Em Recife, um projeto inovador está utilizando a robótica como ferramenta de transformação na vida de jovens que cumprem ou cumpriram medidas socioeducativas. A iniciativa, sediada no Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), oferece noções de robótica e pensamento computacional, visando a reintegração social e o desenvolvimento de novas habilidades.
Daniel Messias, estudante de análise e desenvolvimento de sistemas, lidera a iniciativa, inspirada na filosofia zulu “Sawabona” (“Eu te vejo, você é importante”). Messias defende uma “educação restaurativa” que foque nas qualidades dos jovens, em vez de seus erros. Para ele, é crucial resgatar narrativas e sonhos, combatendo a “necropolítica” que marginaliza certos grupos sociais, como jovens negros.
A primeira turma do projeto formou 18 jovens egressos da Fundação de Atendimento Socioeducativo de Pernambuco (Funase). Uma segunda turma, composta por adolescentes que ainda cumprem medidas, está em andamento. A metodologia utilizada é a Roboliv.re, plataforma criada para democratizar o acesso à robótica.
Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de 2024, cerca de 11 mil adolescentes cumprem medidas socioeducativas no Brasil, sendo a maioria (95%) do sexo masculino e quase 74% pretos ou pardos.
O projeto não apenas ensina robótica, mas também busca identificar habilidades que podem ser aplicadas em diversas áreas. Os idealizadores acreditam que a vivência em contextos de vulnerabilidade proporciona aos jovens um olhar crítico e inovador.
A próxima etapa da pesquisa pretende investigar a relação entre a formação e a geração de renda, com a possibilidade de criar uma startup em parceria com as unidades socioeducativas. Essa medida visa suprir a falta de apoio que muitos jovens enfrentam ao deixarem o sistema, evitando a reincidência.
Os idealizadores destacam que o sistema socioeducativo, muitas vezes, acaba sendo uma “escola” para o sistema carcerário, que no primeiro semestre de 2025, contabilizou quase 942 mil pessoas no Brasil.
Para além da robótica, o projeto também pretende aplicar testes vocacionais, buscando orientar os jovens na escolha de carreiras alinhadas com as demandas do mercado. A localização estratégica no Porto Digital, um importante polo de inovação tecnológica, facilita essa conexão.
O projeto enfrentou preconceitos, mas a dedicação e o impacto positivo na vida dos jovens têm superado as barreiras. O próprio Messias, que já cumpriu medidas socioeducativas, compreende os desafios enfrentados por esses jovens e defende a importância de oferecer oportunidades para que eles construam um futuro diferente.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


