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Portela Desvenda o ‘Mistério do Príncipe do Bará’ e Valoriza a Matriz Afro-Gaúcha

Dinael Monteiro
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© Portela/Divulgação

Uma das mais emblemáticas agremiações do Carnaval carioca, a Portela, se prepara para um desfile que promete transcender a Marquês de Sapucaí, ao mergulhar nas profundezas das raízes africanas presentes no sul do Brasil. Com o enredo "O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande", a escola propõe uma homenagem à tradição do batuque, a principal religião de matriz africana praticada na região.

Este ano, a Azul e Branco de Madureira não apenas desfilará na avenida, mas também narrará uma história de fé, resistência e identidade, desafiando percepções convencionais sobre a distribuição da cultura negra no território nacional. Ao destacar o batuque, a Portela o posiciona lado a lado com outras grandes manifestações afro-brasileiras como o candomblé na Bahia, a Jurema Sagrada do Nordeste, o tambor de mina no Maranhão, a umbanda no Rio de Janeiro e o Xangô de Pernambuco, construindo um panorama abrangente das múltiplas faces da espiritualidade africana no Brasil.

A Origem e o Legado do Príncipe do Bará

O enredo portelense centraliza-se na figura do Príncipe do Bará, identificado como Osuanlele Okizi Erupê, um influente líder religioso que, ao chegar ao Brasil no século XIX, adotou o nome de Custódio Joaquim de Almeida. Nascido no Golfo da Guiné, na costa ocidental africana, sua trajetória o trouxe até Porto Alegre, capital gaúcha, onde faleceu na década de 1930. Sua vida e impacto são cruciais para a compreensão da formação do batuque no Sul.

Embora a nobreza, as datas exatas de nascimento e morte do Príncipe Custódio sejam pontos de debate entre historiadores e antropólogos, como apontam estudos do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, sua relevância é inquestionável. Ele é amplamente reconhecido por ter desempenhado um papel fundamental na mediação entre a comunidade negra e as elites políticas gaúchas, servindo como um protetor e guardião de conhecimentos e liturgias africanas. Sua atuação foi vital para a consolidação e visibilidade do batuque em Porto Alegre, legitimando a religião que, por vezes, era praticada de forma mais discreta nos bairros afastados, desafiando a hegemonia cultural de um período marcado pela migração europeia.

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Portela Desafia Percepções: O 'Sul Negro' em Evidência

A escolha do enredo pela Portela vai além da celebração de uma figura histórica; ela se insere numa proposta de descentralização da narrativa histórica negra brasileira. Conforme detalha o carnavalesco André Rodrigues, o objetivo é focar na rica formação do Rio Grande do Sul, questionando o senso comum que muitas vezes associa as religiões de matriz africana predominantemente ao Nordeste ou ao Sudeste. Essa perspectiva é corroborada por dados do Censo Populacional do IBGE (2022), que revelam que o Rio Grande do Sul possui, proporcionalmente, mais praticantes ou devotos dessas religiões (3,2%) do que estados como Rio de Janeiro (2,6%) ou Bahia (1%).

Essa abordagem permite à Portela resgatar e reafirmar a presença africana em terras gaúchas, sublinhando a máxima de “resgatar a tradição/ onde a África assenta”. O desfile se torna uma potente ferramenta para iluminar uma faceta menos explorada da identidade brasileira, destacando a profunda e duradoura influência da cultura negra na construção social e religiosa do Sul do país.

A Emoção do Samba e a Voz Estreante na Avenida

A narrativa sobre o Príncipe Custódio ganhará vida através da voz de Zé Paulo Sierra, que fará sua estreia como intérprete principal da Portela. Para ele, este momento representa a realização de um “sonho de infância”, enraizado em uma profunda conexão familiar com a escola. Zé Paulo, cuja paixão pela Portela vem de seu pai e do bairro da Abolição, onde cresceu ouvindo os sambas da agremiação, defendeu com maestria a composição vitoriosa nas eliminatórias.

O samba-enredo, assinado por Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena, foi o escolhido entre 36 candidatos. A entrega de Zé Paulo Sierra à interpretação reflete sua familiaridade com "cada detalhezinho desse samba", como ele mesmo afirma, prometendo uma performance carregada de emoção e técnica. A Portela, maior campeã do carnaval carioca, trará essa poderosa mensagem à Sapucaí na noite de domingo, 15 de fevereiro, em um dos momentos mais aguardados do Grupo Especial.

Uma Celebração de Fé e História na Sapucaí

O desfile da Portela com "O Mistério do Príncipe do Bará" não será apenas um espetáculo de cores e ritmos, mas uma celebração profunda da história, da fé e da resiliência da população negra no Brasil. Ao focalizar o batuque e a figura de Custódio Joaquim de Almeida no Rio Grande do Sul, a escola reafirma seu compromisso com a valorização das diversas expressões da cultura afro-brasileira, muitas vezes marginalizadas ou invisibilizadas.

A Portela, com sua tradição e capacidade de emocionar, se posiciona como um farol cultural, utilizando o palco do carnaval para educar e inspirar. Este enredo representa uma ponte entre o passado e o presente, conectando o Golfo da Guiné, Porto Alegre e o coração do carnaval carioca, em uma reverência à memória e ao legado de um povo que construiu e continua a enriquecer a identidade multifacetada do Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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