A disputa pelo título na Série Ouro do carnaval carioca em 2026 promete ser uma das mais acirradas e emocionantes dos últimos tempos. O antigo grupo de acesso, agora revitalizado, abrigará um total de quinze escolas de samba, com desfiles distribuídos entre a sexta-feira e o sábado de folia. Todas as agremiações buscam o almejado retorno ou ascensão ao Grupo Especial, em um embate que mescla a paixão pelo samba com a força da tradição e a ambição por um lugar na elite do carnaval.
O Palco da Tradição e da Ambição
A Série Ouro de 2026 reunirá um elenco de peso, incluindo escolas que carregam em sua história a glória de grandes vitórias no Grupo Principal. Agremiações renomadas como o Império Serrano, tricampeão do carnaval carioca em 1960, 1972 e 1982, e a Estácio de Sá, vencedora em 1992, reforçam a grandiosidade da competição. Essas escolas não almejam apenas um lugar na elite; elas buscam reafirmar seus legados e a força de suas comunidades, prometendo performances que combinam a rica experiência de outrora com a inovação necessária para os dias atuais. A presença de tantos nomes ilustres eleva o nível da disputa, transformando cada desfile em uma verdadeira batalha por pontos preciosos e pelo reconhecimento.
Unidos de Padre Miguel: Em Busca de Reparação e Ascensão
Entre os fortes concorrentes, a Unidos de Padre Miguel (UPM) surge com um ímpeto particular. Após um breve período no Grupo Especial em 2025, a escola foi rebaixada e retorna à Série Ouro com o objetivo claro de reconquistar seu lugar na elite. A agremiação da Zona Oeste do Rio carrega consigo um sentimento de injustiça em relação ao julgamento que culminou em seu rebaixamento. A UPM contestou publicamente a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) sobre a avaliação de seu samba-enredo – que teve pontos descontados por supostos termos em iorubá considerados não explicativos por uma jurada – e também por falhas técnicas no som da avenida. Essa motivação por uma espécie de 'reparação' promete impulsionar a escola com ainda mais força em sua busca pelo título e o retorno ao Grupo Especial.
A Epopeia de Clara Camarão na Sapucaí
Para a disputa de 2026, a Unidos de Padre Miguel levará para a Sapucaí o enredo "Kunhã-Eté – O sopro sagrado da Jurema". O tema é uma poderosa exaltação à espiritualidade dos povos originários e, em particular, à trajetória da guerreira indígena potiguara Clara Camarão. A escola narrará a resistência de Clara à invasão holandesa no Século XVII, transformando sua história em um símbolo de coragem e liderança feminina ancestral. O carnavalesco Lucas Milato destaca a relevância do enredo, que valoriza o protagonismo das mulheres, refletindo, inclusive, a própria estrutura de liderança da escola, que conta com figuras femininas em posições estratégicas, como a presidente Lara Mara.
Um Desfile Manifesto Contra o Apagamento Histórico
Ao conceber o enredo, Lucas Milato encontrou em Clara Camarão a personificação ideal da força feminina que desejava "gritar no maior palco da Terra". O carnavalesco enfatiza que a mensagem principal do desfile é um combate direto ao apagamento histórico das mulheres, um problema que se manifesta na escassez de registros sobre a vida de Clara após a morte de seu marido. A Unidos de Padre Miguel pretende desconstruir a ideia de que o protagonismo feminino é algo novo, mostrando que ele sempre existiu, mas foi muitas vezes silenciado. A narrativa se entrelaça com o simbolismo da Jurema Sagrada, a árvore mística dos Potiguaras, conectando a história real à tradição oral e ao sagrado. A estrutura do desfile, com 22 alas e três alegorias, promete narrar desde a ancestralidade indígena e o comando do exército feminino até a apoteose espiritual de Clara como uma entidade de luz. Milato projeta um espetáculo com um padrão visual rigoroso, mas cujo "caráter de manifesto" e a "verdade da escola" serão o maior trunfo, gerando um impacto visual e emocional profundo ao misturar o barroco das batalhas com o verde místico da Jurema, resultando em um desfile "com alma, com crítica e, acima de tudo, com a dignidade que a história de Clara Camarão exige".
Estácio de Sá e a Permanência da Tradição na Disputa
Enquanto a Unidos de Padre Miguel busca a redenção, outra agremiação de peso, a Estácio de Sá, igualmente almeja o retorno ao Grupo Especial. Vencedora do carnaval em 1992, a escola com uma das mais ricas histórias do samba carioca prepara-se para a Marquês de Sapucaí com o enredo "Tatá Tancredo: o Papa Negro no terreiro do E…". O tema promete mergulhar em suas raízes e na riqueza da cultura afro-brasileira, honrando sua tradição de ser berço do samba. A Estácio trará para a avenida a essência de sua comunidade, com a expectativa de encantar os jurados e o público, reafirmando seu lugar de destaque no cenário carnavalesco e sua legítima pretensão de ascender à elite.
A Série Ouro de 2026 se desenha, portanto, como uma das competições mais emocionantes dos últimos tempos, onde a paixão pelo samba se une à busca por justiça e reconhecimento histórico. As escolas que desfilarão, sejam elas ex-campeãs ou agremiações em ascensão, prometem um espetáculo grandioso, repleto de enredos cativantes e performances memoráveis. O desafio de retornar ao Grupo Especial mobiliza comunidades inteiras, transformando a Marquês de Sapucaí em um palco de sonhos, resiliência e a efervescência cultural que só o carnaval do Rio de Janeiro pode oferecer. A batalha pelo título será, sem dúvida, um tributo à rica história e à vitalidade contínua do samba.


