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A Jornada Invisível: Mães Ambulantes Cobram Apoio Essencial para Crianças no Carnaval do Rio

Dinael Monteiro
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© Fernando Frazão/Agência Brasil

Enquanto o Rio de Janeiro vibra com a energia contagiante do carnaval, uma realidade paralela se desenrola para centenas de mães ambulantes. Em meio ao sol escaldante e às multidões dos blocos, essas trabalhadoras enfrentam longas jornadas, carregando não apenas seus isopores e mercadorias, mas também seus filhos pequenos. Sem acesso a creches ou cuidadores durante o feriado, a opção muitas vezes é a única: levar as crianças consigo, expondo-as às condições desafiadoras da folia. Essa situação, que expõe a lacuna na rede de apoio social, tem levado movimentos a cobrar soluções urgentes do poder público.

A Dúplice Jornada das Mães Ambulantes no Carnaval Carioca

A decisão de incluir os filhos na rotina de trabalho durante o carnaval reflete a precariedade e a falta de alternativas para muitas famílias. Com escolas fechadas e sem suporte para o cuidado infantil, as mães se veem compelidas a conciliar a árdua tarefa de vender produtos nas ruas com a responsabilidade de zelar pelos pequenos, que as acompanham por horas a fio sob o forte calor. Esta é a dura realidade que impulsiona a luta por melhores condições de trabalho e vida.

Taís Aparecida Epifânio Lopes, de 34 anos, é um exemplo vívido dessa batalha diária. Residente da favela do Arará, na Zona Norte, ela enfrenta uma longa viagem de ônibus com sua filha de 4 anos e todo o material para vender nos blocos da Zona Sul. Para Taís, o carnaval representa a principal fonte de renda anual. “Se eu não fizer isso, a gente não come, não bebe”, explica, ressaltando a impossibilidade de deixar a filha sozinha. A preocupação se estende ao filho mais velho, de 16 anos, que fica em casa, exposto aos riscos de conflitos armados e do tráfico de drogas na comunidade.

No coração da cidade, Lílian Conceição Santos, também de 34 anos, partilha uma experiência semelhante. Ela passa o dia em sua barraca com três filhos e sobrinhos, com idades entre 2 e 14 anos. As condições são rudimentares: o banheiro é um bueiro, banhos são tomados com água fornecida pela polícia, e as refeições são preparadas em panela elétrica. Mesmo diante de tamanha adversidade, Lílian reforça a vitalidade econômica do período: “O carnaval ajuda demais nas contas, não posso deixar de vir”.

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O Carnaval como Salário Extraordinário e a Urgência do Apoio Público

O carnaval carioca projeta um movimento econômico de R$ 5,8 bilhões, e para os ambulantes, essa época representa o maior faturamento do ano, muitas vezes comparado a um 'décimo terceiro salário'. Essa importância econômica acentua a necessidade de políticas públicas que amparem esses trabalhadores essenciais para a folia. Em resposta a essa demanda, o Movimento de Mulheres Ambulantes Elas por Elas Providência tem se articulado para exigir mudanças concretas.

A principal reivindicação do movimento é a criação de pontos de apoio abrangentes. Elas cobram do poder público a instalação de espaços de convivência para as crianças e áreas de descanso para as próprias mães, que funcionem tanto de dia quanto de noite, em locais estratégicos próximos aos grandes blocos e nas áreas centrais da cidade. O objetivo é oferecer um ambiente seguro e adequado para os filhos, permitindo que as mães trabalhem com mais tranquilidade e dignidade.

Primeiros Passos: Um Refúgio Noturno para as Crianças

Em um esforço conjunto, o Movimento Elas por Elas, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), a 1ª Vara da Infância e da Juventude e a prefeitura do Rio de Janeiro conseguiram uma conquista parcial para este carnaval. Foi viabilizado um espaço dedicado ao acolhimento de crianças, porém, apenas durante as noites de desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí.

Essa unidade provisória, que opera das 18h às 6h, oferece uma série de serviços para crianças de 4 a 12 anos. No local, elas podem participar de atividades lúdicas, descansar, tomar banho, receber refeições e dormir em um ambiente mais confortável e seguro, enquanto seus pais e mães se dedicam às vendas nas ruas. O espaço tem capacidade para atender cerca de 20 crianças por noite, proporcionando um alívio significativo para as famílias durante o período noturno.

Impacto e a Luta por Expansão

O impacto do espaço noturno já é notável para as famílias que conseguem acessá-lo. Taís Epifânio, que deixou sua filha no centro no primeiro dia de funcionamento, descreveu a experiência como um “grande alívio”. Sua filha, ao acordar, relatou ter brincado, assistido televisão e desfrutado de uma cama, confortos indisponíveis na rua. Essa experiência positiva reforça a mobilização das mães para expandir o horário de funcionamento e atender também às que trabalham durante o dia.

Luna Cristina Vitória, de 26 anos, que vende churrasquinho nas proximidades do sambódromo, também utilizou o serviço para seus dois filhos, de 5 e 9 anos. Com o auxílio de seus pais nas vendas, ela pôde contar com o suporte completo oferecido pelo projeto, que inclui jantar, banho e um lugar para dormir. O filho de Luna, Eduardo Vitor Nunes Silva, de 9 anos, expressou sua aprovação, destacando a oportunidade de desenhar e a comodidade do local: “Lá a gente come, brinca, dorme, tem uma televisão, é mais confortável”.

Apesar do sucesso inicial e do alívio que o espaço noturno proporciona, a questão da acessibilidade permanece um desafio. Lílian Conceição, que trabalha no Largo da Carioca, lamenta a distância da Sapucaí e a impossibilidade de usufruir do benefício. Ela expressa o desejo de que a prefeitura disponibilize serviços semelhantes em locais mais próximos de onde atuam, de forma a garantir que mais mães possam trabalhar com a tranquilidade de saber que seus filhos estão seguros e cuidados, sem depender exclusivamente da distração de telas.

Conclusão: O Desafio de Harmonizar Folia e Proteção Social

A realidade das mães ambulantes no carnaval do Rio de Janeiro é um lembrete contundente das complexas intersecções entre economia informal, responsabilidade familiar e a necessidade urgente de apoio social. Embora a iniciativa de um espaço noturno para crianças represente um passo valioso, a luta por soluções mais abrangentes – que incluam cobertura diurna e pontos de apoio descentralizados – persiste. O desafio é garantir que o maior evento cultural e econômico da cidade não se construa sobre as costas daqueles que, com esforço e dedicação, impulsionam a folia, mas que carecem de condições mínimas para conciliar trabalho e o bem-estar de suas famílias. A voz dessas mães clama por uma política pública que harmonize a efervescência do carnaval com a proteção e dignidade de todos os seus participantes.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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