Com uma população de 53 milhões de habitantes, a Colômbia, a segunda nação mais populosa da América do Sul, dirige-se às urnas neste domingo para eleger seu próximo presidente, que governará o país entre 2026 e 2030. A disputa é intensa e polarizada, com três candidatos emergindo como favoritos para avançar ao segundo turno, previsto para 21 de junho. O pleito não apenas definirá o futuro interno da nação caribenha, mas também seu posicionamento estratégico no cenário regional e global, marcando um momento crucial para sua política externa e suas alianças.
A Disputa Eleitoral e Seus Principais Nomes
As pesquisas de intenção de voto apontam para um cenário com três figuras de destaque que concentram as maiores chances de seguir para a fase decisiva da eleição. Representando o espectro da esquerda, surge Iván Cepeda, filósofo e defensor dos direitos humanos, com forte ligação ao atual presidente Gustavo Petro. No campo da direita tradicional, destaca-se Paloma Valencia, senadora com profundas raízes no movimento uribista, alinhada ao ex-presidente Álvaro Uribe. Completando o trio, figura Abelardo de La Espriella, um advogado milionário e novato na política, que se apresenta como um 'outsider' e admira figuras como Javier Milei e Donald Trump.
As Implicações Geopolíticas da Escolha Colombiana
A eleição colombiana transcende as fronteiras nacionais devido à posição estratégica do país, que possui acessos tanto ao Oceano Pacífico quanto ao Mar do Caribe. Essa característica confere à Colômbia um papel central na geopolítica sul-americana. Matheus Petrelli, pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) da Uerj, ressalta que o resultado da votação terá impacto direto no alinhamento internacional de Bogotá. A continuidade da gestão de esquerda, através de Cepeda, poderia reforçar a aproximação com líderes como o presidente brasileiro Lula, especialmente em pautas ambientais e sociais regionais. Por outro lado, uma vitória de Paloma Valencia ou Abelardo de La Espriella sinalizaria uma provável retomada de laços mais estreitos com os Estados Unidos, alterando a dinâmica que prevalecia até a eleição de Petro em 2022, quando a Colômbia era vista como um dos principais aliados de Washington na região.
Iván Cepeda: A Continuidade da Esquerda e o Legado de Petro
Iván Cepeda emerge como um nome quase certo para o segundo turno, capitalizando a popularidade do atual presidente Gustavo Petro. No entanto, sua trajetória política é singular e robusta. Filho do senador de esquerda Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994, Cepeda construiu uma carreira como legislador e ativista, distanciando-se do perfil ex-guerrilheiro de Petro. Sua relevância política é notável por ter sido um dos principais oponentes do ex-presidente Álvaro Uribe, figura emblemática da direita colombiana, e por seu envolvimento em casos de grande repercussão, demonstrando uma independência e força política próprias dentro do campo progressista.
O Caso dos 'Falsos Positivos' e o Confronto com Uribe
Um dos episódios mais marcantes da carreira de Iván Cepeda foi seu papel na denúncia contra Álvaro Uribe no escândalo dos 'falsos positivos'. Durante o governo Uribe (2002-2008), estima-se que cerca de 7,8 mil civis, majoritariamente jovens de áreas pobres, foram assassinados pelas forças armadas e falsamente apresentados como guerrilheiros mortos em combate, a fim de inflar os números da guerra contra grupos paramilitares. Cepeda foi fundamental na coleta de informações para o processo contra Uribe, que, em agosto de 2025, chegou a ser condenado em primeira instância por fraude processual e suborno de testemunhas. Embora Uribe tenha sido absolvido em segunda instância em outubro do mesmo ano, a atuação de Cepeda solidificou sua imagem como um defensor incansável da justiça e um adversário direto da direita tradicional.
A Direita em Destaque: Paloma Valencia e Abelardo de La Espriella
O campo da direita colombiana apresenta duas vertentes principais, representadas por Paloma Valencia e Abelardo de La Espriella, que, apesar de suas diferenças, buscam atrair o eleitorado conservador e insatisfeito com a atual gestão. A disputa entre elas, e a capacidade de cada uma em se conectar com diferentes setores da direita, será crucial para determinar o candidato que poderá enfrentar Cepeda no segundo turno.
Paloma Valencia: A Voz do Uribismo Tradicional
Paloma Valencia, senadora do Centro Democrático, personifica a direita mais tradicional e conservadora da Colômbia, sendo uma fiel seguidora de Álvaro Uribe. Sua plataforma política ecoa as convicções de seu padrinho, inclusive sugerindo nomeá-lo Ministro da Defesa. Valencia é conhecida por sua postura linha-dura, tendo se oposto veementemente aos acordos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em 2016 e defendendo uma abordagem de confronto militar sem diálogo com os grupos guerrilheiros. Sua candidatura representa a tentativa do uribismo de recuperar a influência política, mesmo diante do surgimento de novas forças à direita.
Abelardo de La Espriella: O Fenômeno Outsider da Extrema-Direita
Abelardo de La Espriella surge como uma figura surpreendente na corrida presidencial. Sem histórico prévio em cargos eletivos, o advogado milionário se projeta como um 'outsider' da política tradicional. Sua campanha é impulsionada por um discurso alinhado à extrema-direita, com claras referências a líderes como Javier Milei na Argentina e Donald Trump nos Estados Unidos. O fenômeno Abelardo de La Espriella reflete uma onda de descontentamento e o desejo por uma ruptura com o establishment político, e sua ascensão nas pesquisas o coloca como um competidor sério, potencialmente capaz de disputar um lugar no segundo turno, desafiando a hegemonia da direita tradicional representada por Valencia.
À medida que a Colômbia se prepara para esta eleição histórica, os olhos do continente e do mundo estarão voltados para os resultados. A escolha do próximo presidente não apenas traçará o curso da política interna para os próximos quatro anos, abordando desafios sociais, econômicos e de segurança, mas também redefinirá a posição da Colômbia no xadrez geopolítico da América Latina, impactando desde as relações comerciais até as alianças estratégicas e o futuro da paz na região. A nação está em uma encruzilhada, e o voto deste domingo decidirá o caminho a ser trilhado.


