a bateria. Segundo o sociólogo Rodrigo Reduzino, pesquisador do carnaval carioca, é a bateria que dita o andamento e imprime o ritmo ao samba-enredo, sendo muito mais que um mero acompanhamento musical. Para o especialista, ela funciona como o coração que bombeia a vida para o corpo da escola, mas também como uma parte integrante e coesa de um sistema maior, fundamental para a harmonia e o sucesso do desfile.
A Sabedoria Ancestral por Trás da Batuta do Mestre
A liderança de mestres de bateria como Ciça é fruto de um conhecimento particular e profundo, que vai além das formalidades acadêmicas. Rodrigo Reduzino destaca que esses líderes precisam possuir uma “ciência e saber intelectual ancestral”, uma habilidade inata e desenvolvida para gerenciar um complexo conjunto de ritmistas, direcionando o melhor andamento para a escola. Essa capacidade de incorporar discernimento, sabedoria e conhecimento ao apito e à batuta não se adquire da noite para o dia, mas sim por meio de um processo contínuo de aprendizado. Conforme o pesquisador, essas instruções e entendimentos são transmitidos oralmente, na vivência diária e na experiência junto aos seus, forjando a continuidade da ancestralidade que define a identidade sonora de cada bateria.
A noite deste sábado não será apenas a celebração de mais um campeonato da Viradouro, mas um tributo à dedicação, à sabedoria e à paixão de um homem que dedicou sua vida ao ritmo. Mestre Ciça, através do enredo de sua escola, personifica a essência do carnaval, a transmissão de um saber ancestral e a capacidade de inovar, mostrando que os grandes mestres são, de fato, o coração pulsante dessa manifestação cultural tão rica e vibrante.


