A era da hiperglobalização, caracterizada por cadeias de produção otimizadas para o menor custo e máxima eficiência, parece estar chegando ao seu ocaso. Essa é a avaliação do renomado escritor e economista Eduardo Giannetti, que aponta para uma série de eventos recentes – desde a desestabilização de rotas comerciais vitais como o Estreito de Ormuz até as crescentes guerras tarifárias – como sinais inequívocos de uma profunda transformação na ordem econômica mundial. Em uma entrevista que detalha esse cenário complexo, Giannetti explora as raízes e as consequências dessa mudança, que promete redefinir o comércio, a geopolítica e as estruturas sociais.
Fragilidade das Cadeias Globais e a Busca por Segurança
O modelo de produção global que predominou por décadas, focado na concentração de fornecedores para otimizar custos, revela agora sua inerente vulnerabilidade. Giannetti destaca que, para 180 produtos críticos que sustentam as cadeias globais, o mundo depende de apenas dois ou três fornecedores. Um exemplo marcante é Taiwan, responsável por impressionantes 90% da produção dos chips mais avançados. Essa centralização excessiva, antes vista como virtude da eficiência, transformou-se em um risco estratégico. A partir dessa constatação, observa-se uma reorientação global em direção à diversificação e à segurança das fontes, abandonando a antiga lógica fria da hiperglobalização em prol de uma maior resiliência econômica e logística.
Hiperfinanceirização: O Descolamento da Economia Real
A crise da hiperglobalização, segundo Giannetti, não pode ser compreendida sem uma análise de eventos históricos como a crise financeira de 2008 e a pandemia de COVID-19. Estes episódios expuseram as fissuras de um sistema que se tornou excessivamente financeirizado. O economista ilustra essa realidade com um dado impressionante: se no início da hiperglobalização havia uma paridade entre ativos financeiros e o Produto Interno Bruto (PIB) global, hoje essa proporção disparou para algo entre 9 a 12 dólares de ativo financeiro para cada dólar de PIB. Esse descolamento é ainda mais evidente ao observar que grande parte da valorização recente do mercado de ações americano, estimada em 2 trilhões de dólares entre 2022 e 2026, está concentrada em apenas dez empresas ligadas à tecnologia da informação e inteligência artificial, sinalizando uma concentração de valor em setores específicos e uma economia cada vez mais dominada por capitais especulativos.
Impacto Social e a Ascensão de Movimentos Populistas
Um dos fenômenos mais impactantes da hiperglobalização foi a integração de centenas de milhões de trabalhadores asiáticos – da China, Índia, Vietnã e Indonésia – ao mercado de trabalho e consumo global. Antes à margem da economia mundial, essas populações rurais se urbanizaram rapidamente e encontraram empregos, impulsionando um crescimento econômico sem precedentes em seus países. Giannetti reconhece que a China, por exemplo, hoje responsável por um terço da produção industrial mundial, viu centenas de milhões de seus cidadãos saírem da miséria. No entanto, para a classe trabalhadora ocidental, esse processo foi devastador. A concorrência por mão de obra global tolheu o poder de negociação e a capacidade de afirmação de direitos, gerando um profundo ressentimento. Essa perda de segurança e poder de barganha é apontada como um fator de primeira ordem para a crescente instabilidade social e política, alimentando a ascensão da extrema direita populista e nacionalista em diversos países, um fenômeno com ecos dos anos 30 do século XX.
O Trunfo do Brasil no Novo Cenário Global
Para Giannetti, o fim da hiperglobalização representa uma oportunidade histórica para o Brasil se reinventar e se posicionar estrategicamente. Em um mundo que agora busca segurança e diversificação de suprimentos, o país possui uma dotação invejável de recursos naturais, amenidades ambientais, fontes de energia, matérias-primas e minerais críticos, que serão dramaticamente necessários. A biodiversidade brasileira é destacada como um trunfo incomparável, capaz de atender à demanda crescente por alimentos e terras raras. A chave, contudo, é ir além da mera exportação de bens primários in natura. O economista enfatiza a necessidade de industrializar essas vantagens comparativas, agregando valor aos produtos para evitar um caminho limitado. A disputa entre potências pelo acesso a esses recursos confere ao Brasil uma posição privilegiada para negociar termos mais favoráveis e maximizar seus benefícios no cenário internacional.
A Crise Civilizatória e o Imperativo Climático
Além das transformações econômicas, Giannetti sublinha que a humanidade atravessa uma crise civilizatória multifacetada. Dentre os desafios, as mudanças climáticas emergem como a maior ameaça à espécie humana no século XXI. Apesar do crescente negacionismo, o economista é categórico: é reconfortante ignorar o problema, mas a realidade climática não ignorará a humanidade. A frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos tornam essa questão incontornável. Giannetti conclui que enfrentar as mudanças climáticas exigirá uma abordagem dupla, com um forte foco em medidas preventivas para mitigar seus efeitos devastadores e garantir um futuro sustentável.


