A encenação da Paixão de Cristo no Morro da Capelinha, em Planaltina, Distrito Federal, é um dos mais impactantes e tradicionais eventos religiosos do Brasil. Definida por seu coordenador-geral, Preto Rezende, como um espetáculo de realismo, emoção e fé, a celebração atrai anualmente dezenas de milhares de fiéis e espectadores. Com sua 53ª edição prevista para 2026, a Via Sacra já é um marco no calendário do DF, prometendo reunir cerca de 100 mil pessoas para testemunhar a jornada de Jesus Cristo.
Uma Tradição Enraizada na Fé e na Comunidade
A história da Via Sacra do Morro da Capelinha começou em 1973, inspirada por um sonho do Padre Aleixo Susin, que vislumbrou jovens encenando a Paixão de Cristo no local. Desde então, o projeto cresceu exponencialmente, impulsionado pelo esforço de mais de 1.400 voluntários. A maioria desses colaboradores é de Planaltina, dedicando seu tempo e talento para dar vida ao espetáculo. Essa base comunitária é o pilar da encenação, que busca retratar os eventos bíblicos com um realismo comovente, capaz de tocar profundamente o público presente.
A Jornada da Paixão: Etapas e Simbolismo
O dia da encenação, na Sexta-feira da Paixão, é marcado por uma intensa manifestação de devoção. Logo cedo, milhares de fiéis chegam ao morro para acender velas e cumprir promessas, muitos deles percorrendo os 900 metros da subida de joelhos. A programação religiosa inclui, às 15h, a Missa da Celebração da Cruz, conduzida pelo Arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa. Em seguida, às 16h, inicia-se a grandiosa encenação. Os voluntários reencenam as catorze estações dolorosas da Via Sacra, desde a condenação de Jesus na cidade, sua prisão, julgamento, flagelação, até a crucificação. Para além do sofrimento, o espetáculo culmina na 15ª estação, a Gloriosa, que celebra a ressurreição, transmitindo uma mensagem de esperança e fé ao público.
Legado e Perpetuação: Da Criança ao Adulto
Buscando assegurar a continuidade e a renovação desta tradição, a companhia da Via Sacra inovou em 1994 com a criação da Via Sacra da Criança. Este evento, realizado no sábado que antecede o Domingo de Ramos, permite que as novas gerações se envolvam e compreendam a importância da Paixão de Cristo desde cedo. Um exemplo notável de sucesso é Rafael Gonçalves, o atual intérprete de Cristo no Morro da Capelinha, que é um "fruto" dessa iniciativa. Essa preparação precoce garante que os jovens cheguem à Via Sacra dos adultos com uma base sólida e um entendimento profundo dos papéis, facilitando a transição e a perpetuação do legado cultural e religioso.
Reconhecimento Oficial e Alcance Nacional
A magnitude e a relevância cultural da Via Sacra do Morro da Capelinha foram oficialmente reconhecidas em 2008, quando o evento foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal. Além disso, existe um projeto de lei do senador Izalci Lucas (PL-DF) que visa elevá-lo ao status de manifestação da cultura nacional. Integrante do calendário oficial de eventos do DF, a encenação conta com o apoio do governo local. Sua projeção não se limita ao público presencial; a transmissão ao vivo pelo canal "Grupo Via Sacra Ao Vivo" no YouTube permite que a emoção e a mensagem de fé alcancem espectadores em todo o país e no mundo, ampliando seu impacto e sua visibilidade.
A Via Sacra do Morro da Capelinha transcende a mera encenação; é um fenômeno cultural e religioso que ano após ano reafirma a fé, o talento comunitário e a capacidade de Planaltina em manter viva uma das mais belas e significativas tradições da Semana Santa. Sua história, evolução e o profundo envolvimento de milhares de pessoas garantem que esta jornada de fé continue a inspirar e emocionar por muitas edições futuras.


