Brasília, 5 de novembro de 2026 – A busca por uma justiça mais equitativa e a expansão da representatividade feminina em esferas de poder foram temas centrais da conferência internacional “Mulheres que movem a justiça”, realizada na capital federal. O evento, que se estende até sexta-feira (6), serviu de plataforma para comunicadoras, advogadas e influenciadoras defenderem a articulação de redes de apoio como uma estratégia fundamental para combater o machismo sistêmico e a desinformação, pavimentando o caminho para uma maior participação das mulheres na vida pública e política do Brasil.
A Força da Articulação Feminina e o Legado do 'Lobby do Batom'
Em um dos painéis de debate, Antonia Pellegrino, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), contextualizou a importância histórica da união feminina. Ela relembrou a marcante atuação do “lobby do batom”, uma aliança suprapartidária de deputadas federais e senadoras que, durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, garantiu uma parcela significativa dos direitos femininos que perduram até hoje. Pellegrino salientou que essa capacidade de organização em rede é uma habilidade intrínseca às mulheres e uma estratégia de sobrevivência desenvolvida ao longo dos séculos, que agora se mostra crucial para enfrentar os desafios contemporâneos.
A presidente da EBC também apontou para uma janela de oportunidade iminente: a nomeação de ao menos 40% dos cargos vitalícios no Judiciário na próxima década. Essa projeção abre uma perspectiva concreta para que mais mulheres ocupem posições estratégicas nesse poder, fortalecendo a necessidade de que as profissionais se organizem e atuem de forma colaborativa para assegurar sua presença e influência. Além disso, ela enfatizou que a comunicação pública, frequentemente alvo de governos extremistas e de campanhas de desinformação orquestradas, pode encontrar na rede de apoio um antídoto eficaz contra mensagens misóginas e falaciosas.
O Combate à Misoginia e a Valorização da Informação Objetiva
A advogada e influenciadora Sara Gabriela, criadora da página “Seja a princesa que salva a si mesma”, trouxe ao debate a perspectiva de que o machismo deve ser reconhecido como um elemento cultural enraizado que precisa ser ativamente enfrentado. Ela defendeu que, embora o ordenamento jurídico brasileiro seja avançado, a efetividade de suas leis depende de uma atuação objetiva e da disseminação de informações concretas para confrontar a misoginia. Em sua visão, a informação não pode ser suavizada, especialmente quando se trata de empoderar mulheres. Seu projeto, iniciado em 2019, nasceu da vivência no atendimento a vítimas de violência em comunidades goianas, onde percebeu que a mudança cultural é o motor essencial para a transformação.
Descomplicando Direitos e o Valor Inestimável do Trabalho Feminino
Outra voz importante no evento foi a da advogada e influenciadora Miriane Ferreira. Com milhões de seguidores no Instagram, ela utiliza sua plataforma para traduzir temas jurídicos complexos em linguagem acessível, capacitando mulheres a compreenderem e reivindicarem seus direitos. Miriane destacou um ponto crítico: muitas mulheres abrem mão de direitos patrimoniais construídos durante o casamento por não terem uma atividade profissional remunerada fora de casa, desvalorizando o trabalho doméstico e os cuidados com a família. Ela ressalta a urgência de as mulheres reconhecerem seu próprio valor e se apoiarem mutuamente, especialmente em situações como o divórcio, onde o conhecimento dos direitos fundamentais se torna crucial.
Desafios no Judiciário e a Urgência da Representatividade Qualificada
A advogada Mayra Cotta, produtora e criadora da série “Afiadas” – que explorou o cotidiano e as conversas de mulheres em um salão de beleza em Brasília –, expressou preocupação com a forma como as denúncias de violência contra a mulher são tratadas. Segundo ela, apesar de as mulheres estarem mais dispostas a denunciar violações, enfrentam um “massacre do Judiciário”. Cotta enfatizou que a mera presença de mais mulheres em cargos de poder não basta; é imperativo que haja uma conscientização e respeito profundos na recepção e tramitação dessas denúncias, lamentando a conduta de juízes que, por vezes, minimizam ou ignoram casos de assédio e abuso.
Engajamento Político e a Conquista de Espaços de Poder
Complementando a discussão, a jornalista Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, ressaltou o papel essencial de sua iniciativa em incentivar o engajamento feminino em espaços de poder. Ela citou como exemplo a campanha realizada no mês anterior, que utilizou mensagens permanentes para estimular a participação das mulheres em processos de decisão, incluindo o voto. A plataforma busca catalisar a consciência sobre a importância de que as mulheres não apenas busquem, mas ativamente ocupem essas posições para influenciar políticas públicas e garantir uma representatividade que espelhe a diversidade da sociedade.
Conclusão: A Unidade como Motor da Transformação
A conferência “Mulheres que movem a justiça” consolidou um chamado à ação: a união e a articulação em rede não são apenas estratégias, mas pilares para a sobrevivência e a ascensão feminina em todas as esferas. Seja pela memória das conquistas históricas, pela necessidade de combater a desinformação, pela defesa dos direitos ou pela crítica ao tratamento dado às denúncias, a mensagem é clara. Ao trabalharem em conjunto, trocando conhecimentos e fortalecendo-se mutuamente, as mulheres podem superar os obstáculos do machismo e da desvalorização, ocupando e transformando os espaços de poder para construir uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária.

