O olhar marejado da ex-lavradora Maria de Fátima Marinelli, 68 anos, fixava-se na camiseta com a imagem de Nativo da Natividade de Oliveira, seu companheiro. O cuidado era redobrado para que as lágrimas não atingissem o documento recém-recebido: a certidão de óbito retificada que atesta o assassinato de Oliveira por agentes do Estado.
O documento, entregue em um evento no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, reconhece que a morte de Nativo, ativista e representante dos trabalhadores rurais em Carmo do Rio Verde (GO), foi uma “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política pelo regime ditatorial instaurado em 1964”. Oliveira foi assassinado em 1985, ano final da ditadura. Investigações da época apontaram um pistoleiro como executor e o então prefeito da cidade como mandante.
A ministra Macaé Evaristo entregou o documento, proporcionando alívio à família. “A morte do meu marido é de uma dor que não sei explicar. Esse atestado é muito especial pra gente porque só nós sabemos o que passamos”, declarou a viúva, cujos filhos eram crianças na época do crime. Eduardo, hoje com 51 anos, e Luciane Rodrigues, 52, recordam que o pai sofria ameaças por organizar os trabalhadores. A família enfrentou dificuldades financeiras, e as crianças precisaram trabalhar na roça para sobreviver. Luciane precisou deixar a cidade devido à dificuldade de conseguir emprego.
Além da família de Nativo, outras 27 famílias de vítimas da ditadura receberam a certidão de óbito retificada. A ministra Macaé Evaristo enfatizou que a luta pelo direito à memória, à verdade, à justiça e à reparação deve ser uma pauta de toda a sociedade brasileira. Familiares de vítimas reivindicam a divulgação de mais documentos relativos à ditadura.
Ao todo, ao menos 434 pessoas foram consideradas mortas em função da luta contra a ditadura. A ministra defendeu a necessidade de relembrar o período de opressão, enfatizando as violações de direitos ocorridas. Já foram entregues 63 certidões em Minas Gerais e 102 em São Paulo. A presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Gonzaga, anunciou a previsão de pelo menos mais duas entregas de certidões retificadas no próximo ano.
Eugênia Gonzaga ressaltou que a iniciativa honra a memória daqueles que lutaram contra a opressão. “É a memória deles que sempre será lembrada e homenageada. Já os donos dos coturnos e burocratas que os pisotearam, eles serão lembrados apenas num lixo da história”, afirmou.
A presidente da comissão destacou que o respeito à memória das vítimas e de suas famílias tem evoluído desde 1995, quando a Lei 9.140 reconheceu como mortas as pessoas desaparecidas no regime militar.
Entre os desaparecidos, Demerval da Silva Pereira foi morto no Araguaia em janeiro de 1974. Sua sobrinha, a advogada Andréia Pereira, relatou o sofrimento da família, marcado pela ausência e falta de informações. Andréia, que passou a buscar informações sobre as torturas sofridas pelo tio, expressou a resignação em relação à recuperação do corpo: “Não tenho mais esperança de encontrar o corpo dele, que foi uma das primeiras pessoas a serem reconhecidas como vítimas da ditadura”.
No auditório do Ministério dos Direitos Humanos, familiares observavam as fotos expostas. A enfermeira Sueli Damasceno, 72 anos, emocionou-se diante da imagem do irmão, Jorge Aprígio de Paula, operário e estudante de medicina, assassinado em 1º de abril de 1968, durante uma manifestação no Rio de Janeiro.
Sueli recorda que a notícia da morte abalou a família, residente em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Jorge era um dos principais suportes da casa após a morte do pai. A certidão de óbito original mencionava uma “ferida transfixante do tórax”, mas o exame indicava um tiro pelas costas. A família, com medo, precisou mudar de residência. Sueli acredita que o tratamento envolvia também racismo: “Nós somos uma família de negros, moradores da periferia. Não houve respeito nenhum pelo Jorge e por nós. Meu irmão queria fazer medicina para cuidar da gente”.
Após a perda, Sueli decidiu cursar enfermagem. A nova certidão de óbito, para ela, contribui para contar a história de forma mais justa e assegurar que as futuras gerações conheçam a história de Jorge, um jovem operário e estudante idealista.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


