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Documentário da UFF Mergulha nos Ecos Transnacionais da Escravidão no Brasil e no Mundo

Dinael Monteiro
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© Tomaz Silva/Agência Brasil

Um ambicioso projeto de longa-metragem documental, atualmente em fase de pré-produção pela Universidade Federal Fluminense (UFF), propõe-se a desvendar as complexas formas pelas quais a escravidão atlântica ainda molda as desigualdades sociais, econômicas e políticas no Brasil contemporâneo. Esta iniciativa transcende fronteiras, reunindo uma equipe multidisciplinar de pesquisadores brasileiros e estrangeiros em uma investigação que tece elos entre o passado e o presente sob uma perspectiva verdadeiramente global.

Uma Investigação Transnacional com Apoio Britânico

O documentário brasileiro integra um projeto internacional de maior envergadura, financiado pelo governo britânico, que articula uma rede de instituições acadêmicas de diversos países. Entre os colaboradores de peso estão a University of Bristol, universidades em Gana e na Dominica, além da parceria estratégica com o 'Cultne', uma renomada organização brasileira dedicada à salvaguarda da memória audiovisual da cultura negra. À frente do roteiro e da produção no Brasil está a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, professora do Departamento de História da UFF, cuja pesquisa mais ampla sobre reparações históricas da escravidão em distintos territórios serve de alicerce para a produção cinematográfica.

A proposta do projeto vai além de analisar as reverberações da escravidão atlântica de forma comparada; busca-se compreender ativamente como os processos de reparação vêm sendo construídos nessas nações. A escolha dos países parceiros – Brasil, Inglaterra, Gana e Dominica – é intencional, visando refletir as múltiplas dimensões do sistema escravista. A Inglaterra, por exemplo, reconhece sua responsabilidade histórica por ter sido o país que mais traficou africanos escravizados, ao mesmo tempo em que liderou movimentos abolicionistas, e hoje participa ativamente desse debate crucial.

O Coração da Pesquisa no Brasil: A Pequena África e o Cais do Valongo

No contexto brasileiro, o documentário elegeu a região da Pequena África, no Rio de Janeiro, como seu eixo central, com especial atenção ao Cais do Valongo. Este local, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade, representa o maior porto de entrada de africanos escravizados nas Américas, carregando uma dimensão histórica imensurável. Segundo a pesquisadora Ynaê Lopes dos Santos, o território do Valongo é emblemático não apenas por sua carga histórica, mas também pelas contínuas lutas contemporâneas de moradores, ativistas e pesquisadores locais. A produção se propõe a explorar as possibilidades de reparações a partir das ricas narrativas e das incansáveis mobilizações sociais ali edificadas.

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A pesquisa também contará com a valiosa colaboração do Instituto Pretos Novos, uma entidade que desempenha um papel fundamental na preservação da memória dos africanos escravizados, trabalhando com vestígios arqueológicos encontrados na região. Essa parceria fortalece a abordagem do documentário, conectando a investigação histórica a iniciativas de base que mantêm viva a memória e a luta por reconhecimento.

Desvendando a Persistência da Desigualdade e a Urgência da Reparação

O documentário parte de uma questão fundamental e urgente: como as estruturas sociais, econômicas e políticas criadas durante o período da escravidão persistem ativas na sociedade brasileira de hoje. Ynaê Lopes dos Santos enfatiza que o Brasil ainda enfrenta uma desigualdade abissal entre a população branca e a população negra, uma herança que se perpetua por mais de 130 anos de República sem ter sido efetivamente resolvida. A proposta é, portanto, expor o funcionamento intrínseco do racismo estrutural, traçando suas origens na experiência histórica da população negra e evidenciando os impactos que perpassam as mais diversas dimensões da vida social.

A discussão sobre reparações, na visão da historiadora, não se restringe apenas à população negra; é uma pauta essencial para a transformação do país como um todo. Revelar essas conexões históricas e suas manifestações atuais é crucial para qualquer debate sério sobre justiça e equidade. O filme brasileiro, inserido em uma série de produções globais, cada qual abordando a escravidão a partir de seu respectivo território, dialogará com as demais para construir uma compreensão multifacetada desse sistema.

Do Acadêmico ao Audiovisual: Democratização do Conhecimento

Além do longa-metragem, o projeto contempla a produção de conteúdos audiovisuais mais curtos, com foco educacional. Estes materiais serão desenvolvidos em alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as leis que determinam o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, visando ser ferramentas didáticas valiosas. A iniciativa reconhece o potencial do audiovisual como um poderoso meio para democratizar o conhecimento acadêmico, traduzindo o rigor da pesquisa universitária em uma linguagem acessível a um público mais amplo.

Ynaê Lopes dos Santos destaca a importância de equilibrar o rigor histórico com a acessibilidade, garantindo que o filme valorize e dê protagonismo a lideranças negras, pesquisadores e moradores das comunidades afetadas. A intenção é utilizar o audiovisual para criar conexões emocionais e narrativas impactantes, dando voz a quem sempre esteve na vanguarda da luta por reconhecimento e justiça. Sem título definido ainda, o documentário tem previsão de conclusão até o final de 2027, prometendo ser uma contribuição significativa para o debate público sobre a herança da escravidão.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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