O Brasil enfrenta uma crescente vulnerabilidade a fenômenos climáticos extremos, como o El Niño, em decorrência da significativa redução de sua vegetação nativa. Dados da Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, divulgados nesta quarta-feira (12), revelam que, ao longo de 41 anos, a área de vegetação nativa foi drasticamente reduzida, passando a ocupar apenas 65% do território nacional. Essa diminuição expõe o país a impactos mais severos do aquecimento da superfície equatorial do Oceano Pacífico, que intensifica eventos como secas e chuvas torrenciais na América do Sul.
A pesquisa, que mapeou o território nacional de 1985 a 2025 com base em 33 classes de cobertura e uso da terra, demonstra que as regiões onde as florestas permaneceram intactas foram substancialmente menos afetadas pelos eventos climáticos extremos associados ao El Niño. Esta edição do levantamento aprofundou a análise ao cruzar informações com a plataforma MapBiomas Atmosfera, que monitora o clima e a qualidade do ar, permitindo uma compreensão detalhada da interação entre a perda de vegetação e a intensificação dos fenômenos climáticos.
A Profunda Perda de Vegetação Nativa em Quatro Décadas
Entre 1985 e 2025, o Brasil perdeu uma parcela substancial de sua cobertura vegetal original. No início do período estudado, a vegetação nativa cobria 79% do território brasileiro, uma proporção que caiu para 65% nas projeções para 2025. Ao longo dessas quatro décadas, as formações florestais sofreram a maior perda absoluta, com uma redução de 65 milhões de hectares. As formações savânicas, por sua vez, registraram um declínio de 46 milhões de hectares, enquanto os campos alagados perderam 6,3 milhões de hectares.
Conforme o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, embora o volume de florestas perdidas seja maior, a perda proporcional mais acentuada foi observada nas formações savânicas, que viram 30% de sua área desaparecer nesse período. Apesar dessa transformação, 557 milhões de hectares do território mapeado mantiveram a mesma classe de cobertura ou uso da terra, sendo a maioria (335 milhões de hectares) composta por florestas que foram conservadas.
A Expansão da Agropecuária e seus Desafios Ambientais
A agropecuária emergiu como a atividade humana de maior expansão, ocupando crescentemente o território nacional. Em 1985, essa classe representava 18% do Brasil, mas a projeção para 2025 indica que ela já abrange 32% do país. O crescimento foi impulsionado principalmente pela pastagem, que se expandiu em 61,6 milhões de hectares, e pela agricultura, que aumentou sua área em 48 milhões de hectares ao longo do período analisado.
Essa expansão ocorreu predominantemente sobre áreas de vegetação nativa nos seis biomas brasileiros, embora de forma heterogênea. A Amazônia e o Cerrado foram os mais impactados em termos de área absoluta, perdendo 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. Outros biomas como Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal registraram perdas de 10,1; 4,9; 4 e 1,9 milhões de hectares, nessa ordem. Tasso Azevedo explica que a Mata Atlântica teve uma perda menor no período recente por já ter sido extensivamente desmatada no passado e, nos últimos 20 anos, tem apresentado estabilização e, em alguns locais, recuperação da vegetação nativa. Proporcionalmente, Cerrado e Pampa sofreram as maiores reduções, com 34% e 32% de perda de suas áreas originais.
El Niño e a Vulnerabilidade Climática Ampliada
A análise do MapBiomas Atmosfera revelou uma conexão direta entre a degradação da vegetação nativa e a intensificação dos efeitos do El Niño. Os pesquisadores focaram na ocorrência de extremos climáticos, como secas prolongadas e temporais severos, durante os trimestres de setembro a novembro nos anos de El Niño intenso (1997/98, 2015/16 e 2023/24). Ficou evidente que, nessas fases de maior intensidade do fenômeno, a maior parte dos biomas brasileiros foi afetada por secas e falta de chuva.
Curiosamente, o Pampa e parte da Mata Atlântica foram as exceções, onde se observou um aumento da precipitação durante os El Niños. De forma geral, as áreas onde a cobertura florestal foi mantida demonstraram maior resiliência, sofrendo menos os impactos adversos dos desequilíbrios climáticos gerados pelo El Niño, sublinhando o papel crucial da vegetação nativa como um escudo natural contra eventos extremos.
Impactos Regionais: Biomas e Estados sob Pressão
Efeitos por Bioma
A Amazônia se destacou como o bioma mais atingido pelo déficit de chuvas nos três eventos de El Niño estudados. No fenômeno mais recente, em 2023/2024, as áreas de agropecuária na região amazônica registraram os impactos mais severos, com uma redução de 178 milímetros de precipitação em comparação com a média histórica. O Pantanal, por sua vez, foi drasticamente afetado pelo último El Niño, resultando no ano mais seco de sua série histórica em 2024. No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a intensidade da seca se agravou a cada novo El Niño, sendo a vegetação nativa nesses biomas a mais impactada. No Pampa, as áreas de agropecuária também foram as mais afetadas, mas, diferentemente da Amazônia, o bioma sofreu com o excesso de chuvas, particularmente nos últimos dois eventos analisados.
O Cenário nos Estados Brasileiros
Em um recorte por unidades federativas, a nova coleção do MapBiomas aponta que, entre 1985 e 2025, 25 dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal registraram uma diminuição na participação da vegetação nativa em seus territórios. A única exceção notável foi o Rio de Janeiro, que conseguiu recuperar 1% de sua cobertura verde. Dentre os estados com as maiores perdas proporcionais de vegetação nativa ao longo dos 41 anos, destacam-se Rondônia, que viu sua cobertura nativa cair de 92% para 59%; o Maranhão, de 91% para 61%; e Mato Grosso, que também apresentou declínios significativos.
Conclusão: Urgência na Preservação para Resiliência Climática
Os dados do MapBiomas reforçam um alerta crucial: a contínua degradação da vegetação nativa no Brasil não só ameaça a biodiversidade e os ecossistemas, mas também amplifica a vulnerabilidade do país aos impactos cada vez mais frequentes e intensos de fenômenos climáticos globais como o El Niño. A relação direta entre a manutenção das florestas e a menor incidência de secas e extremos climáticos evidencia a necessidade urgente de políticas públicas robustas de conservação, restauração ecológica e uso sustentável da terra. Somente assim o Brasil poderá construir maior resiliência climática e proteger seus recursos naturais e populações dos desafios impostos pelas mudanças ambientais.

