Mexilhões Acumulam Microplásticos e Representam Risco de Contaminação Humana, Revela Pesquisa da UNIRIO

Dinael Monteiro
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© joycemay/Pixabay

Uma nova pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) lança luz sobre um preocupante elo na cadeia alimentar: os mexilhões, moluscos amplamente consumidos na culinária brasileira, podem estar servindo como uma porta de entrada para microplásticos no corpo humano. O estudo, recentemente publicado na revista científica Ocean and Coastal Research, editada pelo Instituto Oceanográfico da USP, destaca a capacidade desses organismos de ingerir indiscriminadamente partículas poluentes, levantando sérias questões sobre a segurança alimentar e a saúde pública.

A Mecanismo da Contaminação e a Natureza dos Microplásticos

A contaminação ocorre devido ao modo de alimentação dos mexilhões. Sendo organismos filtradores, eles absorvem nutrientes e outras partículas da água. O problema reside na incapacidade desses moluscos de diferenciar microalgas, que são seu alimento natural, de microplásticos. Esses fragmentos de plástico, menores que 5 milímetros, são resultado da degradação de resíduos maiores – como embalagens, garrafas, pneus e tecidos – sob a ação do tempo e da radiação solar, permeando oceanos, rios e até mesmo o ar.

Além de sua ubiquidade, os microplásticos são um vetor de outros contaminantes. Frequentemente, essas minúsculas partículas carregam elementos químicos tóxicos, provenientes, por exemplo, de tintas e outros revestimentos, intensificando o potencial de risco para os organismos que os ingerem e, subsequentemente, para os humanos.

Metodologia Rigorosa: Simulando a Ingestão em Laboratório

Para chegar às suas conclusões, a equipe de pesquisadores da Unirio coletou exemplares do mexilhão marrom (*Perna perna*), uma espécie comum e muito apreciada, na Praia Vermelha, na zona sul do Rio de Janeiro. Em um ambiente laboratorial controlado, foram recriadas condições ambientais para observar o comportamento alimentar dos moluscos.

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Os mexilhões foram divididos em três grupos e expostos a diferentes soluções na água: um grupo recebeu apenas microalgas, outro, exclusivamente microplásticos, e o terceiro, uma mistura de ambos. Após uma hora de observação, a análise da água dos aquários revelou um padrão preocupante de consumo. A bióloga marinha e professora Raquel de Almeida Ferrando Neves, coautora do estudo, explicou à Agência Brasil que os mexilhões demonstraram não ter percepção, "não conseguindo diferenciar partículas naturais e partículas de plástico".

Resultados Preocupantes: A Ausência de Seletividade Alimentar

Os dados coletados no experimento foram conclusivos. No tanque que continha a mistura de microalgas e microplásticos, os mexilhões deixaram aproximadamente 48% das microalgas e 52% das esferas de plástico. Essa proporção quase equivalente, conforme os pesquisadores, corrobora a tese de ausência de seletividade alimentar por parte da espécie, confirmando que os moluscos ingerem os microplásticos de forma tão eficiente quanto seu alimento natural.

Implicações para a Saúde Humana: Um Risco Latente

A professora Raquel Neves, do Departamento de Ecologia e Recursos Marinhos da Unirio, adverte que o maior perigo dos microplásticos reside na sua capacidade de acumular contaminantes químicos em sua superfície. “Isso, para a saúde humana, é sempre muito arriscado e perigoso, porque esses mexilhões são filtradores, e organismos filtradores acumulam contaminantes químicos”, detalha Neves, que também é uma das vencedoras do Prêmio Para Mulheres na Ciência 2023.

A exposição a esses contaminantes varia conforme o padrão de consumo. Uma pessoa que ingere mexilhões esporadicamente terá menor risco em comparação com aquelas que os consomem com alta frequência. Essa análise de risco de consumo é crucial para compreender as potenciais consequências a longo prazo. Além disso, a pesquisadora enfatiza que, diferentemente de microrganismos patogênicos, o cozimento não é uma medida eficaz para eliminar ou reduzir os riscos associados a microplásticos, biotoxinas, metais pesados e outros contaminantes químicos presentes nos moluscos.

Um Problema Global com Ramificações Locais

A pesquisa da Unirio reforça um cenário global de preocupação com a poluição por microplásticos. Casos semelhantes foram documentados em diversas partes do Brasil e do mundo. Recentemente, a Agência Brasil noticiou a detecção de microplásticos em 93% de amostras de peixes no litoral do Paraná. Outras investigações brasileiras já identificaram essas partículas até mesmo em placentas e cordões umbilicais, evidenciando a profundidade da penetração desses poluentes no ecossistema e na biologia humana. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a gravidade do problema e tem incentivado mais estudos sobre os efeitos dos microplásticos na saúde humana. Embora o experimento da Unirio tenha se concentrado em uma localização específica, a natureza ubíqua da poluição plástica sugere que os resultados podem ser aplicados a uma escala muito mais ampla, tornando o alerta sobre o consumo de mexilhões uma preocupação generalizada.

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