Uma avaliação aprofundada das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil, realizada por milhares de profissionais que atuam na linha de frente do cuidado intensivo, revelou uma profunda disparidade na percepção sobre a qualidade dos serviços oferecidos pelos sistemas público e privado. Enquanto as unidades particulares frequentemente recebem avaliações altamente positivas, o setor público enfrenta críticas significativamente mais severas, sublinhando a urgência de uma reestruturação que vá muito além da mera expansão do número de leitos disponíveis.
O levantamento, conhecido como Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras, foi conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) com o endosso do Conselho Federal de Medicina (CFM). Ele serve como um diagnóstico crucial para direcionar políticas públicas e ações de melhoria em um segmento vital para a saúde do país.
A Metodologia do Estudo: A Voz dos Especialistas
Para compor este panorama detalhado, 2.338 médicos intensivistas de todo o país participaram ativamente, respondendo a um questionário abrangente. Os profissionais atribuíram notas de 0 a 5 para uma série de critérios considerados fundamentais para o bom funcionamento de uma UTI, incluindo a infraestrutura existente, a disponibilidade de leitos e medicamentos essenciais, o nível de especialização da equipe multidisciplinar, a eficiência dos fluxos de pacientes e a aderência a protocolos clínicos bem definidos.
A Amib ressaltou que a análise conjunta dessas avaliações oferece uma visão clara e direta dos desafios que impactam o atendimento a pacientes em estado grave, diretamente da perspectiva daqueles que são responsáveis por seu cuidado diário.
Contrastes Marcantes na Qualidade Percebida
A pesquisa evidencia uma lacuna notável na percepção de qualidade entre as UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS) e as do setor privado ou vinculadas a planos de saúde. As notas positivas atribuídas às unidades privadas são, em média, o dobro das concedidas às públicas. Em contrapartida, as avaliações negativas podem ser até quatro vezes mais frequentes em ambientes públicos.
Este padrão de disparidade não se restringe a um ou outro aspecto; ele se repetiu em 12 dos 13 itens avaliados, indicando uma diferença sistêmica na percepção sobre os recursos e a estrutura oferecidos. A única exceção, onde a percepção dos médicos foi similar em ambos os segmentos, referiu-se às tarefas administrativas e burocráticas.
Deficiências Críticas em Recursos e Estrutura
Um dos pontos mais críticos levantados pelo inquérito diz respeito à **disponibilidade de medicamentos essenciais**. Apenas 22,7% dos médicos consideram que a rede de UTIs do SUS oferece suprimento totalmente adequado, índice que salta para 57,7% nas unidades privadas. Inversamente, 16,1% dos profissionais classificaram a oferta de medicamentos no setor público como inadequada ou totalmente inadequada, enquanto no privado este percentual foi de apenas 3,8%.
A **suficiência de leitos** segue uma tendência similar: apenas 24,1% dos entrevistados atribuíram nota máxima aos serviços públicos, em contraste com 51,4% nas unidades privadas. As avaliações negativas (notas 0, 1 e 2) sobre a disponibilidade de leitos foram expressivas no SUS, atingindo 32,6% dos médicos, enquanto no privado esse índice foi de 7,7%.
Protocolos, Equipe e Formação Profissional
A percepção sobre a existência e o acesso a **protocolos de atendimento e conduta clínica** também diverge acentuadamente. 23,1% dos participantes atribuíram nota máxima ao SUS neste quesito, contra 40,2% para o setor privado. As avaliações mínimas para os protocolos no setor público foram dadas por 27,4% dos médicos, em comparação com 14,3% no privado.
Outro pilar fundamental, a **presença de equipe multiprofissional especializada**, mostrou-se mais robusta no setor privado, onde 39,2% dos médicos deram nota máxima, contra 23% no público. As notas mínimas neste item foram atribuídas por 24,8% para o setor público e 13,8% para o privado. Especificamente sobre a presença de **enfermeiros com formação em terapia intensiva**, a percepção positiva foi de 25,1% para o setor privado e 16,9% para o público, enquanto a avaliação negativa alcançou 37,2% para o SUS e 26,4% para o particular.
O Caminho para uma Reestruturação Abrangente
Diante desses achados, a Amib enfatiza que os resultados reforçam a imperatividade de políticas públicas de saúde que encarem a estruturação das UTIs como uma prioridade multifacetada, e não meramente como uma questão de aumento quantitativo de leitos. A entidade planeja levar este diagnóstico detalhado a gestores públicos e privados, bem como a autoridades de fiscalização e controle, com o objetivo de promover a implementação das recomendações do inquérito.
A expectativa é que eventuais mudanças e investimentos impactem diretamente os 43.901 leitos de UTI existentes no país, dos quais 34.927 são destinados a adultos e 8.974 à pediatria e neonatologia, melhorando substancialmente a qualidade do cuidado intensivo oferecido à população.
Em suma, o estudo da Amib e do CFM não apenas lança luz sobre as disparidades marcantes na qualidade das UTIs brasileiras, mas também serve como um chamado à ação para a elaboração de estratégias que abordem a saúde intensiva em sua totalidade. Para garantir um atendimento digno e eficaz a pacientes em estado crítico, é fundamental ir além da contagem de leitos, investindo em recursos humanos especializados, infraestrutura adequada, medicamentos e protocolos clínicos consistentes em todos os níveis do sistema de saúde. Somente assim será possível assegurar que cada vida em uma UTI receba o melhor cuidado possível, independentemente do setor.

