A Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), em Fortaleza, tornou-se palco, a partir desta quinta-feira (9), para o 2º Simpósio Cearense de Cannabis Medicinal. O evento, que se estendeu por dois dias, reuniu uma diversidade de atores, incluindo especialistas, pesquisadores, representantes governamentais e de entidades de classe, evidenciando o crescente interesse e a urgência do tema no cenário atual. Com todos os 300 ingressos gratuitos esgotados antecipadamente, o simpósio sublinhou a demanda por conhecimento e debate aprofundado sobre os avanços e desafios da cannabis para fins terapêuticos no estado.
Perspectivas Múltiplas e Eixos de Discussão
A programação do simpósio foi meticulosamente elaborada para abordar a complexidade da cannabis medicinal sob diversas óticas. As discussões do primeiro dia foram estruturadas em cinco eixos temáticos abrangentes, que cobriram desde as experiências e reivindicações de pacientes e associações até os aspectos práticos do cultivo da planta e as nuances do amparo jurídico necessário para sua utilização responsável. Uma atenção especial foi dedicada à integração da cannabis em práticas integrativas de saúde e seu uso milenar por povos originários, como os Kaxinawá (Huni Kuin), que compartilharam sua sabedoria ancestral e visão sobre a planta.
Aplicações Inovadoras e Desafios Regulatórios
Os painéis e palestras do evento aprofundaram-se em áreas de grande relevância para o futuro da cannabis medicinal no Brasil. Dentre os destaques, figuraram debates cruciais sobre a inclusão da cannabis no Sistema Único de Saúde (SUS), explorando os desafios legais e regulatórios que cercam essa expansão fundamental. A aplicação terapêutica em campos como a psiquiatria, o tratamento da dor crônica e distúrbios do sono também foi amplamente discutida, ressaltando o potencial transformador da planta na qualidade de vida dos pacientes. Outro tópico inovador foi a cannabis na medicina veterinária, abordando a ciência por trás do bem-estar animal e as perspectivas de inovação. Adicionalmente, o simpósio promoveu o diálogo sobre a jornada 'Da Terra ao SUS', contemplando a integração da cannabis em programas como as Farmácias Vivas e o papel da agricultura familiar na sua produção sustentável. Notavelmente, uma das palestras explorou as propriedades da cannabis no contexto da gestação, parto e pós-parto, com ênfase na atuação de parteiras tradicionais.
Legislação e Autismo em Pauta no Segundo Dia
A agenda do segundo dia, nesta sexta-feira (10), reservou espaços para temas igualmente estratégicos. Pela manhã, das 10h às 12h, foi realizada a roda de conversa 'Cannabis, Autismo e Ciência: o que já sabemos e para onde estamos caminhando?', promovendo um intercâmbio de conhecimentos sobre a relação entre a planta e o espectro autista. O período da tarde, a partir das 13h, foi dedicado a uma importante audiência pública. Realizada no auditório Murilo Aguiar da Casa legislativa cearense, a sessão focou no Projeto de Lei 1014/2023, uma proposta que visa instituir uma política estadual de cannabis para fins terapêuticos. Este PL ambiciona fomentar a pesquisa, capacitar a rede pública de saúde, incentivar associações de pacientes e garantir o acesso via SUS, mediante prescrição médica. A audiência foi transmitida ao vivo pelo canal da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará no YouTube, ampliando o alcance do debate para toda a população.
O 2º Simpósio Cearense de Cannabis Medicinal, contando com o apoio de instituições de prestígio como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Ceará, o Conselho Estadual de Saúde do Ceará (Cesau), a Universidade Federal do Ceará (UFC), o movimento Ceará Saúde Livre (CSL) e a Liamba 360º, reforça o compromisso do estado em promover um diálogo aberto e fundamentado cientificamente sobre a cannabis medicinal. O sucesso de público e a amplitude dos temas abordados sinalizam um passo significativo para a desmistificação, regulamentação e ampliação do acesso a tratamentos baseados na cannabis no Ceará, pavimentando o caminho para políticas públicas mais inclusivas e eficientes.

