Uma pesquisa inédita lança luz sobre a percepção dos moradores de favelas do Rio de Janeiro em relação às operações policiais com confronto armado, revelando uma reprovação avassaladora: nove em cada dez residentes contestam o modelo atual de intervenção. O levantamento, coordenado pela diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, e realizado por seis organizações da sociedade civil, expõe a profunda insatisfação e os impactos diários dessas ações na vida das comunidades cariocas.
O Estudo Abrangente e Seus Métodos
Intitulado "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?", o estudo ouviu presencialmente 4.080 pessoas, distribuídas igualmente entre quatro das maiores comunidades da capital fluminense: Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré (Zona Norte) e Rocinha (Zona Sul). As entrevistas foram conduzidas entre 13 e 31 de janeiro deste ano. A motivação para a pesquisa reside na escalada dos confrontos bélicos ao longo do tempo, como evidenciado na Maré, onde foram registradas 92 operações com mortes e feridos apenas entre 2023 e 2025, um cenário que as organizações de base comunitária, atuantes nesses territórios desde 2016, vêm tentando documentar para compreender os impactos e produzir conhecimento sobre a questão.
Reprovação Massiva e Nuances da Aceitação
Os dados revelam que 73% dos entrevistados discordam do tipo atual de operação policial, enquanto 25% concordam e 2% não se posicionaram. A rejeição se torna ainda mais contundente quando a pergunta é sobre a continuidade do modelo praticado: 92% reprovaram a manutenção do formato, com 68% defendendo que as operações precisam ser realizadas de outra forma e 24% argumentando que não deveriam ocorrer intervenções policiais nas favelas. É notável que, mesmo entre o percentual minoritário que concorda com a realização de operações, apenas 20% apoiam o modelo violento vigente, demonstrando que a aceitação da presença policial não se traduz em endosso à brutalidade.
Brutalidade e Ilegalidades: Percepção Compartilhada
A pesquisa aprofunda-se na percepção de abusos, indicando que 91% dos moradores acreditam haver excessos e ilegalidades por parte da polícia durante essas operações. Esta percepção alarmante é compartilhada por 85% daqueles que, de alguma forma, apoiam as operações. Para 90% dos entrevistados, tais excessos são categoricamente inaceitáveis. Entre os que discordam das intervenções, 95% repudiam a brutalidade, e, significativamente, 74% dos que concordam com as operações nas favelas também condenam os excessos policiais, reforçando a ideia de que "concordar com as operações não significa aceitar violência", conforme aponta o estudo.
O Impacto Devastador na Vida Cotidiana e o Direito à Cidade
Eliana Sousa Silva ressaltou a importância de contextualizar a realidade dos moradores, que precisam sair diariamente para trabalhar ou levar os filhos à escola, e não podem ser vistos como meros aprovadores passivos de intervenções que desorganizam suas vidas. A diretora fundadora da Redes da Maré criticou a representação negativa dos moradores de favelas, que historicamente leva à crença de que o confronto armado é a única solução para o crime, sem considerar os efeitos devastadores na rotina local. As organizações envolvidas no estudo há anos tentam identificar como esses confrontos afetam o dia a dia, limitando o acesso a serviços básicos e, muitas vezes, impedindo a saída para o trabalho ou a escola.
As Consequências na Educação e Restrição da Circulação
O impacto na educação é um exemplo flagrante: em comunidades como o Complexo da Maré, que abriga 140 mil habitantes e possui uma rede de escolas municipais, as unidades educacionais frequentemente fecham, resultando em 30 ou 40 dias sem aulas, o que compromete a qualidade do ensino e o futuro dos estudantes. A naturalização da violência e a restrição da circulação são, portanto, consequências diretas que privam os moradores do seu direito fundamental à cidade, tratando-os como parte do problema e não como cidadãos plenos.
Para Além do Confronto: Uma Visão Ampliada para a Segurança Pública
A pesquisa e as palavras de Eliana Silva convergem na necessidade de uma abordagem mais ampla e coletiva para o enfrentamento ao crime organizado, que vá além da focalização exclusiva nas favelas. A coordenadora do estudo adverte que "não se pode pensar que o morador que reside ali […] aprova esse tipo de operação simplesmente, sem entender e contextualizar. Nos preocupa que essa ideia seja generalizada dessa maneira". Ela argumenta que a visão de que o "problema são as favelas" é reforçada pela mídia e por discursos que influenciam até mesmo os próprios moradores, apesar de, quando questionados sobre abusos e violações de direitos, a maioria expressar clara discordância. A compreensão de que concordar com operações não é aceitar violência policial é central para desconstruir essa narrativa.
Em suma, o levantamento "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?" não apenas quantifica a aversão generalizada às operações violentas, mas também humaniza a discussão, expondo as profundas violações de direitos e a desorganização da vida comunitária. Ao sublinhar a percepção de excessos e a urgência de uma perspectiva mais abrangente para a segurança pública, o estudo clama por uma revisão das políticas de segurança, defendendo que os moradores das favelas sejam reconhecidos e preservados como sujeitos de direito à cidade, e que o combate ao crime não se dê à custa da vida e da dignidade de milhares de cidadãos.


