Violência Digital Contra Mulheres Dispara Quase 200% em Um Ano, Revela Ministério

Dinael Monteiro
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© Arte Ministério das Mulheres

As denúncias de violência contra mulheres no ambiente digital registraram um aumento vertiginoso de 188,6% em apenas um ano. Dados recentes divulgados pelo Ministério das Mulheres apontam um cenário preocupante, com a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 recebendo 16.725 ocorrências entre janeiro e maio deste ano, um salto significativo em comparação às 5.795 do mesmo período no ano anterior. Este crescimento alarmante evidencia a crescente utilização de redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online e outros espaços virtuais como palco para controle, ameaças, humilhação, exposição indevida, perseguição, intimidação, chantagem e outras formas de agressão que ferem a dignidade de meninas e mulheres.

Aumento Real ou Redução da Subnotificação?

Apesar dos números impressionantes, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, oferece uma perspectiva adicional: o aumento nas denúncias pode, na verdade, sinalizar uma bem-vinda redução da subnotificação. Segundo a ministra, ter acesso a dados mais realistas é fundamental para que governos e políticas públicas possam formular respostas eficazes e assertivas. Essa possível diminuição na lacuna entre a realidade e o que é reportado pode ser atribuída a dois fatores cruciais: o crescente nível de confiabilidade das vítimas no serviço do Ligue 180, sentindo-se mais seguras para buscar ajuda, e o aprimoramento contínuo da qualidade do atendimento e do acolhimento oferecido pelo canal, que incentiva mais mulheres a formalizarem suas queixas.

Capacitação e Modernização do Atendimento no Ligue 180

Diante da complexidade da violência digital, o Ministério das Mulheres, em colaboração com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom/PR), implementou uma qualificação intensiva para cerca de 350 atendentes do Ligue 180. Realizada entre 9 de junho e a última segunda-feira (22), a iniciativa visou adequar o serviço a este tipo específico de violência. A coordenadora-geral do Ligue 180, Ellen Costa, explicou que, embora a Central já recebesse denúncias digitais, a atualização do protocolo é essencial para orientar melhor as vítimas sobre os procedimentos em casos de crimes virtuais. Esta especialização é vista como um diferencial crucial para identificar e abordar adequadamente as diversas manifestações da violência online.

Paralelamente à capacitação, o aprimoramento dos dados do Ligue 180 também passa pela modernização do formulário de atendimento. A inclusão de campos específicos para os diferentes tipos de violência digital visa qualificar a coleta de informações, permitindo uma análise mais precisa e a formulação de estratégias de combate mais eficazes. Ellen Costa ressalta que essa modernização demonstra a evolução do serviço, que se estende além das orientações sobre a Lei Maria da Penha, conectando-se diretamente com as realidades contemporâneas enfrentadas por meninas e mulheres.

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O Perfil das Vítimas e o Impacto Desigual

A análise das denúncias revela que a violência no espaço digital tem um impacto desigual. No último ano, as ocorrências de violência digital subiram da sétima para a quinta posição entre os tipos de denúncia mais frequentes no Ligue 180. Os dados de 2022 indicam que quase metade (48%) das vítimas de violência digital são mulheres negras, sendo 37,5% pardas e 10,5% pretas, seguidas por 34,2% de mulheres brancas. A faixa etária mais afetada foi a de 35 a 44 anos, responsável por 21,6% dos casos, com a ampliação para 25 a 49 anos representando mais da metade (50,8%) do total.

Outros fatores socioeconômicos também influenciam o perfil das vítimas. Dados de levantamentos anteriores mostram que 25,7% das mulheres que denunciaram possuíam ensino médio completo. Adicionalmente, a barreira econômica é notável: quase metade das vítimas (45,9%) não possui rendimentos ou ganha até um salário-mínimo, evidenciando que a vulnerabilidade econômica pode agravar a exposição e as dificuldades no enfrentamento da violência digital.

A Nova Legislação para Proteção Online

As ações de capacitação e atualização do Ligue 180 estão em consonância com o Decreto Presidencial nº 12.976/2026, que entrou em vigor na última sexta-feira (19), sessenta dias após sua assinatura. Este importante marco legal estabelece os deveres das plataformas digitais no combate aos crimes de violência contra mulheres na internet, instituindo mecanismos robustos para prevenção e enfrentamento. Marina Pita, diretora na Secretaria de Políticas Digitais da Secom, destacou que o decreto foca na criação de um ambiente seguro, garantindo a liberdade de expressão e a permanência das mulheres no universo digital. O objetivo é claro: combater a violência que, muitas vezes, resulta na expulsão das mulheres desses espaços, assegurando que elas possam continuar a se manifestar livremente e de forma segura.

O aumento substancial das denúncias de violência digital é um chamado urgente à ação, mas também um indicativo de que mais mulheres estão encontrando coragem e meios para denunciar. A combinação de serviços de atendimento aprimorados, uma compreensão mais profunda do perfil das vítimas e uma legislação focada na proteção online são passos cruciais para edificar um ambiente digital mais seguro e equitativo, onde a presença e a voz das mulheres sejam preservadas e respeitadas.

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