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Bloco Mulheres Rodadas: Carnaval como Palco e Grito Urgente Contra a Violência de Gênero

Dinael Monteiro
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© Tomaz Silva/Agência Brasil

O Bloco Mulheres Rodadas retornou às ruas da zona sul do Rio de Janeiro, transformando o carnaval em um poderoso manifesto contra a violência de gênero. Desde sua fundação, o coletivo utiliza a arte e a folia para conscientizar sobre assédio, violência doméstica e feminicídio, temas que, infelizmente, permanecem dolorosamente atuais no Brasil e no mundo. A iniciativa se destaca por abordar, de forma contundente, uma das pautas mais urgentes da sociedade contemporânea.

A Expressão Artística em Defesa da Vida

A pernalta e acrobata Luciana Peres, de 46 anos, ilustrou a urgência da pauta com sua fantasia impactante. Sua pintura corporal de marca de tiro e lantejoulas prateadas, simbolizando eletrochoques na perna de pau, foram uma clara alusão às tentativas de assassinato sofridas pela farmacêutica Maria da Penha Fernandes em 1983. A história de Maria da Penha, que deu nome à emblemática lei federal de 2006, ressoa na reflexão de Luciana sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha em 2026, contrastando com o alarmante recorde de feminicídios, como os 1.518 casos registrados no Brasil em 2023, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

"Eu não consegui pensar em outro assunto que não fosse a luta pela vida das mulheres", revelou a artista e produtora cultural, enfatizando a necessidade premente de políticas públicas robustas para reverter essa estatística trágica. Sua fala sublinha a urgência de ações governamentais e sociais que garantam a segurança e a dignidade feminina, para que a triste realidade de mulheres perdendo a vida diariamente seja finalmente superada.

Performances Que Ecoam a Luta e a Solidariedade

Desde 2015, o Mulheres Rodadas tem se dedicado a discutir e dramatizar a violência contra a mulher por meio de fantasias elaboradas, placas com mensagens impactantes e performances artísticas que engajam o público de forma visceral. O carnaval, tradicionalmente um período de festa e extravasamento, é transformado em um espaço potente de denúncia, educação e conscientização social.

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Um dos momentos mais marcantes do desfile é a performance ao som de "Geni e o Zepelim", de Chico Buarque. As pernaltas simulam agressões com tintas vermelhas e acrobacias, estendendo a crítica à violência transfóbica – uma chaga que também posiciona o Brasil entre os países com mais assassinatos de transexuais. Em contraste, outras encenações ao longo do desfile destacam a força da união feminina, com pernaltas puxando umas às outras do chão, simbolizando a sororidade essencial na superação dos desafios e a importância do apoio mútuo entre as mulheres.

A Trilha Sonora da Resistência Feminina

A lista de músicas executadas pelas ritmistas do bloco é cuidadosamente selecionada para amplificar a mensagem de força e resistência feminina. Simone Ferreira, regente e coordenadora de percussão, explica que a escolha recai sobre "intérpretes e compositoras mulheres ou músicas que exaltam a condição feminina", sempre buscando a perfeita sincronia com as performances das pernaltas, criando uma narrativa musical e visual coesa e impactante.

O repertório é um mosaico que vai de clássicos nacionais a sucessos internacionais, refletindo a universalidade da luta. Inclui marchinhas icônicas como "Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga, canções empoderadoras como "Vai, Malandra", de Anitta, "Ama Sofre e Chora", de Pabllo Vittar, "Tieta", de Luiz Caldas, e "Vermelho", de Fafá de Belém. A dimensão global da causa é reforçada com hinos como "Toxic", de Britney Spears, e "Girls Just Want Have Fun", de Cyndi Lauper, que atravessam gerações e culturas com mensagens de liberdade e autoafirmação.

Um Grito Que Ultrapassa Fronteiras

A relevância do Bloco Mulheres Rodadas transcendeu as fronteiras nacionais, atraindo artistas e turistas estrangeiras este ano. A pernalta francesa Lucie Cayrol, de Toulouse, aproveitou a ocasião para prestar homenagem à advogada franco-tunisiana Gisèle Halimi, figura fundamental na despenalização do aborto na França em 1975. Seu gesto destacou a importância de líderes feministas que moldaram a legislação e a sociedade em prol dos direitos das mulheres.

Contudo, mesmo com avanços legislativos em diversos países, a França, assim como o Brasil, ainda luta contra a violência doméstica. Cayrol trouxe à tona o chocante caso de Gisèle Pelicot, que recentemente lançou um livro de memórias detalhando uma década de abusos. Pelicot foi dopada por seu ex-marido, que convidou mais de 50 homens para estuprá-la, culminando na condenação do agressor pela Justiça francesa em 2024. Este testemunho internacional reforça a universalidade da pauta do bloco, mostrando que a violência de gênero é um problema que afeta mulheres em todo o mundo, independentemente de suas realidades sociais ou avanços legais.

A Persistência da Luta e o Apelo à Sociedade

Renata Rodrigues, jornalista e coordenadora do Bloco Mulheres Rodadas, ressalta que, após uma década de fundação, a problemática da violência contra a mulher não só persiste como se mostra cada vez mais complexa. O bloco se destaca como "um dos poucos coletivos, no Rio, que discute a violência contra a mulher no carnaval", tornando-se uma voz singular e corajosa em meio à folia, que tradicionalmente celebra outros temas. A permanência da pauta reforça a necessidade contínua de debates e ações concretas.

Diante da persistência do problema, Renata reitera o apelo por apoio tanto do poder público quanto da iniciativa privada, para que a mensagem do bloco possa ser amplificada e alcançar um número ainda maior de pessoas. A mensagem, que chega indiscriminadamente a todos os foliões, foi ecoada por Raul Santiago. Ele sublinhou a responsabilidade crucial dos homens na erradicação da violência: "Os homens precisam estar junto, precisam mudar a atitude e a forma de pensar, ser antimachista, entender os lugares sociais e defender a igualdade". A luta do Mulheres Rodadas é, portanto, um convite à reflexão e à ação coletiva, transformando a alegria e a energia do carnaval em um motor de transformação social urgente e indispensável.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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