O Dia Internacional das Mulheres foi marcado por uma poderosa manifestação nas areias de Copacabana, no Rio de Janeiro. Milhares de vozes se uniram em uma marcha vibrante para denunciar o feminicídio e as múltiplas faces da violência de gênero, ao mesmo tempo em que reivindicavam maior investimento e prioridade para políticas públicas essenciais que promovam a igualdade e a justiça social para todas as mulheres.
Vozes Unificadas e um Manifesto Abrangente
Ao longo do percurso, representantes de diversos coletivos feministas se revezaram no carro de som, articulando um manifesto que traduzia as aspirações de um movimento amplo e diversificado. As demandas apresentadas iam muito além da segurança física, abrangendo temas cruciais para a autonomia e dignidade feminina. Entre as pautas, destacavam-se a criminalização de grupos que disseminam ódio contra mulheres, a ampliação dos períodos de licença-maternidade e paternidade como ferramenta de corresponsabilidade familiar, a criação de linhas de crédito específicas para empreendedoras e o desenvolvimento de espaços educacionais verdadeiramente inclusivos para crianças com deficiência ou neurodivergências. A urgência de pôr fim à escala de trabalho 6×1, que impacta desproporcionalmente a jornada feminina, também ressoou forte entre as manifestantes, evidenciando a busca por uma vida mais equitativa em todos os âmbitos.
A atmosfera da marcha era de solidariedade e determinação. Em um dos momentos mais marcantes, as participantes entoaram uma paródia da canção “Eu quero é botar meu bloco na rua”, de Sérgio Sampaio, adaptada para um hino de resistência: “Eu quero é andar sem medo nas ruas. Chega! Queremos viver! Eu quero é ficar sem medo em casa. Chega! Queremos viver!”. Este canto simbolizava o anseio coletivo por segurança e o direito fundamental de viver sem temor, seja no espaço público ou no privado.
O Grito Urgente Contra a Violência de Gênero
Embora a pauta fosse ampla, o cerne do protesto em Copacabana residia no veemente clamor pelo fim da violência de gênero. A dor e a indignação com casos recentes estavam palpáveis, servindo como lembretes sombrios da realidade enfrentada por muitas mulheres. As manifestantes rememoraram tragédias como a morte de Tainara Souza Santos, vítima de atropelamento por seu ex-companheiro, e o hediondo estupro coletivo sofrido por uma adolescente, ocorrido na mesma icônica praia que agora acolhia o ato. Estes exemplos reforçavam a urgência em combater uma cultura que permite tais atrocidades.
Um grupo de pernaltas, que desfilava à frente da marcha, adicionou um elemento artístico e visceral à manifestação. Carregando a faixa “Juntas somos gigantes”, as artistas realizaram uma performance simbólica: deitaram-se no chão com os olhos fechados, em um ato de homenagem às inúmeras mulheres silenciadas pela violência. Em seguida, ergueram-se em círculo, bradando a potente palavra de ordem “Todas vivas!”, transformando o luto em uma declaração de força e resiliência.
O Encontro de Gerações e a Continuidade da Luta
A marcha em Copacabana foi um espelho da diversidade do movimento feminista, reunindo mulheres de diferentes idades e trajetórias. A presença de Rachel Brabbins ao lado de sua filha Amara, de apenas sete anos, que empunhava um cartaz com a frase “Lute como uma menina”, ilustrava a importância de nutrir desde cedo a consciência sobre direitos e voz. Rachel expressou a relevância de sua filha testemunhar a união feminina e entender a luta por igualdade como parte inerente de sua formação.
Em contraponto e complemento à juventude de Amara, estava Silvia de Mendonça, ativista com décadas de militância em coletivos feministas desde os anos 80. Silvia, vestindo uma bandeira com o rosto da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, ressaltou o caráter de resistência da memória de Marielle. Ela descreveu a dor do crime brutal como um reflexo das violências que atingem outras mulheres e afirmou que Marielle se tornou um símbolo de união e força inabalável na luta contra a impunidade e a violência.
Rumo a uma Cultura de Respeito: O Papel de Todos
As organizadoras do ato de 8 de março não se limitaram a convocar apenas mulheres. Reconhecendo que a transformação cultural exige a participação de toda a sociedade, elas estenderam o chamado aos homens. Thiago da Fonseca Martins atendeu a esse apelo, participando da manifestação com seu filho Miguel, de nove anos. Thiago enfatizou a responsabilidade masculina na promoção da igualdade e na desconstrução do machismo enraizado, especialmente na criação dos filhos, alertando para a necessidade constante de autocrítica e diálogo sobre ideias preconceituosas.
A importância da educação como ferramenta fundamental para erradicar a violência de gênero foi reiterada por Rita de Cássia Silva, também presente na marcha. Ela destacou que a cultura misógina é “geracional”, transmitida através de gerações que normalizaram violências, e que é imperativo romper esse ciclo. Rita defendeu iniciativas governamentais que apoiem as famílias na mudança dessa cultura, começando pela conscientização e educação das crianças. A mensagem foi clara: a luta pela igualdade e pelo fim da violência é um esforço coletivo que deve envolver todos os gêneros e gerações, começando na base da sociedade.
O protesto de Copacabana, portanto, não foi apenas uma celebração do Dia Internacional das Mulheres, mas um contundente clamor por justiça, respeito e igualdade. Com vozes unidas e a presença marcante de diferentes gerações e até mesmo homens solidários, a marcha reafirmou o compromisso inabalável com a construção de uma sociedade onde todas as mulheres possam viver livres de medo e violência, exercendo plenamente seus direitos e potências.


