Ad imageAd image

Além do Controle Governamental: Especialista Alerta para a Autonomia Policial e o Ciclo da Letalidade no Brasil

Dinael Monteiro
Divulgação: Este site pode conter links de afiliados, o que significa que posso ganhar uma comissão se você clicar no link e efetuar uma compra. Recomendo apenas produtos ou serviços que uso pessoalmente e acredito que agregarão valor aos meus leitores. Agradecemos seu apoio!
© Frame TV Brasil

A segurança pública no Brasil tem sido marcada por uma escalada de violência e estratégias que se mostram ineficazes, conforme evidenciado por um recente alerta da organização Human Rights Watch. O uso irrestrito da força letal pela polícia, frequentemente adotado como pilar da segurança, não apenas falha em produzir resultados duradouros, mas paradoxalmente fomenta um ambiente de maior insegurança. Este cenário complexo é analisado pela professora Carolina Grillo, especialista em conflitos e violência da Universidade Federal Fluminense (UFF), que aponta para um empobrecimento do debate nacional e a persistência de modelos que, apesar de comprovadamente falhos, continuam sendo replicados e intensificados em diversos estados.

A Crítica Internacional e a Escalada da Violência Policial

O alerta da Human Rights Watch ganhou destaque poucos dias após a Operação Contenção, no Rio de Janeiro, completar três meses. Realizada em 28 de outubro do ano anterior, essa ação se tornou um dos episódios mais letais da história recente do Brasil, resultando na morte de 122 pessoas, incluindo cinco policiais. Esse evento sombrio é parte de um quadro mais amplo, onde as forças policiais registraram 5.920 mortes no país entre janeiro e novembro do ano passado, segundo dados recentes. A letalidade policial convive com a trágica realidade dos próprios agentes: o Ministério da Justiça registrou 185 policiais mortos e outros 131 que cometeram suicídio no mesmo período, evidenciando a complexidade e os desafios inerentes à profissão.

O Empobrecimento do Debate e a Replicação de Modelos Falhos

Carolina Grillo critica a persistência de estratégias de segurança pública que se repetem há décadas sem produzir melhorias significativas, apesar da ineficácia notória. Ela observa que estados como Bahia e São Paulo têm reproduzido o 'modus operandi' das polícias do Rio de Janeiro, o que, em vez de resolver, agrava os problemas de segurança existentes. A especialista argumenta que essa replicação não só intensifica a impunidade dos crimes cometidos por agentes do Estado, mas também legitima uma atuação policial mais letal, concedendo ainda mais autonomia e discricionariedade a agentes que já operam com considerável liberdade nas ruas. Para Grillo, a manutenção dessas operações espetaculosas, mesmo com sua comprovada ineficiência no desmantelamento do crime organizado, se justifica por trazer 'retornos eleitorais' aos mandatários, criando uma falsa sensação de ação para a população.

A Autonomia das Forças de Segurança: Governadores Sem Poder Pleno

Um dos pontos centrais da análise de Carolina Grillo reside na fragilidade do controle executivo sobre as forças de segurança. A professora da UFF afirma categoricamente que 'em nenhum estado se pode dizer que o governador possui efetivo controle das forças de segurança'. Ela detalha que as instituições policiais abrigam 'grupos muito poderosos no seu interior' e desfrutam de uma 'relativa autonomia', culminando na 'discricionariedade' que os próprios agentes exercem nas ruas. Essa falta de controle efetivo, aliada à 'promessa de impunidade', atua como um catalisador que 'estimula a atuação policial violenta', perpetuando um ciclo de confrontos e mortes que desestabiliza a sociedade e compromete a construção de uma segurança pública justa e eficiente.

- Anúncio -
Ad image

O Papel da Mídia na Normalização da Violência Estatal

A análise da especialista se estende à cobertura midiática de operações policiais de alta letalidade. Grillo expressa sua preocupação com a maneira como a imprensa nacional abordou a Operação Contenção, classificando a cobertura como 'bastante tendenciosa de uma maneira geral'. Ela destaca que, apesar de haver 'diversos discursos competindo sobre como interpretar essa operação', o discurso oficial do governo do Estado do Rio de Janeiro 'predominou nas narrativas da imprensa nacional'. A pesquisadora ressalta o contraste entre a reação da imprensa internacional, que se 'escandalizou' com o elevado número de mortos na operação, e a imprensa brasileira, que, de certa forma, 'já naturalizou essas mortes'. Essa postura, segundo Grillo, contribui para reforçar uma narrativa oficial que justifica a violência, como a de combate a facções criminosas específicas, e, inadvertidamente, normaliza o que deveria ser um motivo de profunda preocupação social.

Desafios e Perspectivas para a Segurança Pública

A visão de Carolina Grillo sobre a segurança pública brasileira é um convite urgente a uma profunda reflexão. O ciclo vicioso de operações letais, a autonomia das polícias, a impunidade e a superficialidade do debate público apontam para a necessidade de reformular urgentemente as estratégias de combate à criminalidade. Enquanto ações de inteligência e investigações complexas, como as do GAECO e da Polícia Federal, demonstram maior eficácia no desmantelamento do crime organizado, as operações 'espetaculosas' continuam a ser priorizadas, alimentando um jogo político de ganhos imediatos e custos sociais altíssimos. Diante da proximidade de eleições, o debate sobre segurança pública torna-se ainda mais crucial, exigindo que a sociedade e os governantes confrontem a realidade da letalidade e busquem soluções baseadas em evidências e respeito aos direitos humanos, em vez de replicar modelos falhos que aprofundam a crise de segurança no país.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhar este arquivo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *