A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de farmacovigilância, intensificando a atenção sobre os riscos associados ao uso inadequado de medicamentos agonistas do receptor GLP-1. Popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, esses fármacos, embora eficazes quando bem indicados, têm demonstrado um aumento nas notificações de eventos adversos graves, com destaque para a pancreatite aguda, tanto no cenário nacional quanto internacional.
O Contexto do Alerta e os Agonistas GLP-1
A Anvisa destaca que medicamentos como dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida, que compõem o grupo dos agonistas do receptor GLP-1, são aprovados para indicações específicas e seu uso deve ser estritamente conforme a bula, sob prescrição e acompanhamento de um profissional de saúde habilitado. O recente alerta surge como um reforço às orientações de segurança já existentes, motivado pelo volume crescente de relatos sobre reações adversas, mesmo que o risco já conste nas informações dos produtos.
Esta movimentação da agência reguladora brasileira alinha-se com iniciativas internacionais. No início do mês, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) do Reino Unido também emitiu uma advertência sobre o risco, ainda que considerado pequeno, de casos de pancreatite aguda grave em pacientes que utilizam esses medicamentos.
Pancreatite Aguda: Um Risco Latente
O principal foco do alerta da Anvisa é o risco de pancreatite aguda, uma condição inflamatória grave do pâncreas que pode evoluir para formas necrotizantes e, em situações extremas, ser fatal. A agência enfatiza que, apesar da gravidade potencial desse evento adverso, a avaliação da relação risco-benefício dessas substâncias permanece favorável, desde que utilizadas conforme as indicações terapêuticas aprovadas e os modos de uso descritos em bula.
A vigilância médica é, portanto, crucial para identificar precocemente quaisquer sinais de alerta e garantir a segurança do paciente. O uso indiscriminado e fora das indicações autorizadas, particularmente para fins de emagrecimento sem necessidade clínica comprovada, aumenta substancialmente a probabilidade de ocorrência de efeitos adversos e complica a identificação precoce de complicações sérias.
Medidas Regulatórias e o Cenário de Notificações
Em resposta ao cenário de uso inadequado e ao aumento das notificações, a Anvisa implementou medidas mais rigorosas de controle. Desde junho de 2025, a venda desses medicamentos passou a exigir a retenção da receita médica na farmácia, à semelhança do que ocorre com antibióticos. A prescrição deve ser feita em duas vias, e a validade da receita é de 90 dias a partir da data de emissão.
Essa decisão teve como objetivo proteger a saúde pública, dada a constatação de um número elevado de eventos adversos relacionados ao uso dos agonistas GLP-1 fora das indicações aprovadas. Dados da Anvisa revelam que, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos no país, incluindo seis casos com desfecho de óbito.
Orientações Essenciais para Usuários e Profissionais de Saúde
A Anvisa oferece diretrizes claras para usuários e profissionais de saúde. Pacientes que fazem uso de “canetas emagrecedoras” devem procurar atendimento médico imediato se apresentarem dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos, pois esses são sintomas sugestivos de pancreatite.
Para os profissionais de saúde, a recomendação é interromper o tratamento caso haja suspeita de pancreatite e não reiniciá-lo se o diagnóstico for confirmado. A agência também reitera a importância de notificar qualquer evento adverso no sistema VigiMed, ferramenta crucial para o monitoramento contínuo da segurança de medicamentos e vacinas no Brasil, especialmente para esses produtos que estão há pouco mais de cinco anos no mercado nacional.
Histórico de Advertências e Vigilância Contínua
A vigilância da Anvisa sobre os agonistas do receptor GLP-1 não é recente. Ao longo dos últimos anos, a agência já havia emitido outros alertas relevantes. Em 2024, por exemplo, foram destacadas as precauções quanto a riscos de aspiração durante procedimentos anestésicos. Já em 2025, um alerta abordou a perda de visão rara associada à semaglutida, demonstrando o compromisso contínuo da agência com a segurança farmacológica.
Essas ações reiteram a postura proativa da Anvisa em monitorar os medicamentos disponíveis no mercado, garantindo que os benefícios terapêuticos não sejam ofuscados por riscos evitáveis, especialmente quando o uso foge das indicações e supervisão adequadas.


