Em um documento anual enviado ao Congresso norte-americano na última terça-feira (15), o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expressou críticas contundentes à atuação do governo brasileiro no enfrentamento às poderosas facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). O relatório, que identifica países estratégicos no trânsito e produção de drogas ilícitas para o ano fiscal de 2027 e oferece avaliações sobre diversos governos, destaca uma preocupação com o papel do Brasil no cenário global do narcotráfico.
A Perspectiva de Washington sobre o Brasil e o Narcotráfico
No documento, Trump afirmou que, enquanto muitos países do Hemisfério Ocidental adotaram "medidas corajosas" para mitigar o fluxo de drogas e desmantelar cartéis, o governo brasileiro "não conseguiu enfrentar" o PCC e o CV. Segundo o ex-mandatário, essas organizações, já designadas como terroristas pelos EUA, transformaram o Brasil em um "centro para os fluxos globais de cocaína". Ele enfatizou a visão de que esses grupos representam uma ameaça crescente à paz e à segurança mundial, cobrando que o governo brasileiro adote ações "agressivas" para desmantelá-las antes que seu alcance e poder se expandam ainda mais.
Histórico e Implicações da Designação de FTO para PCC e CV
A crítica de Trump reitera uma medida já adotada pelo governo dos EUA. Em 28 de maio, o Departamento de Estado americano designou oficialmente o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês), decisão que entrou em vigor em 5 de junho. Essa classificação foi fundamentada na seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos e em uma ordem executiva presidencial.
Na ocasião da designação, o então secretário de Estado, Marco Rubio, qualificou o PCC e o CV como as organizações criminosas mais violentas do Brasil, com redes que transcendem as fronteiras nacionais. A inclusão desses grupos na lista de FTOs confere às autoridades americanas um leque ampliado de instrumentos para aplicar sanções e adotar medidas coercitivas contra indivíduos e entidades que mantenham qualquer tipo de associação com essas facções. Contudo, o governo brasileiro, em resposta à designação, havia contestado a classificação, defendendo que o combate ao crime organizado fosse conduzido internamente, com apoio internacional, mas respeitando a soberania nacional.
Contrastes Regionais: Brasil Fora das Listas Negras Principais
Apesar da forte censura direcionada ao Brasil, o relatório de Trump faz distinções importantes. O país não foi classificado como uma nação que "falhou de maneira demonstrável" em cumprir suas obrigações internacionais de combate às drogas, conforme a legislação norte-americana. Essa categoria foi aplicada a países como Afeganistão, Bolívia, Birmânia, Colômbia e Venezuela, indicando uma nuance na avaliação de Washington sobre o desempenho do Brasil.
Adicionalmente, o Brasil também não figura entre os principais países de trânsito ou produção de drogas ilícitas, uma lista extensa que inclui nações de diversos continentes. Essa ausência destaca que, embora o Brasil seja visto como um centro de fluxo global de cocaína devido à atuação das facções, sua posição na cadeia de produção e trânsito é distinta daquelas classificadas como falhas demonstráveis ou principais polos de origem.
Elogios a Aliados e Novas Lideranças na América Latina
O relatório de Trump também reservou elogios a governos considerados mais próximos aos Estados Unidos, como Argentina, Equador e El Salvador. Além disso, o documento fez menções positivas a Venezuela, Bolívia, Colômbia e Peru, vinculando especificamente as recentes mudanças de governo nesses países a uma alteração na percepção quanto ao enfrentamento do narcotráfico. Essa abordagem contrasta nitidamente com as críticas proferidas ao Brasil e à Nicarágua, bem como a outras nações com alinhamento político menos favorável a Washington.
Exemplos notáveis incluem a Colômbia, onde Trump elogiou a eleição de Abelardo de la Espriella, destacando seu compromisso com uma campanha agressiva contra o cultivo de coca. Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz, eleito em 2025, foi apontado como o inaugurador de um "novo capítulo" nas relações bilaterais, com expansão da cooperação em segurança e combate às drogas. Similarmente, no Peru, a nova presidente Keiko Fujimori foi elogiada por seu compromisso em colaborar com os EUA e países aliados para reduzir o fluxo de cocaína. É relevante notar, contudo, que Peru, Colômbia, Equador e Venezuela, apesar dos elogios políticos, permanecem na relação de países importantes no trânsito ou na produção de drogas ilícitas, ressaltando a complexidade da geopolítica do narcotráfico na região.
Conclusão: Um Cenário Geopolítico Complexo e a Reação Brasileira
O relatório de Donald Trump ao Congresso norte-americano desenha um panorama multifacetado da política antidrogas dos EUA na América Latina. As críticas explícitas ao Brasil sobre o manejo de facções como PCC e CV, em contraste com a ausência do país em listas de "falha demonstrável" ou grandes produtores/traficantes, revelam uma avaliação com nuances. Embora Washington veja o Brasil como um ponto crucial no escoamento de cocaína, a diplomacia brasileira mantém sua posição de que o combate às organizações criminosas deve ser liderado nacionalmente, com cooperação internacional que respeite sua soberania. A distinção entre alinhamento político e a realidade do combate ao narcotráfico em alguns países aliados sublinha a complexidade das relações internacionais e da luta contra o crime transnacional na região.

