O Instituto Nacional de Câncer (Inca) deu um passo significativo na promoção da saúde de mulheres negras com o lançamento da cartilha digital "Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer". A iniciativa representa um esforço pioneiro para integrar o conhecimento técnico-científico sobre a doença com os saberes e práticas das religiões de matriz africana, reconhecendo a importância do contexto cultural e social no acesso e adesão aos cuidados de saúde.
Disponível na internet, o material foi meticulosamente elaborado para dialogar diretamente com a vivência da mulher negra, abordando os tipos de câncer mais prevalentes neste grupo, a influência de hábitos diários na prevenção e, crucialmente, como o racismo e a discriminação religiosa atuam como barreiras ao diagnóstico e tratamento. A cartilha é fruto de uma colaboração entre pesquisadoras do Inca e comunidades de terreiros, garantindo uma abordagem culturalmente sensível e eficaz.
Prevenção Integrada: Saúde, Cultura e Conscientização
A cartilha "Saúde com Axé" adota uma linguagem acolhedora e visualmente rica, com ilustrações de mulheres e famílias negras e referências à mitologia iorubá. O conteúdo se estrutura em torno da educação sobre os principais cânceres femininos, como o de mama, de intestino e de colo de útero, destacando formas de prevenção – desde o poder da amamentação até a importância de hábitos saudáveis e a identificação de sinais de alerta. As figuras das yabás, orixás femininas, são apresentadas como inspiração para o autocuidado e a busca por uma vida plena.
Além de promover o conhecimento sobre exames periódicos e a detecção precoce como ferramentas essenciais no combate ao câncer, a cartilha detalha os procedimentos recomendados para cada fase da vida da mulher. Este guia completo é desenhado para empoderar as mulheres negras, fornecendo informações claras e contextualizadas que incentivam a proatividade em relação à própria saúde, alinhando a sabedoria ancestral com as diretrizes médicas atuais.
Enfrentando o Racismo e o Racismo Religioso na Saúde
Um dos pilares fundamentais da cartilha é a exploração das complexas formas como o racismo e o racismo religioso impactam a saúde das mulheres negras. O material desmistifica a ideia de que mulheres negras possuem maior tolerância à dor, um preconceito que historicamente dificulta o acesso a diagnósticos e tratamentos adequados. Ele também elucida como a discriminação pode afastar este público dos serviços de saúde, muitas vezes levando à negligência ou à busca tardia por atendimento.
Testemunhos de líderes religiosas que participaram da elaboração da cartilha, como Iyá Katiusca de Yemanjá, do terreiro Obá Labí, revelam as microagressões e o preconceito vivenciados em ambientes de saúde, como a desconsideração por nomes religiosos e a falta de respeito às indumentárias sagradas. Mãe Nilce de Iansã, coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), reforça que o racismo religioso é um determinante social de saúde, que transcende a genética e influencia diretamente as condições de vida e bem-estar das mulheres negras.
Terreiros: Espaços de Cuidado, Acolhimento e Prevenção
A cartilha é um dos resultados da pesquisa "Promoção da Saúde e Prevenção do Câncer em Mulheres Negras" (2023-2025), conduzida em parceria com mulheres dos terreiros Ilê Axé Obá Labí, em Pedra de Guaratiba (RJ), e Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê Adê Omi Arô, em Nova Iguaçu (RJ). Essa colaboração sublinha o reconhecimento do papel histórico dos terreiros como centros de promoção da saúde e bem-estar comunitário.
Iyá Katiusca de Yemanjá enfatiza que os terreiros sempre ofereceram práticas de saúde integral, como banhos de ervas, chás e um cuidado particular com a saúde íntima feminina, percebendo o corpo de forma holística. Tais espaços atuam como importantes redes de apoio, fortalecendo a comunidade e incentivando a busca por serviços de saúde, especialmente entre mulheres negras de periferia, que frequentemente enfrentam sobrecarga e menor acesso a cuidados. A iniciativa do Inca, ao dialogar com esses saberes ancestrais, busca construir pontes entre a medicina ocidental e as tradições afro-brasileiras, potencializando a prevenção e o acolhimento.
Em sua essência, a cartilha "Saúde com Axé" representa mais do que um guia informativo; é um convite ao diálogo, ao respeito e à valorização da identidade e dos saberes de mulheres negras. Ao unir a ciência da prevenção do câncer com a riqueza cultural e espiritual dos terreiros, o Inca não apenas oferece uma ferramenta de saúde, mas também contribui para a construção de um sistema de saúde mais equitativo, inclusivo e que realmente atenda às necessidades de toda a população brasileira.


