Nesta terça-feira, 12 de maio, a dramaturgia brasileira celebra a memória e o legado de <b>Ruth de Souza</b>, uma das suas mais luminosas estrelas, que completaria 105 anos. Carioca de Engenho de Dentro, a atriz, pioneira e incansável batalhadora, deixou uma marca indelével na história do teatro, cinema e televisão do Brasil, tornando-se uma referência incontestável para gerações de artistas negros. Sua partida, em 2019, aos 98 anos, em decorrência de uma pneumonia, encerrou um capítulo, mas eternizou sua trajetória de conquistas e inspiração.
A Desbravadora de Palcos e Telas
Ainda na década de 1940, Ruth de Souza emergiu como uma força transformadora ao integrar o <b>Teatro Experimental do Negro (TEN)</b>, um grupo visionário liderado por Abdias Nascimento. Sua audácia e talento a levaram a um feito histórico: tornar-se a primeira mulher negra a pisar no prestigiado palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, quebrando barreiras e redefinindo espaços para a representatividade.
O pioneirismo de Ruth não se limitou aos palcos. Seu brilho transcendeu para as telas, onde continuou a escrever capítulos inéditos. Em 1954, ela alcançou um marco internacional ao ser a primeira atriz brasileira indicada em um festival de cinema estrangeiro, por sua atuação memorável em 'Sinhá Moça', no renomado Festival de Veneza. Posteriormente, em 1969, na televisão brasileira, ela novamente inovou ao protagonizar 'A Cabana do Pai Tomás', consolidando-se como a primeira atriz negra a liderar uma novela na TV Globo e abrindo portas para a diversidade na teledramaturgia nacional.
O Testemunho de Uma Trajetória e o Futuro Inspirado
Consciente do impacto de sua jornada, Ruth de Souza, poucos meses antes de seu falecimento, em entrevista ao programa 'Caminhos da Reportagem' da TV Brasil, expressou sua profunda satisfação: “Como dizem que eu abri portas, eu acho que eu abri um caminho para mim e vieram atrás. Graças a Deus hoje eu vejo mais atores negros, mais jornalistas negros, na televisão. Se fui eu que fiz isso, que bom”, declarou, com a humildade e a grandeza que a caracterizavam. Mesmo em idade avançada, sua paixão pela arte permanecia inabalável, manifestando o desejo de seguir atuando.
Em um diálogo anterior, concedido à jornalista Luciana Barreto em 2016, também pela TV Brasil, a atriz discorreu sobre as complexidades de sua profissão e as barreiras enfrentadas: “Além do fato de ser uma profissão difícil para todos os atores, para o negro é muito mais difícil. E para uma mulher negra, também”. No entanto, Ruth celebrou nunca ter parado de trabalhar e, com otimismo, mencionou artistas contemporâneos como Taís Araújo e Lázaro Ramos, que hoje ocupam lugares que ela “sempre sonhou”, confirmando que o caminho que ela abriu floresceu em novas gerações de talentos.
A vida de Ruth de Souza foi um testamento de resiliência, talento e revolução silenciosa. Seu velório, realizado no imponente Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o mesmo palco onde ela desafiou convenções décadas antes, selou um ciclo com a devida homenagem. Sua memória permanece viva, não apenas nos registros da dramaturgia, mas também na inspiração que continua a irradiar, reafirmando seu status eterno como a dama que moldou e engrandeceu a arte brasileira.


