A Polícia Civil do Amazonas deflagrou uma vasta operação, denominada 'Erga Omnes', que resultou na prisão preventiva de ao menos 13 indivíduos, incluindo agentes públicos de diversas esferas. Os detidos são suspeitos de integrar um sofisticado esquema de tráfico de drogas, orquestrado pela facção criminosa Comando Vermelho (CV), que se valia da participação de ocupantes de cargos nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para operar. A investigação revelou uma movimentação financeira estimada em R$ 70 milhões desde 2018, utilizando empresas de fachada para dissimular a origem ilícita dos recursos.
Detalhes da Rede Criminosa e a Lavagem de Dinheiro
O núcleo da operação desvendou um complexo sistema onde o dinheiro, oriundo do tráfico de drogas, era sistematicamente 'lavado' para adquirir uma aparência de legalidade. Os investigadores da 'Erga Omnes' apontam que a facção se utilizava de diversas empresas de fachada, especialmente constituídas para esse fim, com o objetivo de movimentar a vultosa quantia acumulada ao longo dos anos. Além do Amazonas, a atuação da organização criminosa se estendia por outros estados brasileiros, como Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, São Paulo e Piauí, onde mandados judiciais de prisão e busca e apreensão também foram cumpridos com o apoio das forças de segurança locais.
As investigações, que tiveram início em agosto, revelaram que os suspeitos são alvos de acusações por formação de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), destacou em coletiva de imprensa que o trabalho foi pautado exclusivamente nas provas robustas coletadas nos autos, as quais fundamentaram os pedidos de prisão preventiva dos envolvidos.
Agentes Públicos sob Suspeita
A gravidade da situação se acentua com a identificação de agentes públicos entre os colaboradores do esquema. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foram cruciais para identificar transações de alto valor realizadas por servidores, que teriam facilitado a atuação da facção. A Polícia Civil esclareceu que a colaboração desses funcionários se manifestava tanto no suporte logístico direto quanto na facilitação do acesso à administração pública, além do fornecimento de informações sigilosas, o que "facilitava o trânsito da organização criminosa por diferentes instituições".
Entre os alvos que tiveram seus nomes divulgados, estão <b>Anabela Cardoso Freitas</b>, investigadora da Polícia Civil cedida à Casa Civil municipal, onde atuava como assessora técnica. Veículos de imprensa amazonenses reportam que ela teria chefiado, em outro momento, o gabinete do prefeito David Almeida, que, no entanto, não é alvo nem investigado na operação. Outro nome revelado é o de <b>Izaldir Moreno Barros</b>, auxiliar judiciário do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM). A reportagem aguarda posicionamento da defesa de Anabela e de Barros.
Reações Institucionais e O Funcionamento do Esquema Logístico
Em resposta à operação, a Prefeitura de Manaus informou, por meio de nota, que não é alvo da ação policial, reiterando seu "compromisso absoluto com a legalidade, a transparência e o respeito às instituições". A prefeitura assegurou que qualquer servidor público eventualmente investigado responderá individualmente por seus atos, sem prejuízo do funcionamento regular da máquina pública. O Tribunal de Justiça do Amazonas, por sua vez, também se manifestou em nota, sem citar nomes, afirmando que está adotando as "medidas cabíveis" no âmbito administrativo e que "não compactua com quaisquer condutas incompatíveis com os deveres funcionais".
As investigações aprofundaram como o grupo criminoso estruturava sua logística: empresas constituídas para fins ilícitos eram utilizadas para a distribuição de drogas em território nacional, simulando atividades lícitas. As substâncias ilícitas eram adquiridas em Tabatinga, no Amazonas, e os valores transacionados através de empresas fantasmas, principalmente do Amazonas e do Pará, antes da distribuição para outros estados. O delegado Martins detalhou que essas empresas não apresentavam movimentações financeiras compatíveis com as atividades declaradas, realizando transações unicamente com traficantes e os servidores públicos envolvidos.
Para dificultar a identificação de seus membros, a organização criminosa chegou a utilizar igrejas evangélicas. Um dos líderes, cuja identidade não foi confirmada pela reportagem, apresentava-se como evangélico e atuava em uma igreja localizada no bairro Zumbi dos Palmares, na zona leste de Manaus, usando a fachada religiosa para encobrir suas ações ilícitas.
Conclusão: Desafios à Integridade Pública
A Operação Erga Omnes expõe uma alarmante infiltração do crime organizado em estruturas estatais, revelando a complexidade e a ousadia de facções que buscam legitimar suas operações ilícitas através da corrupção de agentes públicos. O desmantelamento de tal rede é crucial não apenas para combater o tráfico de drogas, mas para restaurar a confiança nas instituições e salvaguardar a integridade do serviço público. As investigações prosseguirão, com o objetivo de identificar e responsabilizar todos os envolvidos, reforçando o compromisso das forças de segurança em proteger a sociedade e assegurar a prevalência da legalidade.


