São Paulo foi palco, neste sábado (6), da 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, um evento que reuniu diversas organizações e coletivos em uma manifestação robusta. A iniciativa buscou fortalecer reivindicações específicas, destacando a necessidade de combater violências concretas e simbólicas que afetam de maneira particular essa parcela da comunidade LGBTQIA+, diferenciando-se das experiências de outros grupos.
A articulação do evento contou com a participação ativa de grupos como a Coletiva da Visibilidade Lésbica SP, a Rede LésBi Brasil, o Lésbicas na Parada SP, a Rede Nacional Candaces de Lésbicas e Mulheres Bissexuais Negras Feministas, e a Associação Brasileira de Lésbicas (ABL), entre outras entidades, evidenciando a amplitude e a diversidade do movimento.
Lesbofobia e Bifobia: A Luta por Reconhecimento e Contra a Violência Específica
A Caminhada reiterou o peso da lesbofobia e da bifobia, preconceitos que se manifestam de diversas formas contra mulheres brasileiras. Distanciando-se de grandes financiadores, o protesto ressaltou a importância de abordar violências que atingem lesbianas e bissexuais de maneira singular, indo além das pautas gerais da comunidade LGBTQIA+. A ultradireita brasileira foi apontada como um fator que agrava as perseguições a essas mulheres, por destoarem dos padrões impostos por uma sociedade heteronormativa e patriarcal.
Segundo dados da edição mais recente do LesboCenso, as agressões contra mulheres lésbicas e bissexuais são amplas e multifacetadas. Elas se materializam em discriminação em espaços públicos, invisibilidade de seus relacionamentos, violência verbal, isolamento social, assédio sexual, objetificação e, em casos extremos, o brutal 'estupro corretivo', práticas que evidenciam a profundidade do ódio e da aversão enfrentados por elas.
Luana Barbosa dos Reis: Um Grito por Justiça que Completa Dez Anos
Um dos motes centrais do protesto deste ano foi o aniversário de dez anos do assassinato de Luana Barbosa dos Reis. Lésbica, negra e moradora da periferia, Luana foi vítima fatal da letalidade policial em 13 de abril de 2016, aos 34 anos. Familiares e movimentos da causa denunciam que Luana foi abordada em Ribeirão Preto (SP) por dois policiais militares, espancada até a morte após recusar uma revista pessoal por agentes do gênero masculino – um direito que deveria ter sido assegurado por lei.
A irmã de Luana, Roseli dos Reis, presente no ato, lamentou a ausência de justiça, afirmando que os agentes envolvidos no crime ainda não foram responsabilizados. Em um discurso emocionado, Roseli expressou a dor de dez anos sem respostas, destacando que a luta por justiça impede que a família vivencie o luto de forma plena. Em reconhecimento à sua memória e luta, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania criou este ano uma premiação com seu nome, visando reconhecer iniciativas de enfrentamento ao lesbocídio e à lesbofobia e apoio a mulheres homossexuais.
A Invisibilidade e os Desafios Cotidianos de Mulheres Bissexuais e Pansexuais
Além das violências diretas, a caminhada também jogou luz sobre a invisibilidade e os desafios diários enfrentados por mulheres bissexuais e pansexuais. A fotógrafa e modelo Helena Silva, de 26 anos, que se identifica como pansexual – uma pessoa que se relaciona sem considerar identidade de gênero ou sexo biológico – exemplifica essa realidade. Assim como outros grupos minorizados, como os bissexuais, que frequentemente usam a figura do unicórnio para expressar o desdém de sua suposta indecisão, Helena vivencia um grau significativo de falta de reconhecimento.
Negra e moradora da periferia da zona norte de São Paulo, Helena cresceu em uma família evangélica e, apesar do respeito de sua mãe, não consegue discutir abertamente suas experiências românticas e sexuais, como seu relacionamento atual com a tatuadora Thais Souza. Questões de saúde ginecológica e sexual, que deveriam ser tratadas com naturalidade, tiveram de ser buscadas junto a amigos, devido aos tabus familiares e a um histórico de descaso e má conduta em consultórios médicos para pacientes lésbicas e bissexuais, que frequentemente enfrentam desinformação e atendimento de baixa qualidade.
Helena reflete sobre a dificuldade de conciliar a visão tradicional de sua mãe com sua própria identidade: 'Ela vem desse pensamento de família tradicional, de homem e mulher constituindo uma família. Não vou julgar essa forma dela, porque veio da criação dela. Mas também não muda o fato de que eu tenho minha preferência, sim, nem o de que sou filha dela'. Sua experiência destaca a tensão entre a identidade pessoal e as expectativas familiares e sociais.
Um Chamado à Resistencia e à Construção de Um Futuro Mais Justo
A 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais em São Paulo reforçou a urgência de combater a lesbofobia, a bifobia e todas as formas de violência e invisibilidade que permeiam a vida dessas mulheres. Ao honrar a memória de Luana Barbosa dos Reis e ao dar voz a experiências como a de Helena Silva, o movimento reafirma sua resiliência e a determinação em lutar por um futuro onde o respeito, a justiça e a plena cidadania sejam realidades para todas as mulheres, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. A mobilização nas ruas é um lembrete poderoso de que a luta por direitos e reconhecimento continua viva e pulsante.

