Salvador, capital da Bahia e berço de rica cultura afro-brasileira, celebra mais uma edição do Bembé do Mercado, um evento de profunda relevância histórica, religiosa e social. Considerada a maior manifestação pública de candomblé do mundo, a festa transcende o aspecto puramente litúrgico, estabelecendo-se anualmente como um patrimônio vivo ancestral. Durante vários dias, a cidade se transforma em palco para a reunião de comunidades de terreiros, lideranças religiosas, artistas e pesquisadores, mergulhando em rituais e expressões culturais que reverenciam a memória e a resistência do povo negro.
Raízes Históricas e o Legado de João de Obá
A história do Bembé do Mercado remonta ao ano de <b>1889</b>, um ano após a abolição da escravidão no Brasil. A festa surgiu como um vibrante ato de celebração da liberdade e da resistência, sendo idealizada pelo babalorixá João de Obá. Sua visão era criar um espaço de reconhecimento e exaltação das tradições africanas após séculos de opressão. A iniciativa de João de Obá não apenas deu origem a um evento singular, mas também plantou as sementes para a preservação e valorização de uma identidade cultural que floresce até os dias atuais, sendo a missa em sua homenagem na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, um dos marcos iniciais da programação.
Uma Celebração de Fé, Cultura e Resistência
Mais do que um rito religioso, o Bembé do Mercado traduz a experiência e a resiliência das populações negras em Salvador. Conforme explica Ana Rita Machado, Iabé do Bembé e professora da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), a festa é uma reelaboração das práticas ancestrais no Brasil, fruto da diáspora africana. Ela representa um reencontro com as origens e a afirmação de uma cultura que, apesar das adversidades históricas, manteve sua vitalidade e poder transformador. O evento reúne mais de <b>60 comunidades tradicionais</b>, reforçando laços de solidariedade e pertencimento.
Do ponto de vista da fé, a celebração é um clamor por 'fortuna' no sentido mais amplo da palavra, como aponta Ana Rita. Este pedido não se restringe a bens materiais, mas abrange a saúde, a prosperidade, o acesso a uma vida mais digna e respeitosa. O Bembé, portanto, personifica as esperanças e os anseios de uma comunidade que busca no sagrado a força para construir um futuro com mais equidade e reconhecimento.
Itinerário de Rituais e Cerimônias Públicas
A programação do Bembé do Mercado se desenrola em um complexo de rituais, alguns sigilosos e internos, outros abertos ao público. A parte visível da festa inicia-se com a alvorada, que convoca a comunidade para o Largo do Mercado, seguida pela liturgia de consagração do barracão onde os xirês (rodas de dança e cânticos) acontecem. Em sua edição atual, os preparativos públicos se intensificam em Santo Amaro, marcando a continuidade de uma tradição que se estende por dias de fervor e devoção.
O coração do evento são os xirês, que se estendem por três dias. Entre os momentos mais esperados estão a lavagem do busto de João de Obá, ocorrida logo cedo, e o xirê de abertura em honra a Xangô, que movimenta a noite. Os dias seguintes contam com o ebó para Oxalá, pela manhã, e o xirê principal, que culmina com a chegada dos presentes destinados a Oxum e Iemanjá. O ponto alto da jornada ritualística é a entrega desses presentes na praia de Itapema, no domingo à tarde, um momento de profunda conexão com as divindades das águas, que é ajustado conforme a tábua de marés.
Reconhecimento Nacional e Aspirações Globais
A importância do Bembé do Mercado é oficialmente reconhecida em diversas esferas. Desde 2012, ostenta o título de <b>patrimônio imaterial da Bahia</b>, e, em 2019, foi elevado à categoria de <b>patrimônio cultural do Brasil</b>. Mas as aspirações de reconhecimento vão além das fronteiras nacionais. Atualmente, o evento encontra-se em processo de candidatura para ser chancelado como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Essa iniciativa visa garantir a perpetuação e a visibilidade internacional de uma manifestação que representa não apenas a fé, mas também a história, a arte e a memória de um povo.
O Bembé do Mercado, com sua rica tapeçaria de rituais, celebrações e significados, reafirma-se a cada ano como um pilar da cultura afro-brasileira. Sua jornada desde 1889, como um brado pela liberdade, até sua projeção global, ressalta a capacidade de uma tradição ancestral de permanecer viva, evoluir e inspirar, mantendo acesa a chama da identidade e da resistência em Salvador e para o mundo.

