Perda Gestacional: O Desafio Oculto da Saúde Mental Feminina e a Urgência do Acolhimento

Dinael Monteiro
Divulgação: Este site pode conter links de afiliados, o que significa que posso ganhar uma comissão se você clicar no link e efetuar uma compra. Recomendo apenas produtos ou serviços que uso pessoalmente e acredito que agregarão valor aos meus leitores. Agradecemos seu apoio!
© Tomaz Silva/Agência Brasil

A experiência de uma perda gestacional, muitas vezes minimizada ou incompreendida pela sociedade, representa um evento profundamente traumático com impactos significativos na saúde mental das mulheres. Kalyane Ribeiro, de Manaus, vivenciou essa realidade aos 32 anos, após um ano e meio de tentativas para engravidar, enfrentando uma interrupção precoce da gestação antes da 20ª semana. Sua história ecoa a de muitas outras que, invisíveis, precisam de atenção e cuidado. Neste Setembro Amarelo, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) acende o alerta para a negligência que ainda envolve o suporte psicológico nesse período delicado, conclamando por maior sensibilidade e assistência especializada.

O Vazio Incompreendido: Narrativas de Dor e Isolamento

Kalyane descreve a perda gestacional como “entrar em um buraco”, um lugar com poucas pessoas onde a compreensão externa parece quase impossível. Essa sensação de isolamento é agravada pela forma como a sociedade, incluindo familiares e amigos, reage. Frequentemente, a dor é desconsiderada, com frases como “você vai ter que tentar de novo, vai dar certo”, que ignoram a profundidade do luto. A mulher não busca um substituto, mas processar a perda de um filho, independentemente do tempo de gestação, um sentimento que o mundo exterior tem dificuldade em validar ou sequer reconhecer.

A Complexidade do Luto: Trauma e Reações Psicológicas

O vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, o obstetra Romulo Negrini, enfatiza que a perda gestacional é, de fato, um evento traumático que exige acolhimento e assistência. Mulheres que passam por essa experiência podem desenvolver tristeza profunda, sensação de vazio, culpa, ansiedade, dificuldades para dormir, irritabilidade e perda de interesse em atividades diárias. Sofrer intensamente é uma reação humana esperada e não indica, por si só, o desenvolvimento de uma doença psiquiátrica. Segundo o obstetra Eduardo Felix Martins Santana, também integrante da Comissão da Febrasgo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre 15% e 20% das gestações não evoluem, reforçando a importância de que a mulher não enfrente esse desafio sozinha.

Além do Emocional: O Impacto Hormonal na Crise Psicológica

A psiquiatra Andréa Cristina Galastri, professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), adiciona uma camada fisiológica à discussão: as alterações hormonais. Durante a gravidez, os níveis hormonais aumentam para sustentar o feto e a placenta. Com a perda gestacional, há uma queda abrupta, semelhante a uma Tensão Pré-Menstrual (TPM), mas em intensidade muito maior. Essa desregulação hormonal, que pode durar cerca de 15 dias, intensifica a sensibilidade e o impacto emocional do luto, tornando o período ainda mais desafiador para a saúde mental da mulher.

- Anúncio -
Ad image

Galastri alerta para a necessidade de buscar ajuda profissional caso o estado de sofrimento persista e se agrave. Sinais como ansiedade e depressão prolongadas, pensamentos de desesperança ou fracasso, perda de funções básicas (parar de comer, não conseguir dormir), choro incessante por mais de 15 dias ou um mês, indicam que o quadro se tornou grave. Enquanto o sofrimento é natural, a paralisia da vida não é. Nesses casos, a intervenção se torna crucial, sendo indicada psicoterapia e, se necessário, medicação para reequilibrar a bioquímica cerebral alterada pelo estresse.

Rumo ao Cuidado Integral: O Papel Essencial de Profissionais e da Sociedade

Para o obstetra Eduardo Felix Martins Santana, o cuidado com a mulher que sofreu uma perda gestacional deve ser holístico, envolvendo não apenas o suporte médico, mas também o familiar e dos amigos. Ele ressalta que a mulher passará por diversos estágios de aceitação, negação, raiva e tristeza profunda, e em todos eles, o acolhimento é fundamental. Santana defende uma postura proativa por parte dos médicos, dos órgãos reguladores e das sociedades médicas. Embora a Febrasgo possua uma comissão dedicada à assistência em abortamento, parto e pós-parto, o desafio reside em difundir esse conhecimento e essa prática por todo o Brasil, garantindo que o apoio chegue a todas as mulheres que necessitam.

Essa proatividade é vital para que os profissionais estejam preparados para orientar e oferecer o suporte adequado, compreendendo a profundidade do luto e a complexidade das reações emocionais e hormonais. A capacitação e a conscientização dos profissionais de saúde são passos cruciais para que o acompanhamento seja efetivo e humanizado.

Em suma, a perda gestacional transcende a dimensão física, impondo um pesado fardo emocional e psicológico que clama por reconhecimento e tratamento adequado. É imperativo que a sociedade e os sistemas de saúde se mobilizem para oferecer um suporte integral, desmistificando o tabu em torno do luto gestacional e garantindo que nenhuma mulher precise enfrentar essa dor sozinha. Ao dar voz a essas experiências e exigir acolhimento, damos um passo importante na promoção da saúde mental feminina, reforçando a mensagem de vida e cuidado que o Setembro Amarelo anualmente nos lembra.

Compartilhar este arquivo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *