Em um cenário tropical do Rio de Janeiro de 1970, o empresário suíço Anton Von Salis, então presidente da Câmara de Comércio Suíço Brasileira (Swisscam), proferiu uma declaração que, vista sob a ótica atual, revela o lado pragmático e controverso da 'neutralidade' suíça durante a ditadura militar brasileira. Von Salis justificou os salários consideravelmente mais baixos pagos aos trabalhadores no Brasil em comparação com a Europa, alegando que 'As necessidades são totalmente diferentes. Aqui não faz frio. E eles têm casas. Podem ser casas relativamente simples, mas suficientes para a natureza do país'. Essa perspectiva, capturada em uma entrevista à emissora pública suíça RTS, evidencia como o golpe militar de 1964 foi percebido por parte do capital estrangeiro como uma oportunidade de estabilidade política e, consequentemente, de mão de obra barata e lucros ampliados.
A Justificativa Econômica para Salários Reduzidos
A fala de Anton Von Salis refletia uma mentalidade empresarial que encontrou no regime autoritário brasileiro um ambiente propício. Para ele e para muitos investidores suíços, os 21 anos de ditadura militar garantiram não apenas uma suposta estabilidade política, mas também um caminho desimpedido para o capital estrangeiro, com a supressão de direitos trabalhistas e a neutralização de movimentos sociais. O regime militar implementou políticas que desarticularam sindicatos, impediram greves e silenciaram reivindicações, criando um 'clima de paz social' que era visto como altamente vantajoso para os negócios.
Essa conjuntura permitiu às empresas operarem com custos muito mais baixos do que em seus países de origem. O argumento de que as 'necessidades' dos trabalhadores brasileiros eram menores servia para legitimar a exploração da mão de obra em um contexto de repressão e ausência de mecanismos de negociação coletiva efetivos.
O Lucro Direto da Repressão Trabalhista
Uma pesquisa minuciosa de Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, na Suíça, lançou luz sobre o quão lucrativo foi para as multinacionais suíças se beneficiarem da política salarial da ditadura. Sua análise, que deu origem ao livro 'Don’t Miss The Bus', comparou os salários pagos pelas 14 maiores empresas suíças no Brasil em 1971. Os dados são reveladores: um trabalhador sem qualificação no Brasil recebia apenas um quinto do que um operário suíço na mesma função. Mesmo para mão de obra profissionalizada, a diferença era expressiva, com salários brasileiros correspondendo a pouco mais da metade (57%) dos suíços.
Gabriella Lima detalha que as vantagens para o capital suíço iam além da mão de obra barata. As empresas gozavam de dez anos de isenção de impostos após sua instalação no Brasil e não pagavam impostos sobre a remessa de lucros. Esse conjunto de benefícios fiscais, somado ao enfraquecimento dos movimentos operários e estudantis, a criminalização da oposição e dos sindicatos, criava um cenário de 'confiança' no parceiro brasileiro para os investidores.
Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, complementa essa análise ao apontar que a política de valorização do salário mínimo foi um dos fatores que impulsionaram o golpe de 64. Uma das primeiras ações dos militares foi justamente alterar a política de reajuste salarial, desvinculando o mínimo da inflação. Essa medida resultou na rápida perda de cerca de 50% do poder de compra do salário mínimo em apenas um ou dois anos, consolidando o achatamento salarial que tanto interessava às empresas.
Os cálculos de Lima quantificam o impacto financeiro desse cenário. Somente em 1971, as 14 maiores multinacionais suíças no Brasil teriam faturado cerca de 80 milhões de francos suíços, provenientes diretamente do baixo custo da mão de obra da classe operária brasileira.
Suíça: O Investidor Proporcionalmente Mais Expressivo na Era Militar
A política de salários reprimidos e a estabilidade imposta pela ditadura incentivaram substancialmente o capital suíço. Entre 1964 e o final da década de 1970, a Suíça figurou consistentemente entre os quatro maiores investidores no Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha, e alternando o terceiro lugar com o Japão.
No entanto, quando avaliado proporcionalmente à sua população (que girava em torno de 7 milhões nos anos 1970), o investimento suíço se destacou como o maior de todo o período. Com uma média de 187,8 dólares per capita, esse montante superava em oito vezes o investimento per capita da Alemanha, o segundo maior parceiro comercial do Brasil na época, e era maior do que a soma dos outros nove maiores investidores juntos, em termos per capita.
O Investimento Estrangeiro Direto (IED) suíço no Brasil experimentou um crescimento exponencial. Em 1973, o IED suíço atingiu 1,1 bilhão de francos suíços, quase três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro naquele período. Apenas quatro anos depois, em 1977, esse valor mais que dobrou, alcançando 2,3 bilhões de francos suíços, demonstrando a confiança e o apetite por lucro no mercado brasileiro. As empresas suíças atuavam em diversos setores cruciais da economia, incluindo alimentação, metalurgia, petroquímica, laboratórios farmacêuticos e o influente sistema financeiro, representado pelos famosos bancos suíços.
Conclusão: O Custo Humano do 'Ambiente de Negócios'
A análise revela um capítulo complexo da história econômica do Brasil, onde a 'neutralidade' suíça, muitas vezes associada à diplomacia, assumiu uma faceta de apoio econômico a um regime autoritário. O capital suíço não apenas se beneficiou das condições criadas pela ditadura militar, mas também contribuiu para a sustentação de um modelo que prosperava à custa dos direitos trabalhistas e das liberdades civis. A prosperidade empresarial suíça no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970 foi intrinsecamente ligada a um sistema que garantiu a 'estabilidade' por meio da opressão, prisões arbitrárias e torturas – denúncias que o próprio Anton Von Salis minimizou quando questionado na época. Essa intersecção entre lucro e repressão sublinha a importância de uma análise crítica sobre as relações econômicas internacionais, especialmente em períodos de exceção democrática.


