Um impactante ato em memória de Tainara Souza Santos, brutalmente assassinada aos 31 anos, será o catalisador das mobilizações pelo Dia Internacional das Mulheres. A manifestação, organizada pelo Ministério das Mulheres, está agendada para este domingo (1º) na Marginal Tietê, Zona Norte de São Paulo, local onde Tainara foi vítima de um feminicídio chocante em novembro do ano passado.
Homenagem e Grito por Consciência Nacional
A escolha do local para o protesto é simbólica: na Marginal Tietê, Tainara foi agredida, atropelada e arrastada por mais de um quilômetro por seu ex-companheiro, Douglas Alves da Silva, em 29 de novembro de 2023. A violência resultou em mutilações graves, levando ao falecimento da jovem na véspera do Natal. Douglas Alves está preso, respondendo por feminicídio. O ato não apenas honra a memória de Tainara, mas serve como um chamado urgente à solidariedade e à conscientização sobre a epidemia de violência de gênero no Brasil.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, em entrevista ao programa 'Bom Dia, Ministra' do Canal Gov, enfatizou que a mobilização de março transcende a homenagem individual. Ela clamou pela união de parlamentares, gestores municipais e estaduais, o sistema de Justiça, a sociedade civil e a mídia para um enfrentamento conjunto do feminicídio, um desafio imenso que assola o Brasil e o mundo.
Intervenções Artísticas e Apoio Social
Para amplificar a mensagem, o ato contará com diversas intervenções. Grafiteiras renomadas realizarão obras em muros de prédios locais, como os Correios e a prefeitura, perpetuando a memória de Tainara. Um mastro imponente será erguido, exibindo mensagens de repúdio ao feminicídio. Acompanhando o percurso, um trio elétrico levará a voz da família da vítima e de movimentos sociais, fortalecendo o coro contra a violência de gênero.
Estratégias Nacionais no Combate ao Feminicídio
Avanço do Pacto Nacional – Brasil Contra o Feminicídio
A ministra Márcia Lopes destacou o progresso do Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, informando que 19 estados já aderiram à iniciativa federal. Com o objetivo de expandir o alcance da política, ela planeja visitar, ao longo de março, as localidades que ainda não formalizaram seu compromisso. Lopes ressaltou a imperativa necessidade de integrar e padronizar as políticas públicas entre União, estados e municípios para uma prevenção eficaz do feminicídio, que é o assassinato de mulheres motivado por discriminação ou menosprezo à sua condição de gênero.
Para Márcia Lopes, a implementação de um Sistema Nacional de Política para as Mulheres é crucial. Isso implica na plena operacionalização de órgãos gestores e conselhos, na disseminação de uma rede de serviços de apoio e na construção da confiança das vítimas. Muitas mulheres hesitam em denunciar por medo de perseguição, falta de fé na justiça ou incerteza sobre o sigilo. A ministra defendeu a formação contínua, o engajamento e o profissionalismo de todas as forças de segurança e profissionais envolvidos no atendimento.
O cenário atual é alarmante: em 2023, o Brasil registrou um número recorde de 1.518 vítimas de feminicídio, uma média devastadora de quatro mortes por dia, evidenciando a urgência das ações propostas.
Educação e Esporte como Pilares da Transformação Social
O Projeto 'Maria da Penha Vai à Escola'
Em um esforço preventivo fundamental, a ministra antecipou que o projeto 'Maria da Penha Vai à Escola' será regulamentado pelo Ministério da Educação (MEC) em março. A iniciativa visa educar estudantes e profissionais de ensino sobre a prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher. Lopes sublinhou a importância de crianças e adolescentes aprenderem sobre igualdade de gênero desde cedo, para que se possa construir uma sociedade verdadeiramente igualitária, onde a inferiorização e desvalorização das mulheres não sejam banalizadas ou naturalizadas.
Esporte: Campo de Luta Contra o Machismo
Durante a entrevista, a ministra também se posicionou firmemente contra as declarações misóginas do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, dirigidas à árbitra Daiane Muniz após um jogo do Campeonato Paulista. Lopes classificou o episódio como 'mais um caso de violência de gênero, de absoluto desprezo, de absoluto machismo', reforçando que é 'inadmissível' e que as mulheres já comprovaram sua capacidade em qualquer esfera, seja pública ou privada.
Com a perspectiva da Copa do Mundo Feminina no Brasil em 2027, Márcia Lopes salientou o compromisso do ministério em colaborar com a CBF, atletas e organizadores. O objetivo é assegurar que o evento não seja apenas uma celebração esportiva, mas um marco de mobilização e respeito às mulheres no esporte, reiterando que 'o esporte não pode ser crime, tem que ser para uma vida saudável'.
O ato em memória de Tainara Souza Santos é, portanto, muito mais do que um protesto; é o ponto de partida para um mês de março que promete intensificar a discussão sobre o feminicídio e a violência de gênero. As ações coordenadas, desde a sensibilização pública até a implementação de políticas educacionais e o combate ao machismo no esporte, reforçam o compromisso de construir uma sociedade onde a vida e a dignidade das mulheres sejam inquestionavelmente protegidas e valorizadas.


