O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), anunciou um marco histórico para a cultura brasileira: o reconhecimento do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural do Brasil. Esta importante decisão garante sua inscrição no Livro de Registro das Formas de Expressão, consolidando o valor de uma manifestação artística que se manifesta por todo o país, caracterizada por sua natureza itinerante e pela organização em núcleos familiares.
A Força da Tradição Familiar na Cultura Brasileira
O Iphan descreve o Circo de Tradição Familiar como um modelo de transmissão oral de saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convivência, passados entre gerações. Segundo o conselho consultivo, que votou unanimemente a favor do registro, esta manifestação cultural possui relevância nacional inegável, não apenas pela capacidade de promover espetáculos cativantes, mas também pelas práticas lúdicas que fomenta e pela rica memória social que preserva. Sua essência reside na perpetuação de conhecimentos e da própria vida circense dentro do contexto familiar, adaptando-se e resistindo ao longo do tempo.
Uma Luta de Décadas por Reconhecimento
A decisão, formalizada em reunião no Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro, é o resultado de uma batalha incansável liderada por famílias que mantêm viva essa tradição. O Circo de Tradição Familiar Zanchettini, fundado em 1991 no Paraná, foi o grande protagonista desse processo. A matriarca Wanda Cabral Zanchettin dedicou mais de 30 anos de sua vida a essa causa, encabeçando a luta pelo reconhecimento da categoria desde 1993. O pedido oficial de registro foi protocolado por ela no Iphan em 2005, mobilizando inúmeras famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas. Tragicamente, o tão esperado status de patrimônio cultural chegou após sua morte, em 2017.
O Legado de Wanda Cabral e a Saga Zanchettini
A história do Circo Zanchettini e sua conexão com a tradição familiar remonta a 1949, quando Wanda Cabral, aos 18 anos, já atuava no circo de ciganos Irmãos Marques. Foi nesse ano que conheceu o italiano Primo Júlio Zanchettin, com quem se casou. Juntos, e com o apoio dos parentes de Wanda, fundaram o Circo Teatro Gávea. Após o falecimento de Primo em 1991, Wanda renomeou a companhia para Zanchettini, em homenagem ao marido. Os dez filhos do casal, cinco mulheres e cinco homens, cresceram imersos nessa cultura, aprendendo as artes circenses diretamente de seus pais, que lhes transmitiram todas as técnicas e o amor por essa vida.
Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, filha de Wanda e herdeira da tradição, reforça o protagonismo de sua família na conquista. Ela descreve o reconhecimento como um “Oscar para o circo brasileiro”, um triunfo para todos, apesar da tristeza de sua mãe não ter presenciado o momento. A vida circense, embora árdua, sempre foi permeada pela união e felicidade familiar, conforme Erimeide Maria, outra filha de Wanda, que, como trapezista, cantora, acrobata e atriz, vivenciou a paixão pelo picadeiro desde criança.
A Continuidade da Arte Circense de Geração em Geração
A renovação dentro do circo familiar Zanchettini é uma constante, com a geração mais nova já atuando no elenco e garantindo a continuidade da tradição. Os valores, a história e as nuances da arte circense, juntamente com seu linguajar próprio e sabedoria inerente, são repassados com esmero. Os jovens membros da família não apenas mantêm o legado, mas também constroem suas carreiras profissionais no circo, demonstrando a vitalidade e a paixão que impulsionam essa forma de expressão. Um exemplo da expansão dessa tradição é um dos sobrinhos, que, embora tenha saído do Circo Zanchettini, continuou sua jornada como artista circense em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, evidenciando a universalidade e a resiliência da arte que herdou.
Este reconhecimento histórico não apenas celebra o passado e o presente do Circo de Tradição Familiar, mas também assegura um futuro para esta forma de arte, protegendo-o e promovendo-o como um tesouro vivo da identidade cultural do Brasil. É um tributo à persistência, à união familiar e à magia atemporal que o circo representa para milhões de brasileiros.


