Ad imageAd image

Câncer de Colo do Útero: Avanços na Vacinação contra HPV Coexistem com Desafios Críticos no Rastreamento

Dinael Monteiro
Divulgação: Este site pode conter links de afiliados, o que significa que posso ganhar uma comissão se você clicar no link e efetuar uma compra. Recomendo apenas produtos ou serviços que uso pessoalmente e acredito que agregarão valor aos meus leitores. Agradecemos seu apoio!
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

A América Latina e o Caribe têm testemunhado progressos significativos na cobertura vacinal contra o papilomavírus humano (HPV), o principal causador do câncer de colo do útero. Contudo, apesar de ser uma doença altamente prevenível, a região ainda registra um alarmante número de mortes, conforme revelou um estudo publicado em fevereiro na renomada revista científica The Lancet. A análise, que abrangeu dados de 35 países e territórios, sublinha a dicotomia entre os avanços na imunização e as persistentes lacunas nos sistemas de saúde, especialmente no que diz respeito ao diagnóstico precoce.

Cobertura Vacinal: Um Olhar Regional e os Desafios da Meta Global

O HPV representa a infecção sexualmente transmissível mais prevalente no mundo, com impactos significativos na pele e mucosas. Embora existam vacinas eficazes, a sua distribuição e aceitação variam drasticamente na América Latina e no Caribe. Enquanto alguns países latino-americanos atingem quase 97% de cobertura, outros no Caribe ficam em patamares tão baixos quanto 2%, com uma média que ainda se mantém abaixo da meta global da Organização Mundial da Saúde (OMS) de vacinar 90% das meninas até os 15 anos de idade. Essa disparidade evidencia a necessidade de estratégias mais equitativas e assertivas para alcançar a população vulnerável.

No Brasil, os esforços para expandir a imunização têm sido notáveis. Em 2024, o país alcançou uma cobertura de 82,83% entre meninas e 67,26% entre meninos na faixa etária de 9 a 14 anos. Para 2025, o Ministério da Saúde intensificou a campanha, adotando a dose única e ampliando o público-alvo para jovens de 15 a 19 anos que não foram vacinados anteriormente, aproximando-se da meta global de eliminação do câncer do colo do útero. A vacinação gratuita do imunizante foi incorporada ao Calendário Nacional de Vacinação em 2014, sendo o Brasil um dos poucos países da região, ao contrário da Venezuela que ainda não introduziu a vacina em seu sistema público.

O Calcanhar de Aquiles: A Fragilidade do Rastreamento Oportunístico

Apesar do progresso na vacinação, um dos maiores entraves na luta contra o câncer de colo do útero reside no modelo de rastreamento adotado pela maioria dos países da região. Segundo Flavia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, a deficiência central está no predomínio do rastreamento oportunístico. Neste modelo, o exame preventivo é realizado apenas quando a mulher busca o serviço de saúde por outras razões ou solicita o procedimento especificamente.

- Anúncio -
Ad image

Especialistas concordam que esse formato é consideravelmente menos eficiente do que um rastreamento organizado, que se caracteriza pela identificação ativa da população-alvo (mulheres de 25 a 64 anos), convocação proativa para os exames e a busca por aquelas que não comparecem. O rastreamento oportunístico contribui diretamente para diagnósticos tardios e, consequentemente, para uma maior taxa de mortalidade. Flavia Corrêa enfatiza que “não adianta rastrear sem garantir diagnóstico e tratamento”, ressaltando que, na ausência de um sistema organizado, não há asseguramento de que todos os procedimentos necessários estarão disponíveis para a paciente, desde o diagnóstico até o tratamento completo.

Inovação e Integração: A Transição para o Teste DNA-HPV e Desafios da Jornada do Paciente

Em um avanço significativo para o diagnóstico, a Fundação do Câncer lançou, em janeiro, uma atualização do Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, que recomenda a substituição gradual do tradicional exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV. Embora a citologia ainda seja o principal método na maioria dos países analisados, o teste molecular já foi implementado em nações como Argentina, Brasil, Chile, México e algumas do Caribe.

No Brasil, a adoção do teste molecular e a estruturação do atendimento mostram progressos. O rastreamento inicia na atenção primária e, em caso de resultado positivo, a paciente é encaminhada para a atenção secundária para investigação diagnóstica. Uma vez concluída essa etapa, ela segue para o nível terciário, onde receberá o tratamento. No entanto, Corrêa alerta para um desafio crucial: a falta de interoperabilidade entre os diferentes sistemas de informação em cada nível de cuidado. “Se a gente não tiver a interoperabilidade desses sistemas, a gente pode perder a navegação da mulher e ela não concluir o tratamento, o que é o maior problema no Brasil”, destaca a consultora, enfatizando que essa falha pode comprometer toda a linha de cuidado e, em última instância, a vida da paciente.

Prevenção Abrangente e a Conscientização dos Sintomas Precoces

A prevenção do câncer de colo do útero é multifacetada e inclui, fundamentalmente, a vacinação de meninas e meninos. A imunização masculina é crucial não apenas para a proteção comunitária, mas também para salvaguardar os homens contra outros tipos de câncer causados pelo HPV, como os de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de verrugas genitais. A conscientização sobre a doença é um pilar vital, e datas como o Dia de Conscientização do Câncer de Colo do Útero, celebrado em 26 de março, reforçam a importância da informação e do acesso a métodos preventivos.

A especialista ressalta que as lesões precursoras do câncer de colo do útero podem levar de 10 a 20 anos para evoluir, o que oferece uma ampla janela para o diagnóstico precoce. Quando identificado nessa fase inicial, o tratamento apresenta uma alta taxa de sucesso. É imperativo que as mulheres estejam atentas aos sintomas que podem indicar a presença da doença, como sangramentos fora do período menstrual, após relações sexuais ou na pós-menopausa, buscando imediatamente orientação médica.

Um Caminho para a Eliminação: Integração e Acesso Universal

A jornada rumo à eliminação do câncer de colo do útero na América Latina e no Caribe é complexa, exigindo mais do que apenas o aumento da cobertura vacinal. A chave para o sucesso reside na implementação de programas de rastreamento organizados e acessíveis, que garantam a continuidade do cuidado, desde o diagnóstico até o tratamento. A inovação tecnológica, como o teste DNA-HPV, deve ser acompanhada de sistemas de saúde integrados e interoperáveis, capazes de guiar as pacientes por toda a linha de cuidado sem interrupções. Somente com uma abordagem abrangente e coesa, que combine prevenção robusta, diagnóstico eficiente e tratamento garantido, será possível transformar a realidade da região e erradicar uma doença tão prevenível.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhar este arquivo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *