O Rio de Janeiro foi palco neste sábado (14) de um momento de profunda reflexão e resiliência, marcando oito anos do brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Uma missa especial foi celebrada na Igreja Nossa Senhora do Parto, no Centro da cidade, reunindo familiares, amigos e apoiadores. A cerimônia ganhou um significado ainda mais potente este ano, ocorrendo semanas após a histórica condenação dos mandantes do crime, um divisor de águas na longa jornada por justiça.
A Missa de Recordação e a Voz da Família
A atmosfera na Igreja Nossa Senhora do Parto era de emoção contida e, ao mesmo tempo, de uma visível força. Para Antonio Francisco da Silva Neto, pai de Marielle, o dia ainda carrega a dor indizível de uma perda que nenhuma família deveria experienciar. No entanto, sua fala transpareceu um alívio misturado a gratidão. 'Tivemos uma grande vitória que foi a condenação dos mandantes. Eles não esperavam que isso ia acontecer com eles um dia. Tivemos esse êxito', expressou, reconhecendo o apoio incansável que a família recebeu ao longo desses oito anos.
Marinete da Silva, mãe de Marielle, reforçou o sentimento de gratidão e a potência do legado da filha. 'Ela floresce e deixou um legado ímpar', declarou, enfatizando a continuidade da luta: 'A gente segue a lutar por mais justiça por Marielle e por todas as mulheres que foram vitimadas país a fora.' Anielle Franco, irmã de Marielle e ministra da Igualdade Racial, emocionou-se ao revelar ter servido de modelo para a estátua em homenagem à vereadora, erguida no Buraco do Lume, no Centro. 'Nunca na minha vida imaginei que eu serviria de modelo para o corpo de minha irmã para uma homenagem como essa. Nenhuma família deveria passar por isso', desabafou, ressaltando a dimensão pessoal da tragédia.
O Marco da Condenação e a Perseguição da Justiça
A cerimônia deste sábado ganhou um peso adicional por ser a primeira realizada no dia do assassinato após a significativa decisão judicial de 25 de fevereiro. Naquela data, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou por unanimidade cinco indivíduos acusados de orquestrar o crime que chocou o país e o mundo. Entre os condenados estão o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ), Domingos Brazão, seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão, e o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa. Além deles, foram sentenciados o major da Polícia Militar Ronald Alves de Paula e o ex-policial militar Robson Calixto, assessor de Domingos Brazão, todos já em prisão preventiva. Este veredicto representa um avanço crucial na busca por responsabilização, sinalizando que a impunidade não prevalecerá diante de crimes contra a democracia e os direitos humanos.
Legado Vivo: Arte, Cultura e Ativismo pela Memória de Marielle
Para além da celebração religiosa, o legado de Marielle Franco continua a inspirar uma série de iniciativas culturais e políticas. Ainda neste sábado, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na Rua Primeiro de Março, no Centro, inaugurou a exposição 'Mulher Raça – O Legado de Marielle Franco', oferecendo uma imersão na trajetória e nos ideais da vereadora. As mobilizações se estendem para o domingo (15), com a 5ª edição do Festival Justiça por Marielle e Anderson, no icônico Circo Voador. Este evento político-cultural é um ponto de encontro para artistas, movimentos sociais e todos aqueles que seguem engajados na causa por justiça, transformando a dor em força coletiva e expressão artística.
Anistia Internacional: Reforçando a Luta Coletiva por Direitos
A Anistia Internacional também marcou presença significativa nas homenagens de aniversário. Durante o sábado e o domingo, a organização realiza uma ação especial no Largo da Lapa, no centro do Rio, focada em memória, mobilização e ação coletiva. A iniciativa 'Cartas para Quem Defende Direitos' resgata a potência das cartas como instrumento de mobilização global por justiça. Complementarmente, a atividade 'Cada Peças Importa' convida o público a refletir sobre a situação de inúmeros defensores e defensoras de direitos humanos que, assim como Marielle e Anderson, ainda aguardam proteção e respostas justas. A Anistia enfatiza que a conquista da justiça para Marielle e Anderson é um testemunho da força da mobilização popular, uma força que deve persistir ativa para garantir que outros ativistas recebam o reconhecimento e a proteção que merecem.
O oitavo aniversário do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, embora ainda envolto em dor e saudade, surge agora com um novo matiz de esperança. A recente condenação dos mandantes é um marco inegável, mas a série de eventos e a persistência da mobilização popular demonstram que a luta por justiça transcende o âmbito judicial. É um movimento contínuo por memória, por um legado de direitos humanos e por uma sociedade onde a voz e a vida dos que defendem os mais vulneráveis sejam protegidas e valorizadas, reafirmando que Marielle e Anderson são sementes que continuam a germinar.


