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A Jornada Invisível: Mulheres e a Escala 7×0 no Trabalho Essencial do Cuidado

Dinael Monteiro
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© Volta Flaxeco/Unsplash

Enquanto grande parte dos trabalhadores brasileiros desfruta do merecido descanso no feriado de 1º de maio, uma parcela significativa da população permanece em plena atividade. São as pessoas dedicadas ao trabalho de cuidado – crianças, idosos e a manutenção do lar –, uma função vital que, embora garanta o bem-estar e a sobrevivência familiar, opera incessantemente, sem pausas em fins de semana, feriados ou mesmo em momentos de doença. Este artigo explora a profunda desigualdade de gênero inerente a essa labuta, que impõe às mulheres uma carga de trabalho contínua e, muitas vezes, invisível.

A Raiz Histórica da Desigualdade no Cuidado

A professora de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cibele Henriques, destaca que a responsabilidade primária pelo cuidado não é uma contingência moderna, mas sim uma desigualdade profundamente enraizada na história. Sustentada por um discurso simbólico que perdura, essa dinâmica se manifesta em dados contundentes: no Brasil, mulheres dedicam quase dez horas a mais por semana ao cuidado de outras pessoas e da casa. Estudos recentes revelam que 90% dos cuidadores informais são, de fato, mulheres. Henriques teoriza que essa função reprodutiva, impossível de ser substituída ou automatizada, é o "útero motor do capitalismo", gerando o capital humano essencial para o sistema. Para assegurar sua execução, construiu-se, com apoio institucional, a ideia de um "amor materno mítico" e de uma obrigação inquestionável.

Do Afeto à Expropriação: O Cuidado como Trabalho Não Remunerado

A filósofa feminista Silvia Federici cunhou a frase "O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago", e a pesquisadora Cibele Henriques ecoa essa máxima ao analisar o trabalho de cuidado. Embora permeado por afeto e dedicação, esses sentimentos acabam por justificar e mascarar a exploração da mão de obra feminina. Henriques, que também é mãe de duas filhas e co-fundadora do Observatório do Cuidado e do Fórum de Mães Atípicas do Rio de Janeiro, argumenta que, se "tempo é dinheiro", o tempo das mulheres é sistematicamente expropriado, tornando-as "grandes doadoras de tempo e de trabalho não pago para os homens". Essa sobrecarga, seja para mulheres que se dedicam integralmente ao lar ou para aquelas que conciliam uma jornada remunerada com as tarefas domésticas, resulta em impactos severos à saúde psíquica, física e social, minando a possibilidade de bem-estar integral.

A Realidade da "Escala 7×0": Gênero e Classe Social

A discussão sobre o trabalho não remunerado ganha contornos ainda mais críticos ao se observar o ritmo de vida das mulheres. Cibele Henriques aponta que, enquanto debates importantes avançam sobre escalas de trabalho como a 6×1, a realidade feminina muitas vezes se assemelha a uma "escala 7×0". Mesmo em dias de folga do trabalho remunerado, o tempo da mulher raramente é dedicado exclusivamente a si; ele é preenchido com tarefas domésticas e de cuidado, antecipando demandas da semana. Essa realidade é ainda mais acentuada para mulheres negras e periféricas, que frequentemente não possuem os recursos para delegar ou terceirizar parte dessas responsabilidades. Diferentemente das mulheres de classes média e alta, que podem transferir o trabalho de cuidado para outras mulheres – muitas vezes também negras e periféricas –, para as mulheres em situações de maior vulnerabilidade, essa carga é imposta como uma obrigação inegociável, intensificando as desigualdades sociais e econômicas.

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As Construções Sociais que Perpetuam a Obrigação Feminina

A naturalização do papel feminino como cuidadora exclusiva é um processo que se inicia na infância, conforme explica Cibele Henriques. Brinquedos como carrinhos para meninos e panelinhas ou bonecas para meninas já estabelecem uma dissociação precoce entre a esfera pública e a privada, designando o universo doméstico às mulheres. Essa programação cultural é reforçada por inúmeros discursos sociais que "desoneram" os homens das responsabilidades de cuidado. Um exemplo contundente é a dinâmica pós-divórcio, onde, na prática, muitas mulheres assumem a integralidade do cuidado com os filhos, enquanto a obrigação paterna se restringe frequentemente ao pagamento da pensão alimentícia. Henriques ressalva que, mesmo dentro de casamentos, a realidade de muitas mulheres é a de mães solo. A pesquisadora interpreta os movimentos recentes que tentam reforçar o papel tradicional da mulher como uma reação à crescente insurgência feminina contra essa imposição, percebendo-os como uma reorganização do sistema capitalista diante de suas crises e da crescente escolarização e competência das mulheres, visando repor o status quo.

O trabalho de cuidado, fundamental para a reprodução da sociedade e do próprio sistema capitalista, permanece em grande parte invisível, desvalorizado e desigualmente distribuído. A análise de Cibele Henriques ilumina as profundas raízes históricas, sociais e econômicas que transformam o afeto em uma justificativa para a expropriação do tempo e da energia das mulheres, impondo-lhes uma sobrecarga contínua. Reconhecer o trabalho de cuidado como uma questão coletiva, e não apenas individual, é o primeiro passo para desconstruir essa "escala 7×0" e pavimentar o caminho para uma sociedade mais equitativa, onde a responsabilidade pelo bem-estar e pela reprodução social seja compartilhada por todos, e o tempo das mulheres seja, finalmente, verdadeiramente delas.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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