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Vozes Infantis Desvendam e Combatem o Racismo Ambiental em Novo Glossário

Dinael Monteiro
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© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em um país de profundas desigualdades como o Brasil, comunidades ribeirinhas, favelas e territórios indígenas são desproporcionalmente afetadas por injustiças socioambientais. Esse cenário, conhecido como racismo ambiental, manifesta-se no conjunto de desvantagens e consequências mais severas impostas a etnias e populações vulneráveis em relação a questões climáticas e de infraestrutura. Para lançar luz sobre essa realidade e fomentar a conscientização, a ActionAid, uma organização internacional dedicada à justiça social, em parceria com diversas entidades locais, lançou um projeto inovador que dá voz a quem mais sente esses impactos.

A iniciativa culminou na publicação do livro 'Pequenos Grandes Saberes: Um Glossário Climático pelo Olhar de Crianças e Adolescentes', uma compilação de relatos e ilustrações que traduzem, na perspectiva de jovens entre 7 e 17 anos, os desafios de viver em territórios marcados pela falta de saneamento básico, calor extremo, alagamentos e outras expressões da injustiça socioambiental.

O Projeto e a Construção Coletiva do Conhecimento

O glossário é o resultado de um processo colaborativo que se estendeu por três anos, envolvendo cerca de 350 crianças e adolescentes de seis estados brasileiros. Entre as comunidades participantes, destacam-se o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro; Heliópolis, em São Paulo; o território indígena Xakriabá, em Minas Gerais; comunidades rurais do interior de Pernambuco; territórios quilombolas na Bahia; e comunidades de quebradeiras de coco babaçu no Tocantins. Cada um desses grupos contribuiu com suas vivências únicas, enriquecendo o panorama das injustiças vivenciadas.

A gênese da publicação, conforme explica Carolina Silva, especialista em Educação e Infâncias e uma das responsáveis pela metodologia do projeto, surgiu da percepção do incômodo expresso pelas próprias crianças e jovens. Eles já identificavam problemas em seus territórios, mas careciam de ferramentas para nomear essas violências. O glossário, assim, surge como um potente instrumento de expressão, revelando a capacidade crítica e a riqueza dos saberes populares de uma geração que já lida com as consequências de um ambiente hostil.

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A Realidade Através das Palavras Infantis: Exemplos do Glossário

O livro introduz o personagem Akin, que embarca em uma jornada de aprendizado através das definições formuladas pelos jovens colaboradores. As descrições oferecem uma perspectiva contundente e real sobre termos que, para muitos, são meramente conceituais. Na letra 'A', por exemplo, 'Agrotóxico' é entendido pelas crianças como algo inerentemente prejudicial; 'Ação Comunitária' se manifesta através do cuidado mútuo, da distribuição de cestas básicas e da organização de campanhas de vacinação; e 'Água' é um recurso muitas vezes escasso ou de má qualidade, frequentemente com "cor de barro".

A análise crítica dos jovens também se estende a serviços essenciais. Sob a letra 'E', o termo 'Energia' é abordado com a percepção de que, embora as quedas de luz possam afetar a todos, a rapidez na restauração do serviço é determinada pela localização e pelo poder aquisitivo do bairro ou região. Um dos relatos impactantes destaca que "a luz demora pra voltar porque somos pobres, na zona sul eles têm dinheiro e não demora". Já a 'Inclusão', na letra 'I', é traduzida como a simples e profunda ideia de "aceitar todos na brincadeira” ou "ter uma comida legal e boa”, evidenciando uma compreensão intrínseca de justiça social.

O Legado da Iniciativa: Replicabilidade e Impacto Educacional

Além de ser uma ferramenta de conscientização, o projeto foi concebido para gerar um impacto duradouro. A metodologia desenvolvida pela ActionAid e suas organizações parceiras foi integralmente documentada e está disponível na publicação, visando sua replicação em escolas, outros projetos sociais e na formulação de políticas públicas. Essa abordagem visa amplificar o alcance da educação ecológica e ambiental, com uma perspectiva antirracista, em todo o sistema educacional brasileiro.

A construção do glossário contou com a colaboração fundamental de diversas entidades, incluindo Redes da Maré, UNAS Heliópolis, Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), Giral, Conselho Pastoral de Pescadores e Pescadoras (CPP) e Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB). Segundo Ana Paula Brandão, diretora Programática da ActionAid Brasil, capacitar crianças e adolescentes a nomear e articular essas violências é um passo crucial. Ela ressalta que "ouvir o que as crianças e adolescentes têm a dizer sobre sua própria realidade é indispensável, e o glossário é um potente instrumento educativo de mobilização e sensibilização para esse debate".

Em suma, o projeto 'Pequenos Grandes Saberes' transcende a mera denúncia do racismo ambiental. Ele oferece uma plataforma para que as futuras gerações não apenas compreendam as injustiças que as cercam, mas também se tornem agentes ativos na construção de um futuro mais equitativo. Ao dar voz a essas perspectivas autênticas e incisivas, o glossário se estabelece como um recurso valioso para a educação, a advocacy e a transformação social, pavimentando o caminho para um Brasil mais justo e ecologicamente consciente.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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