O Brasil figura entre os países com as maiores taxas de cesariana no mundo, um dado que contrasta drasticamente com a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que preconiza que apenas até 15% dos nascimentos ocorram por meio desta cirurgia, vital em emergências, mas não isenta de riscos. Longe de ser uma preferência individual isolada, essa realidade complexa é moldada por uma intrincada rede de fatores psicológicos, sociais e estruturais, conforme revela uma pesquisa recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
O estudo, que partiu de uma constatação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2014 – de que sete em cada dez gestantes desejavam um parto normal no início da gravidez –, buscou decifrar o que realmente ocorre durante a gestação e o parto para que tantas mulheres acabem optando ou sendo direcionadas para a cesariana. Aprofundando-se nas experiências de gestantes, puérperas e profissionais de saúde, a pesquisa 'Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes' desvenda as dinâmicas por trás dos números alarmantes.
Um Cenário de Disparidade: As Taxas de Cesariana no Brasil
Apesar das diretrizes globais, a proporção de nascimentos via cesariana no Brasil ultrapassa os 60% e atinge quase 90% na rede privada de saúde, evidenciando uma prática cirúrgica rotineira em vez de uma intervenção de exceção. A análise do Unicef, conduzida em São Paulo (SP) e Belém (PA), tanto na rede pública quanto na privada, ilustra essa disparidade regional e setorial.
Na capital paulista, por exemplo, mais da metade dos nascimentos em 2024 foram por cesariana, índice que salta para mais de 70% em hospitais privados. Belém apresenta números ainda mais elevados, com cerca de 69% dos nascimentos gerais e mais de 80% na rede particular ocorrendo via cirúrgica. É notável que ambas as cidades contam com legislação que assegura o direito da gestante de solicitar a cirurgia no momento do parto, o que pode influenciar, entre outros fatores, na manutenção desses patamares elevados.
A Complexidade da Escolha: Fatores Psicológicos e Sociais
A pesquisa do Unicef identificou um leque de influências positivas e barreiras que moldam a decisão sobre a via de nascimento. Embora o desejo por protagonismo e uma experiência positiva de parto esteja presente entre as gestantes, as condições sociais e estruturais se revelam determinantes na construção dessa escolha.
Medos e Desejos: A Dimensão Psicológica
No plano psicológico, a percepção sobre a recuperação pós-parto é um fator chave. A perspectiva de uma recuperação mais rápida é frequentemente apontada pelas participantes como um motivador para escolher o parto normal. Contudo, o receio da dor durante o trabalho de parto exerce uma forte influência em sentido contrário, muitas vezes levando as gestantes a inclinar-se pela cesariana como uma forma de evitar esse sofrimento.
O Imaginário Coletivo e a Sombra da Violência Obstétrica
Essas crenças individuais estão intrinsecamente ligadas ao contexto social. As gestantes são fortemente impactadas pelas narrativas e experiências de outras mulheres, em especial familiares próximas. Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, destaca que essas histórias contribuem significativamente para a construção social do parto normal como uma experiência de grande sofrimento. O problema reside no fato de que muitas dessas narrativas descrevem situações de violência obstétrica – como episiotomias desnecessárias, intervenções excessivas ou induções sem indicação clara – que deveriam ser combatidas, mas acabam por estigmatizar o parto vaginal.
Desigualdade Social e as Diferentes Motivações nas Redes de Saúde
A análise do Unicef revela como a desigualdade social se manifesta na escolha da via de parto, expondo contrastes marcantes entre usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada.
A Realidade do SUS: Necessidade de Recuperação Rápida
Para as usuárias do SUS, as experiências familiares e a própria vivência as levam a valorizar o parto normal, mas muitas vezes por uma razão pragmática e dolorosa: a necessidade de uma recuperação ágil. A ausência de uma rede de apoio robusta para cuidar do recém-nascido, de outros filhos e das responsabilidades domésticas, empurra essas mulheres para o parto vaginal, não por uma escolha idealizada, mas por uma exigência da sua condição socioeconômica. Essa faceta cruel da desigualdade ressalta a falta de suporte que impacta diretamente a autonomia feminina.
O Cenário no Setor Privado: Consciência e Recursos
No setor privado, a dinâmica é outra. A falta de uma rede de apoio sequer é mencionada como desvantagem para a cesariana. Aqui, as mulheres que optam pelo parto normal o fazem por entenderem os benefícios para a mãe e o bebê, investindo em preparação e, muitas vezes, contratando equipes especializadas para garantir uma experiência de parto positiva e humanizada. Isso sublinha como o acesso a informações qualificadas e a recursos financeiros pode moldar uma escolha mais alinhada com as melhores práticas de saúde.
Barreiras Adicionais e a Lacuna de Informação no SUS
Uma barreira específica, identificada exclusivamente entre as usuárias do SUS, é o desejo de realizar a laqueadura. Essa intenção leva muitas gestantes a optar pela cesariana, mesmo cientes dos riscos da cirurgia e do desconforto do pós-operatório. Tal comportamento é um reflexo direto da falta de orientação sobre outras opções eficazes de contracepção de longa duração, como o implante subdérmico e o DIU, ambos disponíveis no SUS. Além disso, a desinformação se estende à possibilidade de realizar a laqueadura fora do contexto do parto ou mesmo após um parto vaginal, reforçando a necessidade de ampliar o aconselhamento em saúde reprodutiva.
A Essencialidade da Estrutura de Assistência no Parto
Entre os fatores estruturais, a maneira como as equipes de assistência atuam é duplamente relevante: pode tanto facilitar quanto dificultar a escolha pelo parto normal. A qualidade do pré-natal e o suporte oferecido pelos profissionais de saúde têm um papel crucial. Um acompanhamento inadequado, com poucas informações sobre o processo do parto e as opções disponíveis, pode contribuir para que a gestante se sinta despreparada e insegura, impulsionando a decisão pela cesariana.
Por outro lado, uma equipe que oferece suporte contínuo, informações claras sobre os benefícios do parto normal e as formas de manejo da dor, e que promove um ambiente de respeito e autonomia, pode empoderar a mulher a vivenciar um parto vaginal. A centralidade da equipe, portanto, exige que os sistemas de saúde invistam em formação humanizada e em protocolos que priorizem as necessidades da gestante, superando os entraves que levam à medicalização excessiva do nascimento.
Rumo a um Parto Mais Consciente e Respeitoso
Os dados e insights trazidos pela pesquisa do Unicef revelam que as elevadas taxas de cesariana no Brasil são um espelho de desafios sistêmicos, que vão desde a desinformação e o medo socialmente construído, até a desigualdade no acesso a uma assistência de saúde qualificada e informada. A escolha da via de nascimento, portanto, está longe de ser um ato puramente individual, sendo profundamente influenciada pelo contexto em que a mulher está inserida.
Para reverter esse cenário, é imperativo que o Brasil implemente políticas públicas abrangentes que promovam a educação para o parto e nascimento, combatam veementemente a violência obstétrica e garantam que todas as gestantes, independentemente de sua condição socioeconômica, tenham acesso a informações completas e a uma assistência humanizada. Somente assim será possível assegurar que a via de nascimento seja uma escolha verdadeiramente informada e respeitosa, priorizando a saúde e o bem-estar de mães e bebês.

