O cenário de impunidade que por vezes ronda o submundo do jogo do bicho no Rio de Janeiro sofreu um revés significativo. Nesta semana, o 1° Tribunal do Júri da capital fluminense proferiu uma sentença contundente contra o ex-policial militar Rodrigo da Silva das Neves, considerado culpado pelo brutal assassinato do contraventor Fernando Iggnácio, ocorrido em 2020. A decisão judicial encerra uma etapa crucial de um caso que expôs a violência e as intrincadas conexões do crime organizado, imputando ao réu uma pena severa por um homicídio triplamente qualificado.
A Condenação por Homicídio Triplamente Qualificado
Rodrigo da Silva das Neves foi sentenciado a 32 anos, nove meses e 18 dias de reclusão, com a pena a ser cumprida integralmente em regime fechado. A decisão do júri refletiu a gravidade do ato, classificando o homicídio como triplamente qualificado, com agravantes de motivo torpe, uso de meio cruel e prática por emboscada. O juiz Thiago Portes Vieira de Souza, presidente do Júri, destacou na sentença o papel preponderante do ex-PM na execução do crime. Conforme evidenciado no processo, um vasto arsenal foi apreendido no apartamento do condenado, incluindo quatro fuzis, carregadores e grande quantidade de munições, corroborando a centralidade de sua participação na trama da emboscada que resultou na morte de Iggnácio.
O Perfil do Condenado e o Cenário do Crime
O crime que levou Fernando Iggnácio à morte ocorreu em 2020, no estacionamento de um heliponto localizado no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio. A vítima foi emboscada logo após retornar de sua residência de praia em Angra dos Reis, na Costa Verde. A conduta de Rodrigo da Silva das Neves é ainda mais grave ao se considerar seu histórico: à época do assassinato, ele era um policial militar da ativa. O magistrado responsável pelo caso ressaltou que o réu optou por infringir a lei que deveria defender, utilizando-se, inclusive, de conhecimentos táticos e operacionais adquiridos no exercício de sua função para planejar e executar a ação criminosa, agindo assim diretamente contra os princípios do Estado.
Desdobramentos Judiciais e Outros Envolvidos
Além de Rodrigo, outros dois indivíduos, os irmãos Pedro Emanuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro e Otto Samuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro, também estavam previstos para serem julgados em conjunto. Contudo, o processo deles foi adiado. No início da sessão do júri, ambos optaram por dispensar seus respectivos advogados, tornando necessária a constituição de novas defesas e a designação de uma nova data para seus julgamentos. Outro suspeito de envolvimento na execução, Ygor Rodrigues Santos da Cruz, não chegou a ser julgado, pois foi encontrado morto em 2022. Paralelamente, a figura central apontada como mandante do assassinato, o contraventor Rogério de Andrade, responde por sua participação em um processo judicial separado, ao lado de Gilmar Eneas Lisboa.
A Guerra Pelo Espólio de Castor de Andrade
O assassinato de Fernando Iggnácio não foi um evento isolado, mas sim o capítulo mais recente de uma sangrenta disputa familiar pelo controle do império do jogo do bicho, deixado pelo lendário contraventor Castor de Andrade. Iggnácio, genro de Castor, era casado com Carmen Lúcia de Andrade e, segundo investigações, teria sido morto a mando de Rogério de Andrade, sobrinho do patriarca. A raiz do conflito remonta à morte de Paulinho de Andrade, filho de Castor, em outubro de 2020. Paulinho, um engenheiro sem envolvimento direto com a contravenção, teria reivindicado sua parte na herança dos pontos de bicho do pai, que haviam passado para o controle de seu primo, Rogério. A atribuição da morte de Paulinho a Rogério intensificou a rivalidade. Após a perda do irmão, Carmen Lúcia expressou publicamente seu temor de ser a próxima vítima, impulsionando Fernando Iggnácio a uma guerra aberta contra Rogério de Andrade pelo controle do vasto espólio. Esta contenda, que perdurou por quase três décadas, é associada a mais de 50 mortes em ambos os lados, ilustrando a brutalidade e as consequências mortais das disputas por poder no submundo do Rio.
A condenação de Rodrigo da Silva das Neves representa um passo significativo na busca por justiça em um dos crimes mais notórios da recente história do Rio de Janeiro. Embora a sentença do ex-PM encerre uma fase importante, o complexo enredo de poder, vingança e contravenção que envolve a família de Castor de Andrade e Rogério de Andrade demonstra que a guerra pelo controle do jogo do bicho ainda deixa marcas profundas na sociedade, com os desdobramentos judiciais de outros envolvidos e do alegado mandante a serem acompanhados.


