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Samba-Enredo: A Voz Política e a Resistência Velada do Carnaval Brasileiro

Dinael Monteiro
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© Gilberto Costa/Agência Brasil

A história da democracia brasileira no século XX foi marcada por avanços e recuos, um percurso bem distante da fluidez e da precisão de um desfile de carnaval. Nesse cenário de instabilidade, figuras essenciais do carnaval – carnavalescos, compositores e membros de escolas de samba – enfrentaram vigilância, censura e até prisões por parte de forças repressoras. Somado a isso, o racismo estrutural pesou e ainda pesa sobre a população negra que é o cerne e a alma do carnaval carioca.

É nessa complexa trincheira política que se insere a pesquisa do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino. Sua tese de doutorado, intitulada 'Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia', defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), propõe uma nova leitura sobre o papel dos sambas-enredo como potentes manifestações políticas. Seu trabalho, que deu origem ao documentário homônimo disponível no Globoplay, revela uma faceta pouco explorada da resistência cultural no país.

O Samba-Enredo como Declaração Política Ignorada

Tradicionalmente, ao se discutir a resistência cultural à ditadura militar, o foco recai sobre a Música Popular Brasileira (MPB). No entanto, Rodrigo Reduzino argumenta que essa perspectiva negligencia o papel crucial desempenhado pelas escolas de samba durante os 'anos de chumbo'. Segundo ele, essa lacuna na narrativa histórica decorre de uma sociedade cronicamente estruturada pelo racismo, que tende a silenciar e deslegitimar a voz, a intelectualidade e a própria humanidade de determinados grupos.

Para Reduzino, o samba-enredo transcende a mera canção festiva, configurando-se como um "grande enunciado político". A complexidade de sua criação, um processo que pode levar de seis meses a um ano dentro da comunidade, significa que as críticas à ditadura – seja a denúncia da tortura ou o clamor pela liberdade – expressas em desfiles, representavam um processo político muito mais amplo e engajador do que um simples espetáculo de uma hora e meia. As escolas de samba, com suas cores e ritmos, funcionaram como palcos de contestação em meio à repressão.

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A Repressão e o Racismo na História do Carnaval

A violência do Estado contra as escolas de samba e seus membros adicionou uma camada extra de sofrimento às camadas populares, à população negra e periférica. O sociólogo destaca que o samba, como expressão fundamental da cultura negra no Brasil, historicamente sofreu com a estrutura racista da sociedade. Não se pode esquecer o "Código de Vadiagem" (Art. 59 do Decreto-Lei 3.688/1941), uma ferramenta jurídica utilizada pela polícia para criminalizar pessoas negras, especialmente aquelas com instrumentos musicais, que eram associadas à ociosidade e contravenção caso não apresentassem carteira de trabalho.

Essa perseguição não era um mero incidente, mas uma manifestação de um preconceito enraizado, que buscava controlar e deslegitimar as expressões culturais de origem africana. A vigilância e a censura impostas aos carnavalescos e compositores demonstram a percepção do poder público de que o carnaval, mesmo em sua aparente leveza, era um espaço de potencial subversão e afirmação cultural, especialmente para as comunidades marginalizadas.

A Complexa Relação Entre Samba, Bicheiros e Poder

A associação entre escolas de samba e os "banqueiros do bicho" (financiadores do jogo do bicho) é um tema recorrente, muitas vezes usado para estigmatizar as agremiações. Reduzino, contudo, oferece uma perspectiva mais nuançada, situando a emergência desses "mecenas" do jogo ilegal dentro das escolas de samba de forma proeminente justamente no período da ditadura militar. Essa não foi uma coincidência, mas um reflexo da complexa rede de poder da época.

O sociólogo revela que esses mesmos bicheiros que atuavam como patronos das escolas mantinham relações e diálogo com altas esferas do poder, frequentando gabinetes de generais e o Palácio da Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro. Imagens de políticos com bicheiros, e o fato de alguns destes terem sido militares, corroboram essa interconexão. Assim, a pesquisa de Reduzino desafia a narrativa simplista que responsabiliza unicamente as escolas de samba pela presença dos bicheiros, evidenciando uma cumplicidade mais ampla e institucionalizada que envolvia o próprio aparelho estatal.

Enredos da Liberdade: Da Tese ao Documentário

O mergulho de Reduzino nos "Enredos da Liberdade" analisou os sambas-enredo das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro ao longo da década de 1980. Esse período abrangeu o fim da ditadura militar (1964-1985), perpassando a efervescente campanha pelas Diretas Já (1984) e estendendo-se até a eleição de Fernando Collor à Presidência da República (1989). A tese ilumina como, mesmo em um contexto de transição democrática, as escolas de samba continuaram a ser um espelho e um motor das aspirações sociais.

O impacto do trabalho acadêmico de Reduzino transcendeu as universidades, ganhando as telas com o documentário "Enredos da Liberdade", distribuído em cinco episódios no Globoplay. Essa adaptação permite que a profundidade da pesquisa alcance um público mais vasto, democratizando o acesso a uma história vital da cultura e política brasileiras. Além de sua atuação acadêmica, Reduzino contribui ativamente com a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro e com o Departamento Cultural da Mangueira, evidenciando seu compromisso prático com a cultura que estuda.

Conclusão: O Legado Político do Samba na Democracia

A pesquisa de Rodrigo Antonio Reduzino é um convite à reflexão e à reescrita de parte da história brasileira, revelando a complexidade e a força do samba-enredo como um veículo legítimo e potente de expressão política e resistência social. Ao desvendar as camadas de censura, racismo e as intrincadas relações de poder que permearam o carnaval, o sociólogo não apenas enaltece o papel das escolas de samba, mas também questiona as narrativas dominantes que historicamente marginalizaram as contribuições culturais de matriz africana.

O trabalho de Reduzino nos lembra que a luta pela democracia e pela liberdade foi travada em múltiplas frentes, muitas delas inesperadas e subestimadas. O samba-enredo, em sua exuberância e vitalidade, emerge não apenas como arte e festa, mas como um testemunho duradouro da capacidade de um povo de usar sua cultura para clamar por justiça e moldar o futuro.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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