A educação desempenha um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Nesse contexto, o debate sobre questões étnico-raciais se mostra indispensável, especialmente na formação de novos educadores. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal Fluminense (UFF) lança luz sobre o potencial de um recurso surpreendente para fomentar essa discussão: as histórias em quadrinhos, em particular as graphic novels. Este estudo demonstra como narrativas visuais e textuais podem ser poderosos catalisadores para a reflexão sobre o racismo, fortalecendo a educação antirracista no ambiente escolar.
Da Paixão Pessoal à Contribuição Acadêmica
A origem desta pesquisa inovadora reside na trajetória de Fernanda Pereira da Silva, doutoranda e professora do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano da UFF. Admiradora de quadrinhos desde a infância, Fernanda, durante seu mestrado focado em heróis negros, percebeu uma lacuna em sua própria formação: a falta de discussão aprofundada sobre racismo. Essa revelação pessoal, que a fez sentir-se 'ignorante', impulsionou-a a dedicar seu doutorado à busca por métodos eficazes para abordar o tema.
Inspirada pelo lançamento de graphic novels com personagens negros como Carolina, Cumbe e Angola Janga no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) em 2018, Fernanda viu o potencial desses materiais para engajar futuras gerações de professores. Sua tese de doutorado, intitulada 'Cotidiano, escola e Graphic novel: O papel da mídia no fortalecimento da Educação para Relações Étnico-Raciais', sob a orientação da professora Walcéa Barreto Alves, da Faculdade de Educação da UFF, propõe a inserção dessas narrativas visuais na formação inicial de docentes do ensino fundamental, visando estimular a continuidade do debate antirracista em sua prática pedagógica.
Desafios e Realidade do Debate Racial nas Escolas
A pesquisa de Fernanda não se limitou à teoria. Um extenso trabalho de campo foi realizado no Colégio Estadual Júlia Kubitschek com alunos do segundo ano do ensino médio, dos quais 95% eram negros. As constatações revelaram uma realidade preocupante: a abordagem do racismo nas escolas é, na maioria das vezes, restrita ao mês de novembro, dedicado à Consciência Negra, deixando o tema em segundo plano durante o restante do ano letivo. Este fato contrasta drasticamente com a vivência dos próprios alunos, que relataram enfrentar situações cotidianas de racismo e discriminação.
Outro dado alarmante descoberto pela pesquisa é o descumprimento generalizado da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Segundo levantamento do Geledés Instituto da Mulher Negra e do Instituto Alana, a lei não é aplicada em 71% dos municípios brasileiros. Uma das justificativas frequentemente apresentadas pelos professores para a não aplicação é a percepção de que o tema é 'polêmico' e 'difícil de trabalhar'. Fernanda contesta essa visão, afirmando que a questão racial não é uma polêmica, mas uma parte intrínseca da história e da sociedade brasileira.
As Graphic Novels como Ponte para a Educação Antirracista
Diante desse cenário, a proposta de Fernanda ganha ainda mais relevância. Ela argumenta que o racismo pode ser abordado de diversas maneiras, e as graphic novels representam uma estratégia particularmente eficaz e engajadora. A pesquisadora sugere o uso de histórias como a da escritora Carolina Maria de Jesus, que, transformadas em quadrinhos, podem ser apresentadas aos estudantes, permitindo que a narrativa de vida da autora se torne um ponto de partida para discussões sobre educação antirracista.
A professora Walcéa Barreto Alves, orientadora da tese, reforça a importância do trabalho de campo de Fernanda, classificando-o como uma 'ação interventiva'. A imersão permitiu observar de perto o cotidiano dos estudantes e confirmar a escassez do debate étnico-racial fora do mês de novembro, bem como a ocorrência de situações de racismo vivenciadas pelos alunos tanto dentro quanto fora do ambiente escolar. A preocupação central do estudo é equipar os futuros professores com ferramentas e metodologias para que possam abordar essas questões de forma contínua e impactante em suas salas de aula, preparando as novas gerações para um mundo mais inclusivo.
Conclusão: Um Futuro Mais Equitativo Através da Leitura
O estudo de Fernanda Pereira da Silva da UFF oferece uma perspectiva valiosa e prática para o fortalecimento da educação antirracista no Brasil. Ao evidenciar as lacunas atuais no ensino sobre relações étnico-raciais e propor as graphic novels como uma ponte acessível e envolvente, a pesquisa aponta para um caminho promissor. Mais do que apenas entretenimento, as histórias em quadrinhos revelam-se uma ferramenta didática potente, capaz de sensibilizar, informar e capacitar futuros educadores a promoverem um debate contínuo e transformador sobre o racismo. A integração dessas narrativas no currículo de formação de professores pode ser um passo decisivo para desmistificar o tema e construir um ambiente escolar que reflita e promova os valores de respeito e equidade em todos os dias do ano.


