Neste domingo, 17 de março, diversas cidades brasileiras se uniram em uma mobilização nacional para lançar luz sobre a fibromialgia, uma síndrome crônica complexa e muitas vezes invisível. A iniciativa teve como principal objetivo conscientizar a sociedade sobre a natureza da condição e, fundamentalmente, pressionar por ações concretas que garantam os direitos e o tratamento adequado dos pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS).
Fibromialgia: A Complexidade de Uma Dor Oculta
A fibromialgia é uma síndrome caracterizada por dores musculares e articulares difusas e persistentes em diversas partes do corpo, frequentemente acompanhadas de uma exaustão avassaladora, distúrbios do sono, dificuldade de concentração e alterações de humor. Embora não provoque inflamações visíveis ou deformidades físicas, seu impacto na qualidade de vida é profundo, dificultando atividades cotidianas, relações sociais e o desenvolvimento profissional dos acometidos. A condição é mais prevalente em mulheres entre 30 e 60 anos, mas pode afetar pessoas de qualquer idade e gênero.
A servidora pública Ana Dantas, uma das organizadoras da mobilização, expressa a frustração sentida por muitos: “É uma doença que não é visível, ela existe no nosso corpo, mas ninguém vê”. Diagnostica há pouco mais de um ano, Ana relata as limitações impostas pela síndrome em sua própria vida. “Coisas que a gente fazia ali durante 20 minutos se gasta umas três ou quatro horas para poder finalizar. É tudo muito lento, tem a questão do esquecimento, a gente esquece as coisas fácil, além da dor que afeta todo o corpo”, desabafa, ilustrando o impacto devastador na rotina.
Avanços Legais e a Lacuna na Implementação
Nos últimos anos, o Brasil testemunhou um avanço importante no reconhecimento estatal da fibromialgia. Uma lei federal promulgada em 2023 estabeleceu diretrizes para o atendimento de pessoas com a síndrome no SUS. A legislação prevê, entre outras coisas, o atendimento multidisciplinar, o incentivo à divulgação de informações sobre a doença e o estímulo à capacitação de profissionais de saúde, um passo crucial para um diagnóstico e tratamento mais eficazes.
Além disso, o enquadramento legal passou a garantir aos pacientes com fibromialgia o acesso aos mesmos direitos de Pessoas com Deficiência (PcD), desde que aprovados em uma avaliação biopsicossocial. Isso abre portas para benefícios essenciais, como o auxílio por incapacidade temporária (auxílio-doença), aposentadoria por invalidez e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), oferecendo um suporte vital para aqueles cuja capacidade de trabalho é severamente comprometida pela doença.
A Mobilização como Grito por Acesso e Tratamento Especializado
Apesar dos avanços legislativos, a realidade ainda é desafiadora. Ana Dantas reforça que a mobilização nacional busca “políticas públicas e adequar a demanda da comunidade fibromiálgica no SUS”, pois o acesso efetivo ao diagnóstico e tratamento especializado pelo sistema público ainda é uma barreira significativa. A lacuna entre a letra da lei e a prática diária é um dos principais motivadores do ativismo dos pacientes e seus apoiadores.
Em Brasília, o evento central da mobilização, realizado no Parque da Cidade, ofereceu uma amostra do que seria um atendimento ideal: sessões de acupuntura e liberação miofascial, orientações sobre fisioterapia e abordagem psicológica, além de conversas para conscientização. Essas atividades, embora pontuais, destacam a necessidade de um suporte multidisciplinar contínuo e integrado para manejar a síndrome.
Estratégias de Manejo e a Importância da Psicoeducação
As causas exatas da fibromialgia ainda não são completamente conhecidas, mas especialistas apontam que a síndrome está relacionada a alterações no funcionamento do sistema nervoso central, que amplifica a percepção da dor. Fatores como estresse prolongado, traumas físicos ou emocionais, ansiedade, depressão e predisposição genética podem contribuir para o seu surgimento. O diagnóstico é clínico, baseado na avaliação médica e na exclusão de outras doenças com sintomas semelhantes, que incluem dores persistentes por mais de três meses, sensibilidade ao toque, cansaço crônico, sono não reparador, rigidez muscular e a chamada “névoa mental”.
O tratamento da fibromialgia, embora não ofereça cura definitiva, busca controlar os sintomas e restaurar a qualidade de vida. Geralmente, envolve uma abordagem combinada de medicamentos para dor, sono e sintomas associados, como ansiedade e depressão. Além disso, exercícios físicos regulares, como caminhadas, hidroginástica e alongamentos, são considerados fundamentais. Terapias psicológicas, fisioterapia, técnicas de relaxamento e mudanças no estilo de vida complementam as estratégias mais recomendadas, permitindo que muitos pacientes mantenham uma rotina ativa.
A psicóloga Mariana Avel destaca a relevância da “psicoeducação” nesse processo. “Nesse processo de abordagem da doença, a gente desenvolve a consciência sobre tudo o que envolve essa condição, as limitações. Porque afeta a autoestima de muitas mulheres, justamente porque elas ficam muito limitadas, então é muito importante saber como lidar e receber acolhimento”, aponta, sublinhando que o apoio emocional e o entendimento da doença são tão cruciais quanto o tratamento físico.
A mobilização nacional ressalta que, enquanto a lei representa um avanço, a verdadeira vitória virá com a garantia de que cada paciente com fibromialgia no Brasil tenha acesso irrestrito a um diagnóstico preciso, a tratamentos eficazes e a uma rede de apoio multidisciplinar. A luta por uma vida com menos dor e mais dignidade continua, e a visibilidade gerada por essas ações é um passo fundamental para alcançar esse objetivo.


