O Prêmio Platino, a mais prestigiada condecoração do cinema ibero-americano, volta a colocar em pauta questões essenciais para a região. Em sua 13ª edição, que culminará com a cerimônia de premiação no México neste sábado (9), a categoria de Melhor Documentário apresenta uma seleção que, em grande parte, se debruça sobre a complexa e, por vezes, frágil realidade democrática da América Latina. Dois filmes, um brasileiro e um paraguaio, emergem como fortes concorrentes, oferecendo perspectivas distintas sobre os desafios enfrentados pela política e sociedade na região.
Espelhos de uma Realidade em Transformação: Brasil e Paraguai em Foco
A disputa pelo troféu de melhor documentário é marcada pela relevância de suas temáticas. De um lado, o Brasil é representado por “Apocalipse nos Trópicos”, dirigido por Petra Costa, que mergulha na intrincada relação entre a fé evangélica e o cenário político nacional. De outro, o Paraguai contribui com “Sob as Bandeiras, o Sol”, de Juanjo Pereira, uma obra que revisita o sombrio período da ditadura no país. Ambos os filmes, cada um à sua maneira, convidam à reflexão sobre as forças que moldam e testam a resiliência das instituições democráticas.
“Apocalipse nos Trópicos”: A Ascensão Evangélica e a Crise Política no Brasil
A diretora Petra Costa, já reconhecida internacionalmente com uma indicação ao Emmy Awards, explora em “Apocalipse nos Trópicos” a crescente influência dos líderes evangélicos nos destinos do Brasil. O documentário faz um recorte temporal significativo, acompanhando a trajetória do governo de Jair Bolsonaro, desde sua ascensão em 2018 até sua queda em 2022, e a subsequente tentativa frustrada de golpe em janeiro de 2023. Através dessa análise, o filme não apenas registra eventos políticos cruciais, mas também investiga a expansão da fé evangélica no país e como essa força cultural e religiosa se entrelaça com o poder estatal, redefinindo as bases da política brasileira.
“Sob as Bandeiras, o Sol”: Resgatando a Memória da Ditadura Paraguaia
A narrativa paraguaia no Prêmio Platino é protagonizada por “Sob as Bandeiras, o Sol”, um documentário que lança luz sobre a brutal e corrupta ditadura de Alfredo Stroessner, que perdurou de 1954 a 1989, tornando-se o regime mais longo do continente. A obra, que já recebeu o prêmio do júri no Festival de Cinema de Berlim de 2025 (sic), distingue-se pela utilização de imagens raras, como cinejornais e filmes de propaganda estatal, um recurso vital considerando que grande parte dos acervos visuais do país foi destruída para ocultar os crimes daquela era. Este esforço de recuperação histórica é fundamental para compreender um período que deixou um legado de, no mínimo, 20 mil vítimas e 420 mortos ou desaparecidos, conforme dados da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai.
Mídia, Geopolítica e a Falsa Imagem de Progresso
Um dos pilares de “Sob as Bandeiras, o Sol” é a análise do papel dos meios de comunicação na perpetuação do regime stroessnerista. Sem a presença de entrevistas ou narração direta, o filme expõe como a adesão da mídia foi crucial para a longevidade da ditadura, conforme aponta Paulo Renato da Silva, professor de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e especialista no tema. Segundo ele, o controle dos veículos era decisivo tanto para a propaganda quanto para suprimir críticas e construir um legado, utilizando jornais e rádio para forjar um consenso. A obra também investiga como essas imagens históricas contribuíram para moldar a identidade nacional paraguaia, muitas vezes distorcida por narrativas oficiais.
Além disso, o documentário aprofunda a relação do Paraguai com a Operação Condor, revelando a colaboração do país com regimes vizinhos, incluindo o Brasil, em ações de inteligência e perseguição a opositores, com apoio dos Estados Unidos. Essa parceria repressiva se estendeu a grandes projetos, como a Usina Hidrelétrica de Itaipu, cujas condições foram desfavoráveis ao Paraguai, conforme a análise do professor Paulo Renato, que vê na colaboração um meio de “vender a falsa imagem de um país que estaria se desenvolvendo, progredindo”. O filme ainda explora a ascendência alemã de Stroessner e suas ligações com criminosos nazistas, como o médico Josef Mengele, adicionando camadas à complexidade histórica abordada.
Outros Olhares na Disputa por Melhor Documentário
A categoria de Melhor Documentário no Prêmio Platino transcende a análise política para explorar outras facetas da experiência humana. Entre os demais concorrentes, destacam-se produções que abordam questões mais intimistas e existenciais, enriquecendo a diversidade temática da competição ibero-americana.
A Intensidade das Touradas em “Tardes de Solidão”
O documentário “Tardes de Solidão”, uma coprodução hispano-portuguesa dirigida pelo catalão Albert Serra, mergulha no universo do toureiro peruano Andrés Roca Rey. Embora tenha desafiado ambientalistas e até desagradado seu protagonista, a obra arrebatou a crítica e conquistou prêmios importantes, como o Goya do cinema espanhol. O filme oferece um realismo visceral das touradas, explorando temas como sangue, luta e triunfo, e proporcionando uma reflexão sobre essa prática ancestral e controversa.
Memória Familiar em “Flores para Antônio”
Com uma abordagem profundamente pessoal, “Flores para Antônio”, dirigido por Elena Molina e Isaki Lacuesta, retrata a jornada de uma filha em busca de compreender o pai, o cantor e compositor Antonio Flores, falecido quando ela tinha apenas oito anos. A protagonista dessa busca é a renomada atriz espanhola Alba Flores, conhecida do público brasileiro por seu papel na série “Casa de Papel”. Através de sua própria história e memória, o filme conduz um mergulho emotivo na vida e legado do artista, explorando os laços familiares e a influência da ausência paterna em sua vida.
A 13ª edição do Prêmio Platino demonstra, mais uma vez, sua relevância ao não apenas celebrar o talento cinematográfico ibero-americano, mas também ao servir como plataforma para discussões cruciais sobre história, política, sociedade e relações humanas. Os documentários em competição evidenciam o poder do cinema em revisitar o passado, analisar o presente e, porventura, lançar luz sobre os caminhos futuros da democracia e da identidade cultural na América Latina e em toda a comunidade ibero-americana.


